Renato Russo e Stonewall



Este domingo (23/06/2019) será dia de passeata do Orgulho LGBT em São Paulo. No FB, alguém compartilhou esta fala do Renato Russo, de 1994, relacionada ao lançamento do álbum Stonewall Celebration, seu primeiro disco solo, totalmente em inglês. Celebro o Stonewall pessoalmente. Foi um disco ouvido milhares de vezes, a ponto de em algum momento talvez ter sabido quase todas as letras de cor. Duas das canções aprendi a tocar no violão. Muitos anos mais tarde, quando “descobri” e me maravilhei com Nick Drake, vi que uma das canções divinas do Stonewall era composição dele.

O que esse disco celebra (e que na época em que o ouvia sem parar eu não tinha claro o que era) é a Rebelião de Stonewall. O contexto da rebelião e a própria estão em alguns detalhes abaixo, em recorte de conteúdo da Wikipedia sem as notas de referências (para o conteúdo completo, clicar aqui).

Infelizmente, vinte e cinco anos depois, o vídeo do Renato Russo soa muito atual. Também o contexto da Rebelião Stonewall, depois de 50 anos.

HOMOSSEXUALIDADE NOS ESTADOS UNIDOS NO SÉC. XX

De acordo com o historiador Barry Adam, após a agitação social da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas nos Estados Unidos sentiram um fervoroso desejo de “restaurar a ordem social pré-guerra e impedir as forças de mudança”. Impulsionado pela ênfase nacional no anticomunismo, o senador Joseph McCarthy realizou audiências à procura de comunistas no governo dos Estados Unidos, no Exército dos Estados Unidos e em outras agências e instituições financiadas pelo governo, levando a uma paranoia nacional. Anarquistas, comunistas e outras pessoas consideradas “não americanas” e “subversivas” foram consideradas riscos de segurança. Os homossexuais foram incluídos nesta lista pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos na teoria de que eles eram “suscetíveis a chantagem”. Em 1950, uma investigação do Senado presidida por Clyde R. Hoey observou em um relatório: “Geralmente acredita-se que aqueles que se envolvem em atos abertos de perversão não têm a estabilidade emocional das pessoas normais” e disse que todas as agências de inteligência do governo “estão totalmente de acordo em que os pervertidos sexuais no governo constituem riscos de segurança”. Entre 1947 e 1950, 1.700 pedidos de emprego federal foram negados, 4.380 pessoas foram dispensadas das forças armadas e 420 foram demitidos de seus empregos do governo por suspeitas de homossexualidade.

Ao longo dos anos 1950 e 1960, o Federal Bureau of Investigation (FBI) e os departamentos policiais continham listas de homossexuais conhecidos, seus estabelecimentos favoritos e seus amigos; o Serviço Postal dos Estados Unidos acompanhava os endereços para onde material referente à homossexualidade era enviado. Os governos estaduais e locais seguiram o exemplo: os bares que atendiam aos homossexuais eram fechados e seus clientes eram presos e expostos nos jornais. As cidades realizavam “varreduras” para “livrar” bairros, parques, bares e praias de pessoas gays. Eles proibiram o uso de roupas de outro gênero sexual e as universidades expulsaram professores suspeitos de serem homossexuais. Milhares de homens e mulheres homossexuais foram humilhados publicamente, agredidos fisicamente, demitidos, encarcerados ou institucionalizados em hospitais psiquiátricos. Muitos viveram vidas duplas, mantendo as suas vidas privadas secretas e separadas das suas vidas profissionais.

Em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria classificou a homossexualidade no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como uma doença mental. Um estudo em larga escala sobre a homossexualidade feito em 1962 foi usado para justificar a inclusão da desordem como um suposto medo patológico e oculto do sexo oposto causado por relações traumáticas entre pais e filhos. Esta visão era amplamente influente entre profissionais médicos da época. Em 1956, no entanto, a psicóloga Evelyn Hooker realizou um estudo que comparou a felicidade e a natureza bem ajustada de homens autoidentificados como homossexuais com homens heterossexuais e não encontrou quaisquer diferenças. Seu estudo surpreendeu a comunidade médica e ela tornou-se uma heroína para muitos homossexuais e lésbicas. A homossexualidade, no entanto, permaneceu no DSM até o ano de 1973.

REBELIÃO DE STONEWALL

A Rebelião de Stonewall foi uma série de manifestações violentas e espontâneas de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia de Nova York que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos. Esses motins são amplamente considerados como o evento mais importante que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT no país.

Os homossexuais estadunidenses das décadas de 1950 e 1960 enfrentavam um sistema jurídico anti-homossexual. Os primeiros grupos homófilos do país tentavam provar que os gays poderiam ser assimilados pela sociedade e apoiavam um sistema educacional não confrontacional para homossexuais e heterossexuais. Os últimos anos da década de 1960, no entanto, foram muito controversos, visto que muitos movimentos sociais estavam ativos ao mesmo tempo, como o movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, a contracultura dos anos 1960 e as manifestações contra a guerra do Vietnã. Estas influências, juntamente com o ambiente liberal da região de Greenwich Village, serviram como catalisadores para as revoltas de Stonewall.

Poucos estabelecimentos recebiam pessoas abertamente homossexuais nos anos 1950 e 1960. Aqueles que faziam isso eram, frequentemente, bares, embora os donos e gerentes raramente fossem gays. Na época, o Stonewall Inn era propriedade do grupo mafioso Cosa Nostra Americana. Ele recebia uma grande variedade de clientes e era conhecido por ser popular entre as pessoas mais pobres e marginalizadas da comunidade gay: drag queens, transgêneros, homens efeminados jovens, lésbicas masculinizadas, prostitutos e jovens sem-teto. As batidas policiais em bares gays eram rotina na década de 1960, mas os oficiais rapidamente perderam o controle da situação no Stonewall Inn. Eles atraíram uma multidão que foi incitada à revolta. As tensões entre a polícia de Nova York e os residentes homossexuais de Greenwich Village irromperam em mais protestos na noite seguinte e, novamente, em várias noites posteriores. Dentro de semanas, os moradores do bairro rapidamente organizaram grupos de ativistas para concentrar esforços no estabelecimento de lugares que gays e lésbicas pudessem frequentar sem medo de serem presos.

Depois dos motins de Stonewall, gays e lésbicas em Nova York ainda enfrentaram obstáculos geracionais e de gênero, raça e classe social para se tornar uma comunidade coesa. No período de seis meses, duas organizações ativistas gays foram formadas em Nova York, concentrando-se em táticas de confronto, e três jornais foram estabelecidos para promover os direitos para gays e lésbicas. No período de alguns anos, várias organizações de direitos gays foram fundadas em todos os Estados Unidos e no resto do mundo. Em 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay aconteceram em Nova York, Los Angeles, São Francisco e Chicago, em comemoração ao aniversário dos motins. Marchas semelhantes foram organizados em outras cidades. Hoje, os eventos do orgulho LGBT são realizados anualmente em todo o mundo, geralmente no final de junho, para marcar as revoltas de Stonewall. Em 24 de junho de 2016, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama oficializou o palco principal da revolta, o bar Stonewall Inn, como um monumento nacional.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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