Coronavírus pode construir uma distopia tecnológica – Naomi Klein

Trecho. Para ler o texto completo no The Intercept Brasil, 13/5/2020

Schmidt está certo ao dizer que as salas de aula superlotadas apresentam um risco à saúde, pelo menos até termos uma vacina. Então, que tal contratar o dobro de professores e reduzir o tamanho da turma pela metade? Que tal garantir que toda escola tenha um enfermeiro?

Isso criaria empregos muito necessários em uma crise de desemprego nos níveis da Grande Depressão, e daria a todos no ambiente educacional um pouco mais de espaço. Se os edifícios estão lotados demais, que tal dividir o dia em turnos e ter mais educação ao ar livre, aproveitando as pesquisas abundantes que mostram que o tempo na natureza aumenta a capacidade de aprendizado das crianças?

Introduzir esse tipo de mudança seria difícil, com certeza. Mas eles não são tão arriscados quanto desistir da tecnologia testada e comprovada de humanos treinados ensinando os humanos mais jovens pessoalmente, cara a cara, em grupos em que eles aprendem a socializar uns com os outros.

Ao saber da nova parceria do estado de Nova York com a Fundação Gates, Andy Pallotta, presidente do sindicato de professores do estado de Nova York, reagiu rapidamente: “se queremos repensar a educação, vamos começar tratando da necessidade de assistentes sociais, orientadores psicológicos, enfermeiros escolares, melhorar os cursos de artes, cursos avançados e turmas menores nos distritos escolares de todo o estado”, afirmou. Uma coalizão de grupos de pais também apontou que, se eles realmente estavam vivendo um “experimento de aprendizado remoto” (como Schmidt colocou), os resultados foram muito preocupantes: “desde que as escolas foram fechadas em meados de março, nossa compreensão das profundas deficiências do ensino baseado em telas só aumentou”.

Além das óbvias predisposições de raça e classe contra crianças sem acesso à internet ou não têm computadores em casa (problemas que as empresas de tecnologia estão ansiosas para resolver pelo preço certo, com grandes compras do governo), existem grandes questões sobre se o ensino remoto pode atender muitas crianças com deficiência, como a lei exige. E não há solução tecnológica para o problema de aprendizado em um ambiente doméstico superlotado e/ou abusivo.

A questão não é se as escolas devem mudar diante de um vírus altamente contagioso para o qual não temos cura nem vacina. Como toda instituição onde os humanos se reúnem em grupos, elas vão mudar. O problema, como sempre nesses momentos de choque coletivo, é a ausência de debate público sobre como devem ser essas mudanças e a quem elas devem beneficiar. Empresas privadas de tecnologia ou estudantes?

As mesmas perguntas precisam ser feitas sobre a saúde. Evitar consultórios e hospitais durante uma pandemia faz sentido. Mas a telemedicina deixa escapar muita coisa. Portanto, precisamos ter um debate com base em evidências sobre os prós e contras de investir os escassos recursos públicos em telessaúde — em comparação com o investimento em um maior número de enfermeiros treinados, com todo o equipamento de proteção necessário, capazes de fazer ligações domésticas para diagnosticar e tratar pacientes em suas casas. E, talvez com mais urgência, precisamos encontrar o equilíbrio certo entre os aplicativos de rastreamento do vírus, que podem ter um papel importante com as devidas proteções de privacidade, e os pedidos por um Corpo de Saúde da Comunidade que levaria milhões de americanos ao trabalho não apenas rastreando contatos, mas se certificando que todos tenham os recursos e o apoio que precisam para fazer quarentena em segurança.

Em cada caso, enfrentamos escolhas reais e difíceis entre investir em seres humanos e investir em tecnologia. Porque a verdade brutal é que, como as coisas estão agora, é improvável que façamos as duas coisas juntas. A recusa em transferir qualquer coisa próxima dos recursos necessários para estados e cidades em sucessivos resgates econômicos feitos pelo governo federal significa que a crise sanitária do coronavírus agora está se precipitando em uma crise de austeridade fabricada. Escolas públicas, universidades, hospitais e transporte público estão enfrentando questões existenciais sobre os seus futuros. Se as empresas de tecnologia vencerem sua campanha feroz de lobby para ensino remoto, telessaúde, 5G e veículos sem motorista — o seu Screen New Deal — simplesmente não haverá dinheiro sobrando para as prioridades públicas urgentes, muito menos o Green New Deal que nosso planeta tão urgentemente necessita.

Ao contrário: o preço de tantas engenhocas reluzentes será a demissão massiva de professores e o fechamento de hospitais.

A tecnologia nos fornece ferramentas poderosas, mas nem toda solução é tecnológica. E o problema de delegar as principais decisões sobre como “repensar” nossos estados e cidades para homens como Bill Gates e Erich Schmidt é que eles passaram a vida demonstrando a crença de que não há problema que a tecnologia não possa resolver.

Para eles e muitos outros no Vale do Silício, a pandemia é uma oportunidade de ouro para receber não apenas a gratidão, mas o apreço e o poder que eles sentem ter-lhes sido injustamente negado. E Andrew Cuomo, colocando o ex-presidente do Google no comando da equipe que vai moldar a reabertura do estado, parece ter-lhes concedido quase uma carta branca para que façam o que quiserem.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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