Frases de defeito – Mouzar Benedito


Normalmente espero um tempinho da publicação original para reproduzir aqui alguma coisa de que gosto em outro blog. Mas esse texto do Mourzar Benedito de hoje está tão bom que não aguentei esperar.



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Blog da Boitempo, 24/11/2015

FRASES DE DEFEITO: QUEM NUNCA COMETEU

Por Mouzar Benedito

“Quem entra na chuva é para se queimar”, dizia Vicente Matheus, então folclórico presidente do Corinthians.

Suas frases ficaram célebres. Por exemplo: quando se falava de times que queriam tirar o jogador Sócrates do Corinthians, levando-o por empréstimo ou comprando o passe dele, Matheus foi firme: “O Sócrates é invendável e imprestável”.

Em outra ocasião, discutia-se as novas qualidades exigidas dos jogadores de futebol, que já não podiam atuar como antigamente, quando jogador da defesa tinha que ser bom na defesa, e atacante tinha que ser bom no ataque, e ponto final. Passou-se a exigir que defensores fossem igualmente bons como atacantes e vice-versa. O presidente corintiano sapecou: “Jogador atual tem que ser igual pato, que é ao mesmo tempo aquático e gramático”.

Mas muitas frases atribuídas a ele são de autoria de outras celebridades futebolísticas. Por exemplo: antes da existência da Ambev, que depois virou Embev, e se tornou dona das cervejas mais vendidas aqui e em outras partes do mundo, a grande competição entre as cervejas no Brasil era entre a Antarctica e a Brahma. Numa época, a Antarctica dava uma caixa de cerveja para o melhor jogador em campo. Num jogo entre Grêmio e Internacional, o ponta Valdomiro, do Inter, foi considerado o melhor em campo e ganhou uma caixa de cerveja. Foi entrevistado e falou: “Quero agradecer à Antarctica pela caixa de Brahma que ela me deu”.

No Bahia, um grande craque da bola e das frases malucas era o jogador Baiaco. Num clássico contra o Vitória, estava machucado e não pôde jogar. Mas declarou antes do jogo: “Comigo ou sem migo o Bahia ganha”.

Lembro-me de um jogador português que chutava bem com o pé direito, mas o esquerdo dele só servia para andar. Não sabia usar o pé esquerdo nem para passar a bola. Mas um dia definiu o jogo com um golaço feito com um chute de esquerda. Numa entrevista depois do jogo, foi perguntado sobre isso e declarou: “Chutei com o pé que estava mais à mão”.

Bom, mas não é só no futebol que acontecem essas coisas. Nem na TV, como a personagem Magda, de Marisa Orth, que só falava besteiras.

Lá pelo final do milênio passado (!), funcionários da Assembleia Legislativa de São Paulo coletaram um monte de frases publicadas em jornais e revistas e outras ditas por gente dali e de fora, inclusive por um assessor parlamentar muito bem pago, mas autor de joias como as pronunciadas por esses personagens que citei. Segundo alertavam os autores da coletânea nenhuma foi inventada. Tudo isso circulou pela internet, com o título “frases de defeito”, e chegou até a mim.

Mexendo nos arquivos esquecidos do meu computador, achei essa coletânea, que é muito extensa. Selecionei algumas delas e até mexi um pouco nelas. Aí vão:

O doente entrou em estado de goma.

* * *

Aquele bar está em franga decadência.

* * *

Ele foi com muita sede ao poste.

* * *

Foi demitido por justa calça.

* * *

Antes de assinar o contrato, é preciso ler nas estrelinhas.

* * *

O tiro saiu pela catraca.

* * *

É um poema de minha larva.

* * *

Estou com os nervos à cor da pele.

* * *

Eu se fiz por si mesmo.

* * *

Fiquei com a pulga atrás da ovelha.

* * *

O deputado apresentou um projétil de lei.

* * *

Me pegou de enxofre.

* * *

Por ela eu ponho a minha mãe no fogo.

* * *

Essa é uma questão de forno íntimo.

* * *

Vamos separar a joia do trigo.

* * *

Não entendo nada disso. Sou meigo no assunto.

* * *

Me pegaram para bode respiratório.

* * *

Não dá para adivinhar o que vai acontecer. Não tenho bola de neve.

* * *

Acendeu o olhoforte.

* * *

Depois de morar muitos anos lá, requerem uso campeão.

* * *

Vou me abastecer de dar minha opinião.

Em 1968 já tinha disso

Em 1968, muitas assembleias estudantis eram feitas na rua Maria Antônia, em frente ao prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP. Mas nem só estudantes da USP participavam. Qualquer um podia chegar lá e até pedir a palavra e discursar. Em meu livro “1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura”, publicado pela Publisher Brasil, eu me lembrei de algumas histórias acontecidas naquele período.

Um estudante do Mackenzie subia de vez em quando ao palanque para pedir moderação. E tentava mostrar otimismo. Fingia que não havia ditadura. Uma vez, para falar que era preciso acreditar mais no Brasil (e no governo), falou: “Gente… O Brasil é um país tão grande que vai de norte a sul e de leste a oeste”. Gargalhada geral. Que país não vai de norte a sul e de leste a oeste? Até o Chile que é bem magrinho vai de leste a oeste também.

Outra história de pouco depois aconteceu durante a visita da Rainha Elizabeth ao Brasil, durante o governo Costa e Silva. O presidente tomou umas, ficou meio chumbado, e num brinde a ela falou: “God… God…” (não se lembrava do “save” e sapecou): “God, God… the queen!”.

Na época do “Milagre Brasileiro”, parte da classe média ganhou mais dinheiro do que de costume e começou a viajar para o exterior. Todos os dias aconteciam coisas muito “interessantes”, com esses novos viajantes. Uma brasileira que foi à França, conheceu algumas pessoas em Paris e quis fazer um doce brasileiro para elas. Acho que era arroz doce. Precisava de canela, procurou na cozinha e não tinha. Resolveu ir comprar na farmácia (!). Como outras pessoas dessa estirpe, achava que para falar francês era só colocar um acento no final das palavras, transformando-as em oxítonas. Chegou na farmácia e pediu “canelá”. O homem não entendia e ela repetia “canelá, canelá”. Continuava não entendendo. Para “facilitar” o entendimento dele, ela passou a bater com o nó de um dedo na sua própria canela e continuou falando repetidamente: “Canelá, canelá…”

E nem mesmo gente mais graduada, ou pelo menos politizada, escapava de besteiras como essa. Um cara que chegou a Paris como exilado, na primeira reunião que teve com franceses, quis mostrar firmeza política e coerência. No meio da discussão, lembrou-se daquele ditado: “Comigo é assim: pão-pão, queijo-queijo”, e achou que podia traduzir isso literalmente. Fez pose e sapecou “Avec moi c’est ainsi: pain-pain; fromage-fromage”. Os franceses não entenderam nada, e ele ficou se sentindo o máximo.

Para terminar, volto às assembleias da rua Maria Antônia. Mas os personagens não eram estudantes, e sim duas crianças, um menino e uma menina. Na época, morador de rua era raridade, e criança mais ainda. E o que disseram é uma exceção neste texto: não foram “frases de defeito”. Ficaram ouvindo os discursos dos estudantes contra o Acordo MEC-USAID, contra a guerra do Vietnã, contra a ditadura, contra o imperialismo e outras ruindades mais. Prestavam bastante atenção, até que a menina, se desiludiu, sentou na calçada e falou triste: “Eu não entendo nada do que eles falam”. O menino puxou-a pela mão e disse: “Levanta e bate palmas. Eles também não gostam de polícia”.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo,Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

 

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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