de tolices


Edgard Scandurra foi um crush principal
até antes de Eric Clapton

nem dá para entender essa coincidência de instrumento
já que aqui nosso encantamento sempre foi com piano
(tolice, eu sei)




ganhamos a missão de dar testemunho às gerações vindouras
da época em que havia show ao vivo com plateia de corpo presente…

– Mas, vovó, no grupo do Whats estão dizendo que nunca existiu.
– Existiu sim, netinha. A gente comprava ingresso e ficava todo mundo lá umas duas horas, bem aglomerado. Às vezes bem mais de mil pessoas, num estádio de futebol. Não posso negar que não era muito confortável… Às vezes chovia, e daí você tomava chuva e tudo. E nem sempre tinha onde sentar. Especialmente se você comprasse o ingresso mais caro, para ficar mais perto do palco. E se você ficava longe não via bem o palco, tinha que contar com um telão. Mas não tinha risco de contaminar um monte de gente de uma vez só com um vírus sinistro, sem remédio e sem vacina.
– E ficava na aglomeração sem máscara, vovó?
– Sem máscara, netinha.
– Coisa esquisita, vovó.
– Tinha coisa até mais esquisita, sabe? Tinha gente que pagava um ingresso que custava um olho da cara, se enfiava no desconforto da aglomeração, duas horas em pé, mas assistia o show inteiro pela tela do celular, enquanto filmava tapando a pouca visão de palco de outras pessoas, para depois ver em casa.
– Nossa!
– Pois é. Mas você se emocionava de saber que o Paul McCartney ou o Edgard Scandurra estava lá presente ao mesmo tempo no mesmo espaço que você. Então se prestava a tudo isso. Eu mesma confesso que teria desembolsado uma grana para me enfiar num estádio lotado e tentar ver o Eric Clapton pelo telão. E feliz da vida. Tolices geracionais. Mas me apaixonei eternamente pelo Eric Clapton um pouco tarde para pegar o último show dele no Brasil. Daí veio o coronavírus, com um inominável na presidência, e tal… Foi um pouco depois disso que a gente parou de poder comprar arroz no dia a dia. Não era artigo de luxo na minha época, sabe? Era item de uma coisa que a gente chamava de “cesta básica”. Pena. Eu gostava muito de arroz e feijão. Até diziam que era mais nutritivo. Na verdade, o cardápio era mais variado, mas mesmo que fosse só arroz e feijão, era melhor do que comer só soja com milho, como hoje.
– Credo, vó, tô achando que você virou comunista.
– Cá entre nós, eu também ando achando isso.





Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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