A felicidade, desesperadamente



André Comte-Sponville

“Pensar bem para viver bem.”

Revista Ecológico, 03/02/2015


A FELICIDADE, DESESPERADAMENTE

“Não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade”

Eloah Rodrigues


O filósofo francês André Comte-Sponville nasceu em Paris, em março de 1952. Estudou na conceituada École Normale Supérieure, onde se tornou professor de filosofia e mestre de conferências da Universidade de Panthéon-Sorbonne.

Autor de obras como “Valor e Verdade”, “A Vida Humana” e do celebrado “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, em que fala de virtudes como a fidelidade, a prudência, a generosidade, a compaixão e o humor, Comte-Sponville tem um discurso sustentável, contemporâneo. 

Em comemoração aos 15 anos de lançamento de “A felicidade, desesperadamente”, um de seus livros mais expressivos, a Ecológico apresenta, a seguir, alguns trechos da obra, oriunda de uma conferência proferida pelo autor em outubro de 1999 em Bouguenais, na França. No livro, Comte-Sponville defende que, para se obter a tão sonhada felicidade, é preciso querer. E muito. Mas não é um querer passivo. É um “querer desesperado”. Não no sentido extremo de infelicidade, mas na acepção literal da palavra. “Quase etimológico”, como ele mesmo diz.

O filósofo nos ensina, ainda, que a felicidade tem que ser construída. E que o ser humano tem que saber o que deseja e lutar por esse desejo. A felicidade é, para ele, um estado onde o que se deseja está presente, e não ausente, como defendido por outras formas de pensamento. Não é um assunto da filosofia: a felicidade é algo que define a própria filosofia.

Como diria o também filósofo francês Blaise Pascal, “todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção. É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar”. Portanto, caros leitores, vivemos em função da busca desse estado de felicidade. É aí que nos deparamos com outro grande desafio: o encontro de nós mesmos com nossos valores e nossas verdades. Ouvir nossos corações para saber o que realmente nos faz bem. Talvez, assim, encontraremos a felicidade que procuramos.

É o que Comte-Sponville nos ensina de modo simples e sincero. Confira:


A BUSCA NA FILOSOFIA

“ Se a filosofia não nos ajuda a ser felizes, ou a ser menos infelizes, para que serve a filosofia?”

“Filosofar serve para aprender a viver, se possível antes que seja tarde demais, antes que seja absolutamente tarde demais.”

“Compreendamos que a filosofia – isto é, a vida, já que a filosofia nada mais é que a vida tentando se pensar; é um processo, um esforço.”

“A felicidade é a meta da filosofia.”


SABEDORIA

“Se a sabedoria é uma felicidade, não é uma felicidade qualquer! Não é, por exemplo, uma felicidade obtida à custa de drogas, ilusões ou diversões. A sabedoria seria a felicidade na verdade.”

“É uma felicidade verdadeira ou uma verdade feliz. Podemos ser mais ou menos sábios, do mesmo modo que podemos ser mais ou menos loucos. Digamos que a sabedoria aponta para uma direção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez.”

“Precisamos da sabedoria? A tradição responde que sim, mas o que nos prova que ela tem razão? Nossa infelicidade. Nossa insatisfação. Nossa angústia.”

“Por que a sabedoria é necessária? Porque não somos felizes.”

“O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos sabedoria, no sentido profundo do termo, no sentido em que Montaigne dizia que ‘não há ciência tão árdua quanto a de saber viver bem e naturalmente esta vida’.”


FELICIDADE E VERDADE

“A felicidade é a meta da filosofia, mas não é sua norma, porque a norma da filosofia é a verdade, pelo menos a verdade possível (porque nunca a conhecemos por inteiro, nem absolutamente, nem com tal certeza).”

“Trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível.”

“A felicidade é a meta; a verdade é o caminho ou a norma. Isso significa que, se o filósofo puder optar entre uma verdade e uma felicidade, ele só será filósofo, ou será digno de sê-lo, se optar pela verdade.”

“Mais vale uma verdadeira tristeza do que uma falsa alegria.”


ESSENCIALIDADE

“O essencial é não mentir, e antes de mais nada, não se mentir. Não se mentir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre a felicidade.” 

“Trata-se de aprender a viver; apenas isso é filosofar de verdade.”

“Nunca é nem cedo nem tarde demais para ‘assegurar a saúde da alma’, em outras palavras, para aprender a viver ou para ser feliz.”


DESEJO

“Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que é.”

“É a felicidade em ato, que outra coisa não é senão o próprio ato como felicidade: desejar o que temos, o que fazemos, o que é – o que não falta. Em outras palavras, gozar e regozijar-se.”

“Mas essa felicidade em ato é ao mesmo tempo uma felicidade desesperada, pelo menos em certo sentido: é uma felicidade que não espera nada.”


ESPERANÇA E VONTADE

“Uma esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, como diziam os estóicos – diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós.”

“Só esperamos o que somos incapazes de fazer. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se de querer.”

“Esperar é desejar sem gozar; esperar é desejar sem saber. Posso acrescentar: esperar é desejar sem poder.”

“O contrário de desejar sem poder é desejar o que podemos, logo o que fazemos.”

“O contrário de esperar não é temer; o contrário de esperar é saber, poder e gozar.”


CONHECIMENTO

“O contrário de desejar sem saber é desejar o que se sabe. É, portanto, o próprio conhecimento, pelo menos para quem o deseja, para aquele que ama a verdade, e tanto mais quanto ela não falta.”

“O sábio é um conhecedor. Não apenas aquele que conhece, mas também aquele que aprecia. O sábio é um conhecedor da vida: ele sabe conhecê-la e apreciá-la!”

 

NÃO ESPERAR

“A felicidade desesperadamente: uma sabedoria do desespero, da felicidade e do amor.”

“O sábio não espera nada. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito – já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.”

“O contrário de esperar é conhecer, agir e amar. Não o desejo do que não temos ou do que não é, mas o conhecimento do que é, a vontade do que podemos, enfim, o amor do que acontece.”

“Só esperamos o que não depende de nós; só queremos o que depende de nós. Só esperamos o que não é; só amamos o que é.”


A NÃO FALTA

“Amar o que não lhe falta, regozijar-se com o que é.”

“Não mais a falta, mas a potência. Não mais a esperança, mas a confiança e a coragem. Não mais a nostalgia, mas a fidelidade e a gratidão.”

“Existem casais felizes, que haja um amor que não seja de falta mas de alegria. Que não seja de frustração, mas de prazer. Que não seja de tédio, mas de carinho, que não seja de ilusão, mas de verdade, de intimidade, de confiança, de desejo, de sensualidade, de gratidão, de humor, de felicidade…”


ALEGRIA E AMOR

“Trata-se de aprender a desejar o que depende de nós, isto é, aprender a querer e a agir; trata-se de aprender a desejar o que é, isto é, a amar; em vez de desejar sempre o que não é (esperar ou lamentar).”

“Não se trata de se impedir de esperar: trata-se de aprender a pensar, a querer e a amar! Trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e amar um pouco mais.”

“Não há sabedoria que não seja de alegria; não há alegria que não seja de amar.”

“O verdadeiro conteúdo da felicidade é a alegria, pelo menos a alegria possível.” 

“Toda alegria tem uma causa: toda alegria é amor.”

“Só há sabedoria verdadeira no amor e pelo amor.”


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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