é fascinante…



Coluna de Luiza Sahd no Uol, 24/9/2020

Em um mundo machista,
mulheres que praticam a arrogância vivem melhor

Por Luiza Sahd

[…]

Não me surpreendo mais com as agruras de meu destino, mas, às vezes, desabafo em redes sociais. No dia supracitado, resolvi fazer a seguinte piadinha no Twitter:


Poucos minutos depois da postagem, chegaram alguns homens me explicando que o quadro que escolhi postar se chama “O Jardim das Delícias Terrenas” e que eles adorariam viver num mundo como aquele. Teve um rapaz que chegou dizendo que passei vergonha fazendo essa piada; outro mandou mensagem privada me parabenizando por “postar acidentalmente” uma obra tão linda. Enfim, me faltou de tudo nesse dia, menos homem pra garantir que eu não sabia o que estava fazendo quando escolhi um quadro do holandês Hieronymus Bosch para descrever uma vida insana. Logo eu, Boschzete de Mello.

Gosto de acreditar que todos esses rapazes ficaram com a visão turva quando encontraram tanta gente pelada numa tela — e já foram concluindo que as cenas retratadas por Bosch no “Jardim das Delícias” eram imagens de paquera e azaração. Não são, conforme historiadores da arte do mundo todo já explicaram melhor do que eu.

Confrontada por tantos bacharéis sobre a piada com o quadro, precisei ser meio arrogante e explicar que sabia, sim, do que eu estava falando quando fiz essa graça. Fui vizinha do quadro de Bosch durante quatro anos em Madrid, e adorava passar tempo vendo os detalhes tenebrosos da pintura — inclusive porque eles não têm fim, assim como as coisas estranhas que me acontecem. No “Jardim das Delícias”, assim como na vida da maioria de nós em 2020, muita coisa acontece — e qualquer pessoa que olhe atentamente os detalhes ali vai perceber que ela é extremamente perturbadora. De delicioso, o quadro só tem o nome e as cores. Recomendo vivamente o perfil Bosch Bot para ver detalhes inusitados da obra.

Voltando à questão da arrogância feminina, ninguém tem a obrigação de manjar sobre Bosch. Nem eu tenho, mas foi incômodo perceber como funciona a desconfiança dos homens (exclusivamente, homens) que chegaram correndo para me explicar a piada que eu mesma tinha feito. Eles também não são, claramente, especialistas em arte — mas chegaram palestrando a respeito de algo que não sabem a alguém que sabe, sim. É 10% dessa autoconfiança a que desejo para todas as mulheres. Mas só 10%, porque passando disso, a pessoa acaba fazendo papelões desnecessários como eles. E um pouquinho da arrogância também. É ela que venho cultivando, especialmente quando algum homem questiona habilidades que de fato tenho.

[…]

Para exercitar arrogância aí na sua casa ou no trabalho, você também vai precisar dizer o que precisa ser dito de forma muito educada. Primeiro, porque bater boca com pessoas violentas não produz nada além de aborrecimento. Segundo porque nada assusta mais as pessoas grosseiras do que a educação e a firmeza de uma mulher que não duvida de si mesma quando todo mundo em volta segue duvidando. O que algumas pessoas podem chamar de arrogância feminina a gente pode chamar aqui de reparação histórica.

Para ler o texto completo, clicar aqui.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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