mais um da infinita série



“É falta de amor achar graça em incomodar os outros”, disse C. S. Lewis. Eu já diria que achar graça em causar constrangimento, fazer de tonto e infernizar a vida alheia é agressividade patológica mesmo.



Sobre o episódio dos machos-alfa brasileiros dando vexame sexista na Copa: esse tipo de violência na vida de mulheres é tão desde sempre, é tão cotidiana, que a gente acaba cansando de comentar. Duas historinhas que ilustram o que quero dizer.

Aos meus 10 anos, houve uma festa de aniversário com turma da escola, em que meninos dançaram com meninas. Daí os meninos disseram para a cidade inteira que “comeram” as meninas na festa. Primeiro, esquisitíssimo o pressuposto de isso ser trunfo para se vangloriar publicamente. Difícil ver lógica para explicar. Parece ser mais ou menos assim: homem “comer” mulher é bom para homem e vergonha para mulher. Homem que “come” mulher é esperto, porque significa que enganou a mulher, de quem é inimigo natural. Quando ele “come”, é porque a fez de idiota. Isso é legal justamente porque mulher é inimigo natural. Daí ele conta para aliados como derrotou um inimigo na guerra, o que é uma vergonha para o inimigo. Como se não bastasse, tem também isto: se não “comeu”, deve mentir, porque é outra forma de vitória contra o inimigo. Além de surreal e detestável do início ao fim, de assombrosa agressividade gratuita e estupidez. Mas parecia a lógica subjacente da mentira dos meninos de 10 anos. Tinham idade para tirar isso da própria cabeça? Duvido. Os pais certamente acharam piada engraçada incitá-los. É a educação que crianças do sexo masculino parecem receber costumeiramente. Esquadrinhar intimidade e aparência no formato fofoca sexista, mentir, constranger, humilhar, tratar como idiota… Tudo que todo mundo detestaria receber como tratamento e acharia uma porcaria ética, é ensinado como legal, esperto, engraçado, quando o alvo são mulheres.

Segunda historinha. Aos 12 anos, a mãe de uma amiga de escola foi morar na França, as filhas com ela. Recém-chegada na França, minha amiga de 12 anos e a irmã de 10 anos fizeram um passeio de barco com uns meninos. Na volta, gritaram para os meninos, da margem: “Elas voltaram virgens?” Um deles respondeu, berrando do barco: “Precisa perguntar se eram virgens antes”. Todo mundo riu da piada. Até que minha amiga respondeu: “Melhor perguntar antes o quanto que eu entendo francês”.

Isso é assim: desde a mais tenra idade, o tempo todo, e todo mundo sabe que é, não é? Nem por isso deixa de ser destrutivo, desagradável, constrangedor, violento. Quando viraliza em vídeo de internet, quando sai da sombra para público amplo, a cara feia da coisa fica mais visível, para vexame público da típica ética machista. “Ai, é brincadeira”. Nossa, morri de rir da sua brincadeira, cara.

Se tem algo de bom nisso, é ter desenvolvido cedo um “sensor de machismo”, junto com alergia a machismo, antes mesmo de saber da existência das palavras “machismo”, “misoginia”, “feminismo” etc. Porque para isso é suficiente ter senso ético intuitivo diante dos acontecimentos da vida. Meu sensor de machismo é apurado. Ativado, ativam-se também distanciamento máximo e contato mínimo. É que machista não precisa de muito contato – aliás, não precisa de contato nenhum -, para começar a reduzir alguém a degradação e/ou a hipersexualização coisificadora, desagradável, obsessiva e fora de lugar. Então, que fiquem no seu mundo de louvação da falta de ética para alvos seletivos, suas violências “engraçadas”, e não venham infernizar. Meu sensor de machismo produz uma sensação de repulsa instantânea, de modo que não há chance de eu desenvolver sentimento de amizade por machista, menos ainda de me apaixonar por um. Isso ajudou a conviver em ambientes privados mais saudáveis. Meus amigos e meus namorados em geral foram ótimos, excepcionais, nos limites do que podem ser pessoas criadas numa sociedade em que violência sexista é valorizada, ensinada, incentivada, e portanto é a norma.

E cada vez que vejo mais uma da infinita série, até penso em comentar, mas muitas vezes o que sinto é #cansaço. Até porque, se for comentar uma a uma, a gente não faz outra coisa nesta vida. Daí passa-se a preferir destinar o mínimo de tempo e energia a essas coisas, tirar da frente e da mente o mais rápido possível, para ir tratar do que que vale a pena na vida. O problema é, além do inferno psíquico gotejando cotidianamente na vida toda (o que não é pouco): esse tipo de mentalidade e comportamento estão por trás também de crimes graves como feminicídio e estupro. Então, para o episódio dos machistas engraçados da Copa, aproveito que a Míriam Morais teve saco para fazer alguns comentários.





PS para concordar com o texto do Contardo Calligaris, “Os boçais são perigosos”: Não é molecagem não, Miriam, é canalhice perigosa. Por mais tolerada e minimizada que socialmente costume ser, não tem nada de infantil e inofensivo: esses canalhas “são farinha do mesmo saco dos skinheads que se juntam para massacrar uma travesti, dos nazistas que saíam procurando um judeu para lhe cortar a barba, dos jovens que colocaram fogo no índio Galdino, numa rua de Brasília“. Especialmente quando encontram quem ache suas violências engraçadas, quando “procuram e encontram no grupo a autorização para serem canalhas”.


E um PS2 para recomendar também a entrevista do Renato Janine a respeito: “Precisamos nos desvencilhar do humor retrógrado, racista e sexista“. “… resulta em agressão, assassinato, preconceito na hora de contratar, vai resultar em todo o tipo de coisa no qual essa aparente piada é apenas a ponta de um iceberg, porque o que vem junto disso é muito grave. Não é brincadeira, não é piada.” Pois é. E já mais do que passou da hora de todos pararmos de achar que infernizar a vida alheia tem alguma graça.


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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