Sobre a celeuma do livro didático



Adoniran Barbosa

Otro dia incontremu co’Arnesto que pidiu discurpa mais nóis nu’aceitemu.
“Isso num si faiz Arnesto”.



Vira e mexe me vejo querendo voltar ao texto “Aceitam tudo” do Sírio Possenti, linguista professor da Unicamp, publicado em 2011, no calor das indignações sobre o livro didático que “aceitava” que alguém falasse “os livro”. E nem sempre é fácil voltar a encontrar esse texto. Agora mesmo, passei um tempão rastreando o lugar de publicação original (Terra Magazine, e não deu pra evitar arregalar unzóião: seção “entretenimento”!) Então, finalmente (antes tarde do que nunca), armazeno o tal texto neste armazém.  Aí aproveito para mais algumas coisas de que também gostei na época, sobre o tema. Enfim, não sei quanto a vocês, mas para mim é um bálsamo alguém dizendo algo interessante e instrutivo, com propriedade, de uma área sobre a qual tem um sólido conhecimento.


Terra Magazine, 19/05/2011.

ACEITAM TUDO

Sírio Possenti

De vez em quando, alguém diz que lingüistas “aceitam” tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). Um comentário semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.

Mas a razão para tentar ser claro não tem mais a ver apenas com aquele comentário. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentários, entrevistas etc. a propósito de um livro de português que o MEC aprovou e que ensinaria que é certo dizer Os livro. Perguntado no espaço dos comentários, quando fiquei sabendo da questão, disse que não acreditava na matéria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso à indigitada página, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler.

Vou tratar do tal “aceitam tudo”, que vale também para o caso do livro.

Primeiro: duvido que alguém encontre esta afirmação em qualquer texto de linguística. É uma avaliação simplificada, na verdade, um simulacro, da posição dos linguistas em relação a um dos tópicos de seus estudos – a questão da variação ou da diversidade interna de qualquer língua. Vale a pena insistir: de qualquer língua.

Segundo: “aceitar” é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.

Não só não se pergunta se eles “aceitam”, como também não se pergunta se isso tudo está certo. Como se sabe, houve época em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraçado pelos médicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mãos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autópsia e fosse verificar o grau de dilatação de uma parturiente). Não faltou quem dissesse “quem é ele para mandar a gente lavar as mãos?”

Ou seja: não se trata de aceitar ou de não aceitar nem de achar ou de não achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, três quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estávamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! Não era um congresso científico, nem um julgamento do Supremo!

Um linguista simplesmente “anota” os dados e tenta encontrar uma regra, isto é, uma regularidade, uma lei (não uma ordem, um mandato).

O caso é manjado: nesta variedade do português, só há marca de plural no elemento que precede o nome – artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, três quilo). Se houver mais de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invariável. O linguista isso, constata isso. Não só na fila do supermercado, mas também em documentos da Torre do Tombo anteriores a Camões. Portanto, mesmo na língua escrita dos sábios de antanho.

O linguista também constata the books no inglês, isto é, que não há marca de plural no artigo, só no nome, como se o inglês fosse uma espécie de avesso do português informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele não tem alternativa! É um dado, é um fato, como a combustão, a gravitação, o bico do tucano ou as marés. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse é outro departamento, ao qual volto logo.

Faço uma digressão para dar um exemplo de regra, porque sei que é um conceito problemático. Se dizemos “as cargas”, a primeira sílaba desta sequência é “as”. O “s” final é surdo (as cordas vocais não vibram para produzir o “s”). Se dizemos “as gatas”, a primeira sílaba é a “mesma”, mas nós pronunciamos “az” – com as cordas vocais vibrando para produzir o “z”. Por que dizemos um “z” neste caso? Porque a primeira consoante de “gatas” é sonora, e, por isso, a consoante que a antecede também se sonoriza. Não acredita? Vá a um laboratório e faça um teste. Ou, o que é mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga “as gatas” e perceberá a vibração. Tem mais: se dizemos “as asas”, não só dizemos um “z” no final de “as”, como também reordenamos as sílabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas (“as” se dividiu, porque o “a” da palavra seguinte puxou o “s/z” para si). Dividimos “asas” em “a.sas”, mas dividimos “as asas” em a.sa.sas.

Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem só teve aula de certo / errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difícil entender que o trabalho do linguista é completamente diferente do trabalho do professor de português.

Não “aceitar” construções como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais “chocantes” é, para um linguista, o que seria para um botânico não “aceitar” uma gramínea. O que não significa que o botânico paste.

Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasça no ano 2500. Suponha que o português culto de então inclua formas como “A casa que eu moro nela mais os dois armário vale 300 cabral” (acho que não será o caso, mas é só um experimento). Seu descendente nunca saberá que fala uma língua errada. Saberá, talvez (se estudar mais do que você), que um ancestral dele falava formas arcaicas do português, como 300 cabrais.

Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.

O linguista não propõe isso por duas razões: a) as pessoas já sabem falar os livro, não precisam ser ensinadas (observe-se que ninguém fala o livros, o que não é banal); b) ele acha – e nisso tem razão – que é mais fácil que alguém aprenda os livros se lhe dizem que há duas formas de falar do que se lhe dizem que ele é burro e não sabe nem falar, que fala tudo errado. Há muitos relatos de experiências bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relação à fala dos alunos.

Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou não.

PS 1 – todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.
PS 2 – Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: “quando eu TAVA na escola…”. Uma carta de leitor que criticava a forma “os livro” dizia “ensinam os alunos DE que se pode falar errado”. Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse “a língua é ONDE nos une” e Monforte perguntou “Onde FICA as leis de concordância?”. Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!
Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.
Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br
Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.



—————————————————————————————

O editorial do Estadão, na época, aproveitava para escrachar Haddad, que era Ministro da Educação (“esses petralhas”, sacou?). E evocava a autoridade da… Academia Brasileira de Letras. Estava vendo lá na Academia Brasileira de Letras José Sarney, Merval Pereira…, e me perguntando quem me inspira mais em termos de intelectualidade, se isso ou o Haddad. Mas minhas expectativas atuais sobre o Estadão e a Falha não são mesmo lá grande coisa.

E o Caetano, gente, que sempre defendo quase incondicionalmente, num inspirado Momento Reinaldo Azevedo (ó dor), foi sugerir que Sírios Possenti eram, secretamente, movidos por ciúme do sucesso midiático de professores de gramática normativa. Abraçada com Adoniran Barbosa, embriaguei-me e chorei: Caetano, desta vez não vai dar pra te defender. E sobre isso, Sírio Possenti também escreveu:

—————————————————————————————

Terra, 02/06/2011

EPPUR, SI MUOVE

Sírio Possenti

Eppur…

Freud disse que o homem sofreu três feridas em seu narcisismo: a descoberta de que a Terra (portanto, o homem) não está no centro do Universo, a teoria da evolução das espécies (não fomos criados diretamente por Deus) e a descoberta do inconsciente (fatores que não conhecemos nos “determinam”).

Talvez se possa dizer que a antropologia e a linguística produziram outra ferida em nosso narcisismo. Descobriu-se que não é verdade que as sociedades que foram qualificadas de primitivas não tinham leis ou regras. Assim, não há “primitivos”: eles não viviam nem vivem como bichos (não têm fé, nem lei, nem rei…). Também não é verdade que as línguas “deles” são simples. Eles não grunhem! Eles falam seguindo gramáticas complexas e outras complexas regras “contextuais”. Só a total ignorância pode manter erros vulgares como estes (que, para muitos, continuam válidos não só para os primitivos, mas também para o povo).

Nas últimas semanas, ouviu-se troar a idéia de que estaremos perdidos porque se aceita “os livro” e “os menino pega” (não se sabe de onde tiraram o verbo “aceitar” para casos assim). Os que pensam que dizem “os livros” (a forma representa metonimicamente uma língua) acham que os outros não pensam (mas não citam fonte alguma sobre as relações língua/mente). Ora, tem sido constante a demonstração de que se pode pensar independentemente de línguas ou dialetos. A filosofia e a ciência elaboradas em diferentes línguas o demonstram há séculos. E as numerosas traduções o comprovam – apesar de algumas traições (que, às vezes, melhoram o original). Pensar não depende de pingar um “s” aqui e um “r” ali (o que se demonstra todos os dias).

O venerável Dines proferiu duas barbaridades em programa recente na TV: igualou escrever certo a escrever bem (citava Otto Lara Resende) e disse que Os livro põe em risco a compreensão. Tenho certeza de que Dinnes compreende os livro. Não estou “aceitando”, estou dizendo que é uma forma com sentido e que um sujeito como ele certamente a compreende. Insisto: errou feio quando traduziu “escrever bem” por “escrever “certo”. O angu nada tem a ver com as alças.

A peste que a lingüística “leva” (Freud afirmou que estava levando a peste aos EUA, quando foi lá fazer suas conferências) provoca engulhos nos que pertencem à nossa elite intelectual, porque falariam certo (mas não falam: eu ouço alguns deles todas as semanas, na TV; outros, esporadicamente; outros, conheço ao vivo).

Os que disseram que a Terra girava segundo leis diferentes das que constavam nas “gramáticas celestes” da época foram ameaçados com a fogueira pelos que tinham certeza de que sabiam como era o mundo. Também houve muitas perseguições a defensores das teorias evolucionistas. Os linguistas não correm riscos idênticos, claro (imagino!). Por enquanto, só estão sendo ameaçados com manuais bem leves e listas de erros (é “em domicílio”). Pelo menos por enquanto.

“Eles” pensam que a mudança da língua acabou. Que, finalmente, o português completou seu ciclo, ficou “certo”. Até “etimologistas”, que listam exatamente mudanças (que não explicam), acham que a língua parou de mudar agora. Estava esperando por eles! Eppur, si muove.

Esquerda?

A burrada das burradas foi a insinuação de o tal livro seria a defesa da fala “errada” de Lula. Ora, este tipo de estudo se faz há 200 anos, desde as gramáticas históricas, logo seguidas pelos estudos de dialetologia e pela escola variacionista. Muitos brasileiros escreveram sobre o tema bem antes dos atuais lingüistas (mas ninguém conhece a bibliografia!!).

Outros acharam que as posições “em favor” da variação linguística são de esquerda. Ora, não são! Se lessem Economia das trocas linguísticas, de Pierre Bourdieu, ou a Introdução à sociolinguística, de Marcellesi, por exemplo, veriam a diferença (mas eles não lêem!). Os “esquerdistas” chegam a detestar os estudos variacionistas. Consideram-nos funcionalistas, vale dizer, burgueses.

Por que defender esta abordagem, então? Porque ela permite que os estudos de língua cheguem pelo menos à era baconiana. (Francis Bacon é o nome do autor do Novum Organon, um filósofo dos XVI-XVII. Não é toucinho defumado).

Ciúme

Caetano escreveu que “esses linguistas têm grande ciúme do sucesso que fazem os professores de gramática que, oferecendo aquilo de que tem sede a grande massa, ocupam espaços em jornais e tempo no rádio e na TV”.

Controvérsias costumam desandar. Quase sempre, quando falta um argumento, os contendores passam aos ataques pessoais. Em vez de contestar uma análise, começam a dizer “é conservador”, “é esquerdista”, “é invejoso”, “é tucano”.

As atividades fundamentais de Caetano Veloso têm muito a ver com sucesso de público, o que talvez explique sua hipótese. Mas nem todas as pessoas são people, nem todos os profissionais aparecem em jornais, em trios elétricos, na TV, nas revistas semanais, na Caras. Simplesmente não faz parte de seu trabalho. Nem de seu mundo. Os linguistas não são anjos, e certamente têm ambições. Mas preferem ser citados pelos pares a aparecer na TV. E, em geral, só falam do seu trabalho. Os que eu conheço não têm este tipo de ciúme. Talvez tivessem até vergonha, se aparecessem na TV dizendo aquilo. Como encarar os pares no dia seguinte? E os alunos?

Lembro de Caetano vaiado no Maracanãzinho, enfrentando a multidão. Gostei. Foi admirável.



—————————————————————————————

Também gostei deste vídeo:






E deste.




* Dante Lucchesi, da UFBA, recebeu um post à parte aqui, porque foi a fundo no ponto do preconceito linguístico subjacente a essa discussão.


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Debates e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s