Violência de gênero: denúncia de estudante da USP


Faz mais de um ano que a estudante denunciou ameaças e uma tentativa de estupro. Agora voltou a sofrer assédio. É assustadora a incapacidade e a falta de agilidade para construir mecanismos de investigação. A pessoa que a ameaça certamente é de dentro da universidade. Uma ação inteligente da polícia não teria como chegar a esse cara? Ele coloca bilhetes no carro da estudante, faz ameaças usando a rede interna da própria faculdade… A gente já sabe bem que quem tem esse tipo de comportamento (estuprador, maltratador de mulher em qualquer dimensão: física ou psicológica) não faz isso uma única vez, costuma ser violência serial, compulsiva e com procedimentos muito similares se repetindo uma e outra vez. Lembremos da treta de twitter em torno do professor universitário que dá aula nos EUA com sua violência serial por internet ao longo de anos, sempre do mesmo modo; do célebre médico que assediava sexualmente e estuprava as pacientes, de inumeráveis casos. Como em todos esses casos, parar esse delinquente significaria a segurança de outras mulheres que estão em contato cotidiano com ele (dentro e fora da universidade). E mesmo que fosse contra uma pessoa só, por que tão frequentemente se lida com violência contra a mulher como coisa menor, que não tem urgência, da qual não é preciso tratar a sério? Essa estudante está, no mínimo, tendo cerceada sua liberdade de circular por espaços públicos sem se sentir em stress permanente. Ainda que fosse só isso, que ela não estivesse em risco físico real (e parece claro que está), é muito sério.

PS: Buscando informação, acabo de saber que pessoas de diversas unidades da USP estão se organizando para requerer providências urgentes e encontrar formas de investigar o caso. Que daí saia, pelo menos lá dentro, uma estruturação ágil e eficaz para tratar dessa doença social da violência contra a mulher, que sabemos o quanto é epidêmica: acontece o tempo todo, em todas as classes, em todo lugar. O Brasil, aliás, não tem posição mundial nada lisonjeira na incidência de violência e discriminação de gênero. Como no caso da corrupção, pode até não ser fácil de investigar e de desmobilizar, mas é urgente construir formas, e um passo crucial para isso é que a sociedade como um todo pare de minimizar, invizibilizar e botar panos quentes que só favorecem os agressores. A estudante está afastada (por motivo de segurança). O intragável é que seja ela a prejudicada com o afastamento dos estudos, como costuma ser o filme, quando se trata de violências contra a mulher.


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Luisa Cruz, no Facebook

Venho por meio desta informar um novo ataque que sofri essa semana. Ano passado fui perseguida, ameaçada e sofri uma brutal tentativa de estupro na Universidade de São Paulo. Busquei ajuda da própria universidade, da polícia e de todos os meios legais que tinha à minha disposição. De março a agosto de 2014 recebi bilhetes anônimos com “elogios” e declarações bizarras que, aos poucos, evoluíram para ameaças. Esses bilhetes apareciam na minha mochila e, depois que tomei medidas para impedir isso, passaram a aparecer no meu carro. Os recados intimidadores continham declarações como “você ainda vai ser minha”. Diante dessa situação realizei um B.O. e comuniquei o caso a todas as instâncias responsáveis da USP por meio de um ofício. Nenhuma atitude foi tomada e as ameaças continuaram.

No dia 8 de agosto de 2014 fui até a USP para me encontrar com dois colegas. Cheguei no estacionamento do prédio da Geografia e encostei o carro, mas ao ver que eles ainda não haviam chegado decidi ir até a FAU (Faculdade de Arquitetura). Entrando na FAU, me lembrei que havia esquecido meu celular. Quando voltei para buscá-lo, fui atacada por trás por um homem branco (só pude ver suas mãos) que me segurou pelo pescoço e forçou minha entrada no carro. Enquanto dizia “eu te avisei”, ele tentou abrir minha calça, momento no qual eu fui capaz de acionar a buzina do carro com o joelho. Ele bateu minha cabeça fortemente na porta do passageiro e fugiu sem que eu pudesse vê-lo.

Como recorrente nessas situações, o caso permaneceu sem solução e logo me vi desamparada mesmo com todos meus pedidos de ajuda. O que funcionou e fez meu agressor ao menos parar de se manifestar foi a publicização do meu caso. Meu relato garantiu de alguma forma minha proteção, já que hoje estou aqui para contar minha história. Mas não evitou que eu vivesse todos os dias do último ano tensa, sem saber quem era o agressor e sem saber se eu estava segura. Até eu ter de fato a certeza de que não estou segura, porque mais uma vez estou sendo perseguida e ameaçada. E mais uma vez venho falar e denunciar o que está acontecendo comigo.

No meio desse mês de outubro saindo de uma aula, cheguei no meu carro e lá tinha um bilhete que dizia “enquanto você estiver aqui, estarei”. Fazia mais de um ano que eu não recebia nada, mas igual às anteriores a ameaça foi colocada no estacionamento da faculdade de História e Geografia da USP. Em seguida avisei as pessoas mais próximas, parei de circular sozinha dentro e fora da USP e tentei ficar o mais atenta possível a qualquer sinal estranho. Mas, antes que pudesse pensar ou fazer algo concreto, uma semana depois do bilhete, tive meu e-mail invadido e recebi um e-mail enviado pela minha própria conta. No texto a pessoa me ameaça, alega saber fatos sobre meu cotidiano, afirma não ser a mesma pessoa que me agrediu no ano passado e, principalmente, condena o meu envolvimento com mulheres que já sofreram agressões dentro da universidade e denunciaram as violências sofridas, sugerindo que eu deveria rever minhas amizades e o tempo que gasto “acobertando vagabundas” e, nitidamente, buscando me intimidar ao falar “sei seu endereço, sei sua rotina”.

Após a invasão do e-mail fiz uma pesquisa pelo IP e pelos acessos à minha conta e descobri um acesso de dentro da própria USP, mais precisamente da pró-aluno do prédio da Geografia, no mesmo horário de recebimento da mensagem em questão. Ou seja, a pessoa invadiu minha conta e enviou o e-mail de dentro do ambiente acadêmico enquanto eu estava em aula, no mesmo lugar em que recebo os bilhetes e em que sofri a tentativa de estupro. Um novo B.O. foi realizado e uma investigação foi aberta, no entanto no último ano nada foi feito para garantir minha segurança ou das outras mulheres que frequentam o campus. Assim, mais uma vez um homem se sente à vontade nesse espaço para perseguir e ameaçar uma mulher.

Esta é mais uma tentativa de obter a necessária resposta tanto da universidade como das investigações policiais, uma vez que a possibilidade de se obter a identidade do perseguidor está justamente no fato das ameaças acontecerem no ambiente universitário através do uso da rede de informática da USP.

Espero que medidas sejam tomadas e minha segurança e de todas as mulheres dentro da Universidade de São Paulo seja garantida.

Luísa Cruz, estudante de Geografia da Universidade de São Paulo





Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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