O velho, o menino e o burro


A pessoa do blog Eureka Parenting postou “O velho, o menino e o burro” como sua fábula favorita. Talvez seja a minha favorita também, embora ache difícil escolher: há muitas fábulas fabulosas (com a licença do trocadilho). Só que eu estava procurando também a autoria. Pelo que me lembro, meu primeiro contato foi por áudios de uma coleção de gravações dramatizadas de histórias para crianças, em espanhol. O blog Eureka Parenting atribui essa fábula a Esopo. No longo índice remissivo do livro intitulado Fábulas completas de Esopo parece não haver título que corresponda a ela. Daí que também tenho um livro de fábulas de Fedro (não sei se completas) e não localizei lá. Seria de La Fontaine? Também tenho um livro das fábulas de La Fontaine (como se vê, fábulas realmente têm me interessado). Este de Fables de La Fontaine está em francês, é quase uma relíquia, mas infelizmente não sou capaz de ler fábulas em francês (ainda). E daí que tem lá uma intitulada “Le meunier, son fils et l’âne”, com uma ilustração que parece corresponder a esta mesma história. O Google Tradutor traduz o título como “O moleiro, seu filho e o burro”. E jogando esse título em francês no Google encontra-se o mesmo texto completo do livro em francês. E jogando um trecho no Google Tradutor, mesmo na tradução desconjuntadíssima que sai, parece que finalmente um dos livros que tenho tem essa fábula: La Fontaine. Daí o texto na lateral da página web em francês, que jogo no Google Tradutor (claro), diz que deve ter sido escrita em 1647, mas diz também que “certamente vem de Esopo” (sabe-se que muitas das fábulas de La Fontaine resultam de compilação e reescrita das de Esopo).
Enfim, sabe-se também que autorias de fábulas são coisas complicadas. Mesmo das de Esopo, pode ser que sejam compilações de outras mais antigas, de tradição oral (ou de indianas do Pañcatantra ou Kalila e Dimna), lembro vagamente de ter lido alguma vez. Vai a fábula no mesmo texto postado no blog Eureka Parenting, restando as dúvidas sobre a fonte dessa versão em português e sobre a origem mais antiga dessa fábula (Esopo?, La Fontaine?, outra?). Fica também o link para o texto em francês de La Fontaine aqui.


Do que observo me confundo!
Por mais que a gente tente agradar, não consegue tapar a boca do mundo.
E meu neto, que nos sirva de lição:
É mais tolo, quem dá ao mundo satisfação!

“Le meunier, son fils et l’âne” est certainement une fable écrite très tôt par La.Fontaine, peut-être une vingtaine d’années avant la publication du premier recueil. Cette histoire figure dans les “Mémoires” de Racan qui l’a reçue de Malherbe, qui l’avait lui-même puisée dans les ouvrages italiens (Le Pogge, Faërne, parus au 16ème siècle) et qui vient certainement d’Esope. La Fontaine dédie cette fable à son ami de toujours : François de Maucroix. Ils étaient aussi hésitants l’un que l’autre quant au choix de leur carrière. La Fontaine, après un an à l’Oratoire, s’était dirigé vers le droit, puis s’était marié, devant l’insistance de son père. Maucroix, avocat, avait raté sa vie sentimentale après un impossible amour avec Mlle de Joyeuse. Il allait devenir chanoine à Reims ; c’est certainement à cette époque que la fable a été écrite (vers 1647). La première fable du livre II : “Contre ceux qui ont le goût difficile” et celle-ci se font un peu écho dans le sens où toutes deux parlent de la difficulté à contenter tout le monde…

[Clicar sobre a imagem para ir à fonte.]



Há muito, muito tempo, um velho convidou o seu neto para ir com ele à terra mais próxima vender o burro que tinha. Combinaram que partiriam no dia seguinte, logo pela manhã, para poderem chegar bem cedinho ao mercado. Seguiam a pé, pois o avô achava que venderia melhor o burro se ele chegasse com um ar pouco cansado. E assim partiram com o avô e o menino a andarem pela estrada fora ao lado do burro.

No caminho, cruzaram-se com algumas pessoas, que imediatamente começaram a troçar:

 Olhem aqueles é que são tolos. Têm um burro e vão a pé. O mais estúpido dos três não é quem se esperaria. O burro afinal não é nada burro. Ahahaha!

O velho não gostou nada que troçassem dele e disse ao seu neto para se sentar em cima do burro. Seguiam caminho tranquilos quando , um pouco mais adiante, passaram por três mercadores.

—Olhem, olhem, mas o que é que temos aqui?! — disse um deles. — Respeita os mais velhos, rapaz. Desmonta e deixa o teu avô ir montado no burro, que já é muito velho para ir a pé. Tu, que tens as pernas fortes e novas, é que vais sentado no burro, e o teu avô, já velhinho, é que vai a pé?

Embora ainda não estivesse cansado de caminhar, o velho pediu ao neto para sair e montou ele no burro. Andaram apenas um pouco mais até passarem por algumas mulheres que também iam para o mercado.

— Olhem este velho — disse uma delas. — A pobrezinha da criança é que vai a pé e ele vai todo repimpado no burro. Que pouca sorte tu tens, meu menino…

O velho sentiu-se envergonhado uma vez mais, mas para se mostrar agradável pediu ao neto que subisse no burro. Assim iriam os dois montados em cima dele e parariam os comentários. O rapaz obedeceu e continuaram a viagem agora os dois montados no burro. Um pouco mais adiante, um grupo de pessoas interpelou-os com indignação:

— Mas será que quereis matar o burrinho? Pareceis mais capazes vós de carregar o burro do que o contrário.

Ai, ai, ai, … O velho e rapaz desmontaram imediatamente. Passado um bocado, quase a chegarem ao mercado, gerou-se um enorme burburinho ao verem os dois carregando o burro atado num pau, que transportavam nos ombros de ambos. Juntou-se uma multidão para observar a cena que achavam muito estranha.

— Olhem estes doidos varridos. Eles é que são os burros do burro!

O velho já estava mesmo farto e exclamou zangado:

— Do que observo me confundo! Por mais que a gente tente agradar, não consegue tapar a boca do mundo. E meu neto, que nos sirva de lição: É mais tolo, quem dá ao mundo satisfação! 


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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