Guia alimentar para a população brasileira


“Somos escravizados pela rapidez e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Fast Life, que destrói os nossos hábitos, penetra na privacidade dos nossos lares e nos obriga a comer Fast Food. Confunde frenesi com eficiência. Nossa defesa deveria começar à mesa. Um firme empenho na defesa da tranqüilidade é a única forma de se opor à loucura universal da Fast Life.” – Manifesto Slow Food



guia alimentar para a população brasileira

O Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado no dia 5 de novembro de 2014, foi considerado “o mais avançado guia alimentar do mundo no presente momento” pelo José Carlos Souto, o cara que tem me parecido mais convincente e sensato para dar ouvidos no que se refere à alimentação, embora ele acrescente que o guia ainda deixa muito a desejar. Ah: “o cara” é médico (não que isso por si seja decisivo para que me pareça convincente e sensato, mas é informação relevante também). “Não é low-carb, não é páleo, mas dá ênfase à comida de verdade.”

Aliás, sempre que ouço esse “comida de verdade” lembro das vezes que riram da minha cara por eu dizer que não queria ir comer determinada coisa (tipo pizza), porque estava a fim de “comer COMIDA”:

– Rárárá! Pizza não é comida?
– Não. É porcaria.

Não tinham nada que zoar: está certíssima a minha forma de expressão. Mas o bacana do guia e do vídeo abaixo é dar um passo além. Propõem que “comida” pode inclusive ser mais que nutrientes: escolher a melhor comida pode ser escolher que tipo de forças sociais você alimenta. E valorizar a culinária local como patrimônio cultural. E se alinhar com a postura slow food também nisto: resgatar os tempos de refeição como tempos de desaceleração, convivência, interação, celebração dos afetos (e, deste ponto de vista, tenho que reconhecer: pizza também pode valer).

Para quem quiser ler o Guia, está disponível na internet, basta clicar sobre a imagem de capa acima para acessar. 





“Isso não tem nada a ver com multinacionais vendendo junk food para os pobres nos países em desenvolvimento.”

“Comida é muito mais do que nutrientes… é pensar no seu carrinho de compras como a formação de um ciclo virtuoso entre o que você come e a comida que é produzida. Quanto mais alimentos da agricultura familiar sustentável você colocar no carrinho, e menos alimentos ultraprocessados produzidos pelas grandes corporações, maior o bem que você vai estar fazendo para você mesmx, para sua família, para o meio-ambiente, para os produtores da agricultura familiar, para o Brasil inteiro. E, quem sabe, até para o mundo inteiro.”


Onde o Souto diz que o novo guia erra, e feio? No que vai a seguir, e reproduzi do blog dele (também vale a pena ir lá para ler onde ele aponta que o guia é um avanço e tanto):

 

  • O texto chega a ser repetitivo e chato em sua condenação ao sal, coisa que é BEM questionável (veja aqui);
  • Persiste, no corpo do texto, uma ênfase nas calorias;
  • As sugestões de refeições são, frequentemente, desastrosas (especialmente as de café da manhã, com seus pães);
  • É notório um certo preconceito contra carne vermelha (veja aqui e aqui porque isso não tem muito fundamento);
  • A farinha de trigo tem um certo passe livre no texto do documento;
  • Desaconselha a gordura dos laticínios, quando a literatura mostra justamente que os únicos laticínios saudáveis são os integrais, justamente por causa da gordura (veja aqui, aqui eaqui)


No capítulo 5 do Guia, discute-se onde estão os principais obstáculos para as escolhas alimentares mais saudáveis. Um deles… adivinhe só…: a boa informação. Em exata oposição com a publicidade da porcariada ultraprocessada nos meios massivos de comunicação. Aí, então, fica aqui a recomendação do guia; a recomendação sempre muito enfática do blog do José Carlos Souto, e agora, também, a satisfação de poder recomendar o canal no YouTube chamado “Do campo à mesa“, da Francine Lima.

“O capítulo 5 examina fatores que podem ser obstáculos para a adesão das pessoas às recomendações deste guia – informação, oferta, custo, habilidades culinárias, tempo e publicidade – e propõe para sua superação a combinação de ações no plano pessoal e familiar e no plano do exercício da cidadania.”


guia alimentar para a população brasileira 2

PS: Terminando de retocar o post com algumas coisas sobre Slow Food, levantei, fui até a cozinha, e uma voz dentro conversou com ela mesma assim:
– Você não acha “curioso” que nos apErtamentos do mundo Fast Life a cozinha tenha sido reduzida a um mínimo tão mínimo que, geralmente, já não caiba uma mesa?
– Verdade. Acho sim. Em outros tempos e outras casas, a cozinha era sentida por mim como o principal espaço de convivência.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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