pra isso tem que ter tempo





DESCANSA
Natalia Siufi Rizzo

Descansa: é tempo de jogar xadrez.
Não existem só três cores nesse arco-íris.
Não se resume a verde, amarelo, vermelho meu coração.
Não se faz política sem discussão.
Não se sai pra rua sem organização, reunião.
Debate.De quarteirão em quarteirão.
Representante de bairro, sabe?
Acho que nossos avós sabiam.
Nossos pais talvez se lembrem.
Ditadura dureza que massacrou nossa classe
Destruiu nossas cozinhas,
Que eram o público da casa,
Os espaços de conversa.

Agora com TVs ligadas,
Iphones, tomadas,
Faces, Tweetadas: ninguém proseia mais nada.
E a mídia, nadando de braçada.
Como quem não quer nada.
Determinando caminhos, abrindo estrada,
Presidindo país sem presidente.
O País Estado-Ausente.
Que é pau-mandado do exterior.

E a Vale do Rio Doce?
E a Samarco? E a lama?
E a MontSanto, com sua microcefalia programada?
E a zika social instaurada?
Isso não vale panelada?

Se a estrela vermelha fosse a sombra,
Era mais fácil.
Difícil é expulsar Capitais internacionais,
multinacionais, impostos, dívidas ilegais,
rediscutir a bancada,
explodir a Explanada,
tocar fogo nesse engrenagem emperrada.

Onde trabalho é vendido à baciada.
E preta e pobre é estuprada.
E favela é turismo de bacana.

Difícil é ter tempo pra conversar,
Construir, organizar outro mundo possível.
Que tenha de fato cores,
que tenha de fato amores.
Que expulse esses tumores.
Que pare de tremer nesses rumores.
Que fortalecendo o que é ser público.
Abandonando o indivíduo-ego, bandido.
Esse sim: roubando nosso espaço,
rompendo laço, impedindo abraço.
E uma vida com mais amor e menos polícia,
é uma vida sem medo.
Sem tanto brinquedo acessório.
Onde o ser humano aprende a lavar sua roupa,
bancar sua vida e cozinhar seu alimento.
E pra isso tem que ter tempo.

Talvez o que nos caiba seja roubar de volta o nosso tempo.
Pra ter tempo de jogar conversa fora.
Desligar os televisores,
falar de nossas dores, de tantos dinheiros tarjas-preta,
indústria farmacêutica, hospitais da morte programada.

É construir outras estradas, sem tantas bandeiras levantadas.
E deixa eles pra lá: deixa a Dilma lá!
Isso é golpe de gente sacana. É machista, imperialista.
Coisa de bacana que quer o Brasil perca tempo
Pra continuar cobaia.
Pra continuar matéria prima de graça.
Pra continuar mão de obra barata.
Pra continuar exportando soja, cana, gado.
Pra continuar comendo enlatado.
Isso não se faz.
Da minha boca em movimento
tem mais cores e menos lamento.
Sigo vivendo.

 

Poema “Descansa” por Natalia Siufi Rizzo (Março2016)
Natália Siufi Rizzo, atriz e integra a Cia.Parlendas de Teatro.
No canal YouTube de Lucia Irene Reali Lemos

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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