voar, voar, voar




“eu me desiludi com tanta coisa,
mas essas desilusões
foram também
momentos de liberdade:
voar, voar, voar”

– Rubem Alves –



E um banho quente é emblemático das felicidades.


“A alegria nunca vem em coisas grandes.
Eu tive muitos momentos grandes na minha vida,
de formaturas, de medalhas, essas coisas.
Não tenho a menor memória de felicidade desses momentos. […]
É que felicidade é muito grande,
não existe felicidade,
o que existe são momentos de alegria […], felicidades
… tomar um banho quente!”


É assim mesmo para mim, Rubem Alves. Exatamente assim.

(Ele falando lembra demais o Eduardo Suplicy. Só eu acho?)





E o Abujamra faz uma coisa tão emblemática do imaginário ainda prevalente do “saber”: os alunos da pós de Rádio e TV não tinham lido Eurípedes, portanto não sabiam nada. (Creio que é parafraseável mais ou menos assim: “EU li, então EU considero ter valor superior a qualquer coisa que vocês tenham lido e possam saber e EU não.) O que isso diz e sobre quem? Sobre o que os alunos sabiam? Ou sobre o Abujamra? Da minha parte, a principal gratidão para com a universidade talvez tenha sido incendiar a torre dessa “vaidade da grade” supostamente finita e passada em tábua de lei universal pelos deuses, sobre a qual o imaginário do saber antes dela operava. Livrai-me desse mal, sempre, amém. Mas nem com todo mundo a universidade fez o mesmo. Nem sei bem como fez comigo, mas ainda bem que fez, porque foi um caso de, ao mesmo tempo, desilusão e libertação. Voar, voar, voar. Uma vez alguém meio que se escandalizou de eu não ter lido certa obra importante e respondi: “talvez foi porque eu estivesse lendo coisas como a Bíblia (incluída a Torá em uma edição bilíngue, para tentar entender um pouco do hebraico bíblico), e o Mahabharata (na tradução de uma adaptação para o inglês, bem resumida, que foi o que tive acesso na época, e dizem que o original é imenso, e de sânscrito ainda não aprendi nada). Esses você leu?” Não, a pessoa não tinha lido. Sei lá, para mim foram leituras importantes… Ontem mesmo aprendi a fazer shimeji na manteiga. É ridiculamente fácil, mas eu não sabia. Só mais uma das infinitas coisas que não vou saber até o dia em que aprender. E sei que sempre vai ter infinitas que não li até o dia em que ler. Muita coisa importante para aprender e ler ainda, por mais que os anos passem. Não sei se mais ou menos importantes que ler Eurípedes. (Com toda a admiração que terei sempre pelo Abujamra, a despeito de algum clássico que eu venha a descobrir que ele não tivesse lido antes de morrer, mas que EU já li antes dos 80 anos. Para a geração dele, mais difícil pular fora dessa torre, tenho suspeitado.)


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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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