Da democracia e da beleza





Entrevista a Tzvetan Todorov, gravada em 6 de setembro de 2012, para o Café Filosófico, TV Cultura, Brasil. “Tzvetan Todorov é um pensador múltiplo. Autor de mais de vinte livros, suas reflexões passam pela filosofia, linguística, história, literatura e artes plásticas. Neste Café Filosófico especial, Todorov fala sobre sua vida, sua trajetória intelectual e sobre a delicada posição da democracia no mundo contemporâneo.”


DA DEMOCRACIA

Vivi 24 anos na Bulgária, e os primeiros 24 anos de uma vida são aqueles que marcam para sempre, pois o caráter e a personalidade se formam durante esses anos.

Era um país coberto de campos de concentração. Não se pode dizer que a liberdade de expressão fosse possível. A democracia, os verdadeiros princípios da democracia, eram desejáveis. Talvez nós idealizássemos o modo de vida dos países ocidentais, mas, em todo caso, para nós esses países dispunham não apenas de uma opulência, de um conforto na vida cotidiana que não tínhamos, mas também de uma verdadeira liberdade do indivíduo, liberdade de expressão, de decidir como se desenvolveria sua vida pessoal, algo totalmente ausente na Bulgária. Esse quadro ideológico e social me influenciou bastante. Havia um grande apreço pelos valores democráticos, pelo ideal democrático.

Quando fui para a França, me beneficiei dessa nova liberdade. Nos primeiros anos, me proibi, mais ou menos conscientemente, de me ocupar de questões políticas. Eu achava que a política era uma pura perda de tempo, que pensávamos em problemas políticos, mas tudo era decidido em outra esfera, que não tínhamos nenhuma entrada no mundo político. Durante esses primeiros anos na França, após 1963, eu sequer comprava jornais para saber quem estava no governo. Achava os governantes todos iguais, todos mentirosos. Eu não tinha vontade de saber sobre eles. Foi preciso que passassem alguns anos.

Em 1973, dez anos depois da minha chegada à França, me tornei cidadão francês, me naturalizei, então devia decidir e começar a ter minhas opiniões sobre a política. Pouco a pouco meu centro de interesses foi evoluindo e deixei de ser um puro homem de Letras para me interessar cada vez mais por questões de antropologia, de história, de ciência política, de ciências morais, pois era isso que me preocupava. Mas eu continuava a não tocar na questão da democracia ou do totalitarismo. Foi preciso que o Muro de Berlim caísse para que um pequeno muro na minha cabeça ruísse também e que eu pudesse dizer: eu me ocupo livremente de tudo o que me diz respeito, de tudo que me afeta de perto.

Perto do ano 2000, tive o sentimento de que não era possível me contentar em dizer que a democracia era melhor do que o totalitarismo, o que, no fim das contas, era mais do que uma evidência, ninguém diria o contrário. Eu arrombava uma porta aberta ao continuar a demonstrar a superioridade dos regimes democráticos em relação aos regimes totalitários. Fui me dando conta cada vez mais de que as pessoas no meio das quais eu vivia, na França ou em outros países, não tinham como se sentir felizes simplesmente por não viverem num país totalitário, já que a possibilidade de um totalitarismo nem existia. E se essas pessoas não estavam felizes, era por razões próprias dos regimes sob os quais elas viviam. Então passei a dirigir um olhar cada vez mais crítico ao mundo em que eu vivia. Olhar crítico que estava, é claro, influenciado pela minha experiência anterior, que me levou a criticar a sociedade totalitária, mas que me havia educado, de uma certa forma, para julgar o presente, a realidade que nos rodeia, em relação a um ideal político e moral. E a realidade nunca está à altura de seu projeto, de seu ideal, ela é sempre uma realização imperfeita, no melhor dos casos, desse ideal.

Minha primeira reação às debilidades da democracia se refere à “tentação do bem”. A tentação do bem é essa ilusão de que podemos levar o bem a todos desde que tenhamos as forças necessárias, particularmente as forças militares.

“Impõe-se então a ideia de que a vontade humana, desde que se torne comum, pode fazer reinar o bem e trazer a salvação a todos; e esse feliz acontecimento não se produzirá no céu, após nossa morte, mas aqui e agora.”

O primeiro exemplo foi o bombardeio que se seguiu à declaração de independência de Kosovo, no qual a OTAN, um organismo militar, declarou guerra subitamente a um país soberano, a Iugoslávia. Era uma situação paradoxal ver um organismo militar declarar guerra. Porque não foi nenhum país – EUA, França… – que declarou a guerra, mas a OTAN. Havia nisto alguma coisa relacionada aos próprios princípios da democracia. Dois anos depois, aconteceu a guerra do Iraque. A invasão do Iraque, cuja inutilidade era evidente já antes mesmo de se produzir, foi anunciada e preparada. Então eu me senti, pela primeira vez na vida, chamado a reagir a um acontecimento político em curso, a essa guerra anunciada. Escrevi um pequeno livro intitulado A nova desordem mundial, voltado à preparação da Guerra do Iraque. E quando essa guerra aconteceu, nossas piores expectativas se cumpriram.

“A primeira vítima da guerra é a verdade. Essa famosa frase carrega uma triste constatação, que a batalha de números em torno das vítimas da guerra do Iraque confirma. Entre o dados do exército americano e os de organismos internacionais de observação, a diferença é de um milhão. Cem mil mortos ou um milhão de mortos? Talvez não saibamos nunca. Mas em nenhum dos casos, o horror de uma guerra poderia ser maior.”

Nessa guerra, que supostamente vingaria os ataques ao World Trade Center, às torres gêmeas, no qual três mil norte-americanos morreram, foi constatado que não havia a menor relação entre a Al-Qaeda e o governo de Saddam Hussein, e ficou claro que o Iraque não dispunha de armas de destruição em massa como havia sido dito anteriormente. Então, todos esses pretextos falaciosos, cujo caráter mentiroso era evidente para qualquer observador imparcial já antes do começo da guerra, me deixaram transtornado. Aos três mil mortos de um lado correspondeu mais de um milhão de vítimas do outro. Ou seja, um verdadeiro genocídio, que escapou a essa qualificação simplesmente porque foi realizado por nós: pelo Ocidente, pelos países que se sentem dependentes do EUA, e que portanto nunca protestarão contra a política norte-americana.

“Os promotores das guerras revolucionárias pedem que a fraternidade seja exportada para toda parte. Se necessário, pela força dos exércitos. Somente dessa maneira se pode atingir este objetivo verdadeiramente superior: a paz perpétua.”

Mas neste último livro, Os inimigos íntimos da democracia, eu procurei ampliar o ponto de vista, pois tive a impressão de que no presente a democracia sofria, mais do que qualquer outra coisa, de suas próprias perversões e desvios. Ela não está sendo ameaçada pelo terrorismo islâmico, pelas teocracias do Oriente Médio ou pela Coréia do Norte, que continua sendo um regime comunista um pouco delirante, ou por Cuba; ela está ameaçada pela desmesura em suas convicções e certezas de ser a encarnação do bem. Isso se volta contra ela. Todo esse novo desenvolvimento da democracia é posterior à queda do Muro de Berlim – vamos chamar assim para termos um acontecimento simbólico -, e entramos em um novo período – ainda não terminado, é claro, que ainda pode mudar muito -, no qual eu considero que há aspectos da democracia que é importante apontar e criticar.

Da não democracia disfarçada de democracia

Acredito que a possibilidade do fim da democracia existe. Creio que isso acontecerá sem mudança de nome. Falaremos sempre em democracia, mas não haverá mais democracia. Eu me pergunto se podemos falar de democracia num país onde é possível comprar o voto dos eleitores. Vocês sabem que nos EUA os dois candidatos à presidência têm verbas de campanha que atingem milhões de dólares? Basta um pouco de distanciamento em relação ao presente para dizer: “Na democracia, para escolher nossos dirigentes, é necessário que esses dirigentes disponham de 20, 25 ou 30 milhões de dólares para se elegerem? Não seriam as forças econômicas, o poder do dinheiro, que conseguem impor seus candidatos?”

O fato de que a suprema corte dos EUA tenha autorizado as empresas a financiar candidatos para todos os níveis nas eleições é um duríssimo golpe contra a democracia. Porque a vontade do povo – e essa é a definição de democracia, é o poder do povo -, esse poder está submetido ao poder e ao dinheiro. E quando as potências econômicas decidem que um tal candidato não merece se tornar representante do Missouri ou de Ohio, mesmo que ele invista 20 milhões de dólares, podemos estar certos de que não será eleito. Isso não é difícil, com uma campanha negativa na imprensa, com calúnias, se necessário, com armadilhas em que ele cairá, escândalos que serão descobertos envolvendo seu primo, seu irmão, sua mulher, sua filha… Em resumo: hoje a democracia está seriamente ameaçada pelo poder do dinheiro, pelo poder das oligarquias, de pequenos grupos de pessoas que dispõem de tanto poder econômico que o poder político se torna um apêndice do poder econômico. Isso não é mais democracia.

DA BELEZA

A beleza à qual me refiro no livro A beleza salvará o mundo não é a beleza das flores ou do entardecer, mas algo mais profundo, que concerne à nossa própria existência. Este é o sentido que Dostoiévski colocou nessa frase, “a beleza salvará o mundo”, que está no romance O idiota, pronunciada duas vezes pelo príncipe Míchkin. Ele a apresenta como uma de suas divisas, como uma regra de vida. E meu livro conta como alguns grandes artistas, essencialmente poetas, do fim do século XIX e início do século XX, interpretaram essa frase, acreditaram poder dedicar suas existências à criação da beleza. O resultado dessa escolha foi catastrófico. Isso é uma coisa inquietante para essa frase, pois temos a impressão de que ela conduz à depressão, à decadência, quando não ao suicídio. Acredito que é porque essa frase foi interpretada a partir de uma ideologia romântica, que estabelece uma ruptura brutal entre o ideal e o real, que via isto como uma oposição: o céu e a terra separados por um abismo.

Ora, para o Dostoiévski de “a beleza salvará o mundo”, a beleza é aquela do gesto humano, da relação humana, é a possibilidade de amar as pessoas ao redor, de ser generoso, de dar sentido à existência. A vida do próprio príncipe Míchkin, que no fim não é uma vida feliz, mas que corresponde a esse ideal na medida que o príncipe dedicou sua vida à verdade e ao amor. Se encaramos a questão por esse ângulo, renunciamos à ruptura entre céu e terra, entre ideal e real, e tentamos revelar a beleza nos próprios gestos cotidianos. Nisto está a beleza que salvará o mundo: é conseguir carregar de sentido e de verdade os gestos mais cotidianos, as nossas relações com as pessoas com que convivemos, por conta da nossa profissão, com nossos filhos, com nosso trabalho…

DE VIDA E ARTE

Acredito que representar o mundo não é algo facultativo, que podemos escolher fazer ou não fazer. Creio que fazemos essa representação o tempo todo, do nascimento à morte. Percebemos o mundo ao nosso redor e fazemos representações em nosso espírito. A arte figurativa e a literatura são uma espécie de condensação, de quintessência dessa característica comum a todos nós. Fazemos narrativas sem parar. Contamos nossa própria vida a nós mesmos, mesmo para entender o que vivemos. Você passa o dia de hoje comigo e com outras pessoas e, à noite, antes de adormecer, você recapitula esse dia. Você faz uma narrativa, que não é uma narrativa de Dostoiévski, mas a diferença é apenas de grau, não de natureza. Todos somos fabricantes de narrativas, fabricantes de poesia também, porque procuramos encontrar as palavras mais justas da nossa experiência, para designar nossa experiência. E, embora não sejamos pintores, todos temos representações mentais. Alguns de nós são capazes de exteriorizá-las.

Para falar mais concretamente da literatura – que me é mais próxima e ainda mais universal que a pintura -, ao contrário do que pensavam os românticos, creio que há uma continuidade sem fendas entre as formas artísticas mais populares, as pequenas brincadeiras que fazemos ou ouvimos, as narrativas que alguém pode nos fazer na rua e a maestria que um escritor mostra em suas obras. Há uma continuidade do cotidiano ao sublime, e não uma ruptura. A ideia da ruptura causou muito mal, porque ela colocou o povo iletrado de um lado e a alta cultura do outro.

A transcrição não é da entrevista completa. Tem mais coisas muito bacanas para ouvir assistindo o vídeo.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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