Da inoculação do complexo de vira-latas

Via Geledés, 08/06/2014




“Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade com que o brasileiro se coloca voluntariamente em face do resto do mundo.”

O complexo de vira-latas não é uma coisa de que os brasileiros sofram; é uma coisa que foi inoculada nos brasileiros por… eu digo, assim,… uma parcela da elite brasileira para desvalorizar o que era feito aqui dentro e manter o país submisso a determinadas ideias, fazer com que o país aceitasse determinadas diretrizes e tal.

[Andei me chateando com o Maringoni, mas nesta acima, estou aplaudindo em pé.]

Como é que você mantém um escravo trabalhando? Além do chicote, você precisa convencer ele de que ele tem que trabalhar. Você tem que convencer ele de que ele não pode fazer nada melhor do que carregar um fardo nas costas, do que fazer um trabalho embrutecedor, do que fazer um trabalho braçal. Para isso, você tem que mostrar que ele é inferior. A maneira de mostrar que ele é inferior é falar que ele é racialmente inferior. A teoria da inferioridade das raças, a teoria racialista, foi apreendida por setores da elite brasileira. Como Silvio Romero, que achava que a miscigenação ia matar o brasileiro, ia corromper o caráter do brasileiro. Qual era a solução? Importar raça branca da Europa. Importar europeus para purificar o sangue brasileiro e fazer de nós um país branco. Porque a ideia de que o branco era superior era disseminada não só da Europa para cá, ou seja, de fora para dentro, mas aqui dentro também, pela elite brasileira, uma elite postiça, europeia, que tinha a cabeça em Paris e o bolso em Londres.

[1. Acho que faltou se perguntar também: por que o trabalho braçal é algo para o qual é preciso convencer alguém de que é inferior? É um trabalho inferior a qual outro? Porque esse parece ser um baita problema no Brasil: inferiorizar certos tipos de trabalho e tarefas que são absolutamente dignos e essenciais, e assim mantê-los eternamente tão mal remunerados e em condições tão indignas e pouco salubres de realização quanto o trabalho escravo (em alguns casos, talvez até mais). Desvalorizar certo tipo de trabalho não foi uma praga do pior tipo só para o Brasil, parece: foi patologia herdada de Portugal, e foi bastante nefasto também para a Espanha.]

[2. Enquanto ele falava ia ficando tão claro que, se trocasse “teoria racialista” por “teoria sexista”, a lógica do ter que convencer da inferioridade e devastar psiquicamente com violência simbólica – além da física – para manter em “seu devido lugar” funcionaria tão bem quanto.]

É só porque você tem uma classe dominante preconceituosa, uns meios de comunicação extremamente preconceituosos, uma igreja católica autoritária, antipovo, é que você inocula essa ideia do complexo de vira-lata. Claro: a cultura dominante vai se impondo…

[De novo aplaudindo. De novo percebendo que trocar “antipovo” por “antimulher” funcionaria tão bem quanto.]

Agora, isso faz parte da evolução do mundo do capitalismo. Acho que a gente tem que tentar fazer com que a nossa cultura também viceje, mas isso não é uma luta ou uma disputa que você resolve no terreno da cultura; você resolve no terreno da política: com incentivos culturais, com política cultural de Estado que possibilite que manifestações culturais localizadas possam ter oportunidade, possam se viabilizar.

QUE A GENTE NÃO VIVA PARA SE MOSTRAR PARA FORA.

~Gilberto Maringoni~

[É, Maringoni, concordo plenamente em que isso é chave: que a gente não viva para se mostrar para fora. (Não sei se concordo em que sediar a Copa foi questão de “se mostrar para fora” no sentido em que concordo, mas isso é outra questão.) Que a gente não viva legitimando sancionadores que estão a serviço de seus próprios interesses de dominação, deixando que nos convençam de que critérios de avaliação entortados têm legitimidade. É armadilha em diversos tipos de contextos de manipulação e opressão. Que a gente aprenda o antídoto do “quem avalia, se autoavalia”, ou seja, a ver que julgamentos não dizem tanto sobre o avaliado quanto sobre o sistema de valores e interesses de quem avaliou, e a partir daí considerar se esse sistema de valores merece legitimação. Aplausos em pé.]

Canal Sem Cortes Filmes, 26/05/2014.

Publicado em 26 de mai de 2014

O termo Complexo de Vira-Latas denomina um sentimento característico de determinadas classes da sociedade brasileira. Esse sentimento, marcado por derrotismo, pessimismo e má informação, está muito ligado à negação do que somos como brasileiros. O documentário O Complexo de Vira-Latas explica esse sentimento, discute o tema e faz um breve panorama social e político da realidade brasileira.

Direção
Leandro Caproni

Roteiro
Leandro Caproni
Priscila Chibante

Produção
Diego Silva
Bruno Silveira
Nathália Bomfim
Priscila Chibante
Bruno Aranha

Leitura da Crônica
Wallace Soares

Uma produção Cabrueira Filmes e Sem Cortes Filmes
semcortesfilmes@gmail.com
https://www.facebook.com/SemCortesFilmes
https://www.facebook.com/leandrocaproni

PS: Aí fui ler o Quiroga e…
“Você não precisa da aprovação de ninguém, o que precisa ser feito responde a uma necessidade e não à malha de relacionamentos sociais entre pessoas que julgam, criticam e se sujeitam à aprovação ou reprovação.”
Sincronicidades jungianas. Quem nunca?

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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