o ponto zero


“no centro da própria engrenagem
inventa contra a mola”

As gerações futuras ficarão chocadas
com o fato de nunca termos tido realmente consciência
de que o problema político maior fosse o da igualdade dos sexos.
Essa consciência assinará o momento-chave da revolução.
~Françoise Héritier~



… surge a constatação, reiterada em diferentes momentos da história, do quanto o capitalismo necessita do trabalho não remunerado das mulheres para acumular valor e continuar existindo – à custa da natureza e das comunidades.

(Texto de contracapa)

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PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
DEDICADO A MARIELLE FRANCO

É adequado que O ponto zero da revolução seja publicado no Brasil em um momento em que está ameaçada a vida de todos os brasileiros que não se beneficiam da expansão brutal das relações capitalistas proposta por Jair Bolsonaro. Este livro, na verdade, é em grande parte uma reconstrução das políticas públicas e dos desenvolvimentos que, desde o final dos anos 1970,  reestruturaram a economia global, abrindo caminho para a violência contra o povo e contra o mundo natural defendida por Bolsonaro.

De fato, a guerra declarada por Bolsonaro contra o povo brasileiro e a floresta amazônica é coerente com a velha determinação do capital em privar milhões de pessoas planeta afora de seus meios de reprodução, entregar suas terras, suas águas, suas florestas e seus bairros ao controle de corporações e eliminar quem resiste à desapropriação.

Para milhões, então, no Brasil e além, o “ponto zero” é uma experiência cotidiana. Mas o que o livro argumenta é que o ponto zero é tanto um local de perda completa quanto um local de possibilidades, pois só quando todas as posses e ilusões foram perdidas é que somos levados a encontrar, inventar, lutar por novas formas de vida e reprodução.

Neste sentido, falar de “o ponto zero da revolução” é tanto o reconhecimento de realidades vivas quanto um chamado para uma política de reversão na qual as mulheres desempenham um papel especial como principais sujeitos da reprodução de sua comunidade. “Mulheres”, aqui, é usada como uma palavra codificada, sem que se assuma uma extensão universal e sem a defesa de uma política de exclusão. Além de se referir a histórias de lutas específicas, o que a constitui é uma política centrada no reconhecimento da importância da reprodução tanto como garantia de sobrevivência quanto como possibilidade de resistência.

Para reforçar esse aspecto, a presente edição de O ponto zero da revolução inclui um novo artigo que distancia o feminismo que inspira esse livro do feminismo institucional/estatal promovido pelo capital internacional desde meados dos anos 1970, com a primeira conferência Mundial da Mulher da Organização das Nações Unidas (onu), realizada em 1975, no México. Intitulado “Rumo a Pequim: como a onu colonizou o movimento feminista”, o artigo explora os fatores que motivaram a tentativa de controle das Nações Unidas sobre a política feminista, e seu uso do feminismo para integrar mulheres mais efetivamente à organização global capitalista da exploração.

Um aspecto importante dessa “integração” foi a comercialização das atividades e das capacidades reprodutivas das mulheres e sua posterior subordinação à reprodução das relações capitalistas. Esse desenvolvimento particular é o tópico de outro artigo que este volume acrescenta à coleção original, concentrado na questão do “trabalho afetivo”.

O ponto zero da revolução, assim, não é apenas possível, mas indispensável, se nosso objetivo for recuperar nossa relação com a natureza e com a riqueza que produzimos, nosso corpo, nosso desejo e nossa capacidade de solidariedade, e construir para nós mesmas e nossa comunidade uma “vida digna de ser vivida”, como diz o slogan que hoje em dia é compartilhado por movimentos sociais em todo o planeta.

SILVIA FEDERICI
VERÃO DE 2019

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A confrontação com o “trabalho reprodutivo” — entendido, primeiramente, como trabalho doméstico — foi o fator determinante para muitas mulheres da minha geração, que cresceram após a Segunda Guerra. Depois de dois conflitos mundiais que, no intervalo de três décadas, dizimaram mais de setenta milhões de pessoas, os atrativos da domesticidade e a perspectiva de nos sacrificarmos para produzir mais trabalhadores e soldados para o Estado não faziam mais parte do nosso imaginário. Na verdade, mais do que a experiência de autoconfiança concedida pela guerra a muitas mulheres — simbolizada nos Estados Unidos pela imagem icônica de Rosie the Riveter [Rosie, a rebitadeira] —, o que moldou nossa relação com a reprodução no pós-guerra, sobretudo na Europa, foi a memória da carnificina na qual nascemos. Esse capítulo da história do movimento feminista internacional ainda precisa ser escrito. No entanto, ao me recordar das visitas que fiz com a escola, ainda criança na Itália, às exposições nos campos de concentração, ou das conversas à mesa de jantar sobre a quantidade de vezes que escapamos de morrer bombardeados, correndo no meio da noite à procura de abrigo sob um céu em chamas, não posso deixar de me questionar sobre o quanto essas experiências pesaram para que eu e outras mulheres decidíssemos não ter filhos nem nos tornar donas de casa.

Essa perspectiva antiguerra talvez tenha sido a razão pela qual não pudéssemos adotar uma atitude reformista com relação à casa, à família e ao trabalho doméstico, diferentemente das críticas feministas feitas em um momento anterior. Ao examinar a literatura feminista do início da década de 1970, fico impressionada com a ausência de temas que preocupavam as feministas dos anos 1920, época em que reimaginar a casa em termos de tarefas domésticas, tecnologia e organização espacial era a principal questão para a teoria e a prática feministas. Pela primeira vez o feminismo pressupunha a falta de identificação com a reprodução, não apenas quando realizada para outras partes, mas também quando imaginada para nossa família e nossos parentes. Isso talvez possa ser atribuído ao fato de a guerra representar um divisor de águas para as mulheres, especialmente porque essa ameaça nunca chegou ao fim — pelo contrário, com o desenvolvimento das armas nucleares, só aumentou.

[…] nossa análise da “questão das mulheres” se transformou em uma análise do trabalho doméstico como fator crucial na definição da exploração das mulheres no capitalismo, tema que atravessa a maioria dos artigos desta obra. Como explicam bem os trabalhos de Samir Amin, Andre Gunder Frank e Frantz Fanon, o movimento anticolonialista nos ensinou a ampliar a análise marxiana do trabalho não remunerado para além dos limites da fábrica e, assim, compreender que a casa e o trabalho doméstico não são estranhos ao sistema fabril, mas sim a sua base. A partir daí, também aprendemos a buscar os protagonistas da luta de classes não apenas entre o proletariado industrial masculino, mas sobretudo entre os escravizados, os colonizados e a massa de trabalhadores não remunerados marginalizada pelos anais da tradição comunista, à qual agora podemos acrescentar a figura da dona de casa proletária, reconceitualizada como sujeito da (re)produção da força de trabalho.

(Trechos da Introdução, Silvia Federici, trad. Coletivo Sycorax)



Cartaz e vídeo de Economía Femenista.Clicar sobre a imagem para ir à fonte.






Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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