da incapacidade neoliberal




O que está acontecendo com a agricultura brasileira? 59% da área plantada do Brasil hoje é soja. Se você pegar soja e milho, que é agricultura de exportação, são quase 90% da área plantada brasileira. Se você pegar arroz, feijão e outros grãos que são essenciais para a alimentação popular, são 6,7% da área plantada. A soja, o milho, a rentabilidade, a demanda internacional e o preço, e com esse câmbio, com esse dólar, está esmagando a agricultura familiar em produtos que são essenciais.

E, de outro lado, eles acabaram com o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrícola], acabaram com o Plano Safra da Agricultura Familiar, acabaram com o Programa Mais Alimentos, que permitia ao pequeno agricultor comprar equipamentos agrícolas, tratores, destruíram os estoques reguladores. E chegam a dizer o seguinte: “é o mercado que vai regular”.

A regulação do mercado no caso da cesta-base, do alimento básico, do preço e da oferta, é a regulação entre o pescoço e a guilhotina. Porque as pessoas são obrigadas a comer, e esses são os produtos básicos da cesta de alimentos da população brasileira. E não tem oferta, não tem volume, não tem regulação, não tem estoque e não tem importação.

Não só não estão importando, como as exportações de arroz em agosto… é praticamente o dobro do que foi em todo o ano de 2019. Então você está vendendo cada vez mais alimentos para o exterior. Nós vamos ter uma super safra de grãos, 257 milhões de toneladas este ano, a maior safra da história, no entanto é basicamente toda de milho. E é uma agricultura totalmente voltada para fora, sem nenhum compromisso em alimentar o povo.

Foi por isso [pelo compromisso com segurança alimentar] que nós criamos o bolsa-família. Foi por isso que nós criamos o Ministério de Desenvolvimento Agrário, para apoiar a agricultura familiar. Foi por isso que nós constituímos o Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura]. Por isso que nós criamos o PAA, o Programa de Aquisição de Alimentos: 30% da aquisição de alimentos nas escolas públicas era para a agricultura familiar da sua região, para os pais alimentarem os filhos, para garantirem uma alimentação de qualidade.

Essa visão neoliberal é incapaz de entender que é obrigação do Estado e do governo garantir o abastecimento, o preço e o acesso, e aumentar a oferta de produtos. E o que é mais dramático ainda? Eles estão reduzindo o auxílio emergencial, estão acabando com os 600 reais, e 60% dessa verba é para a alimentação [segundo pesquisa DataFolha].

O auxílio emergencial foi uma conquista da oposição. Foi a oposição que induziu o parlamento. Eles são queriam dar 200 reais. E agora ele [o inominável] veio para o que ele quer: 300 reais de auxílio. É muito menos gente que vai receber, um valor muito menor, os valores da cesta-básica aumentando de 20% a 30%, na média os alimentos aumentaram 12%. Então, a inflação, para os de baixo, está batendo no teto. E a renda está desabando. Porque é uma massa de desempregados. Se você pegar desemprego aberto, subutilização e os desalentados, são quase 41 milhões de pessoas. Você está reduzindo o acesso ao auxílio emergencial de forma brusca e brutal, e reduzindo o valor. Eles consomem 61% do valor de 600 reais com alimentação básica, por esses preços.

Então estamos diante de um problema da fome e de carestia poucas vezes visto na história recente do Brasil. Pelo menos nós tínhamos superado: com o aumento do salário mínimo – que há dois anos não tem aumento-, com o bolsa-família, com a geração de 22 milhões de novos empregos, com política de irrigação do Nordeste, com a eletrificação rural – 15 milhões de famílias tiveram acesso – para modernizar, e com programas que aumentavam… Por exemplo, eles estão destruindo a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], retiraram 156 milhões da Embrapa, então estão destruindo a pesquisa, que é a base para modernizar essa agricultura. Nós criamos uma agência de assistência técnica para levar as inovações tecnológicas para a agricultura familiar, que eles também praticamente paralisaram.

Então é uma visão de que a agricultura é só gerar lucro para cada vez menos gente, com uma concentração brutal da terra. É um setor que paga muito poucos impostos. É muito forte politicamente a bancada agrícola. É importante para o Brasil, ela gera superávit comercial, ela equilibra o balanço de pagamentos, ela tem uma importância. 47% do PIB brasileiro hoje é um PIB agrícola. Então é muito importante a gente abrir esse debate sobre política agrícola. Nós vamos lançar o nosso plano de reconstrução do Brasil e esse vai ser um capítulo que vai ser muito bem discutido e aprofundado com rigor. Porque [o atual] é um modelo insustentável.

E é impressionante a ignorância, a incapacidade da grande imprensa corporativa brasileira de discutir temas relevantes como esse. Ninguém quer discutir o que está acontecendo com o Brasil com esse projeto neoliberal.

O neoliberalismo é incapaz de garantir alimentos. É incapaz de enfrentar carestia. É incapaz de manter os preços. Por isso é incapaz de atender as necessidades mais essenciais que a população brasileira tem: comer, o mínimo de condições de dignidade.

Temos uma crise de abastecimento brutal. O Estado tem que ter planejamento. O mercado não regula na velocidade necessária questões essenciais como essa. Isso aí é o fracasso da visão neoliberal. E um governo completamente analfabeto. 

 

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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