Paulo Pavesi: exército de um homem só


Não há filme de horror à altura desse caso. No dia 21, Paulo Pavesi postou um vídeo em seu canal do YouTube, que pode ser acessado clicando aqui. Em 24 de junho publicou uma carta aberta dirigida ao Senador Aécio Neves, em seu blog. Reproduzo ambos abaixo, depois de um dos vários textos na revista Carta Capital (este texto de 2013) em que Leandro Fortes divulgou informações sobre o caso, que já corre na Justiça há 15 anos.



Paulo Veronesi Pavesi aos 10 anos

Paulo Veronesi Pavesi, aos 10 anos de idade. Uma série de irregularidades na retirada de seus órgãos levaram a investigar outros casos similares, apontando para uma máfia de tráfico de órgãos que atuava em hospital em Poços de Caldas.



Carta Capital, 18 de abril de 2013.


A DOR DE PAULO PAVESI


Ele é um exército de um só homem contra a impunidade dos médicos-monstros que mataram seu filho para lhe retirar os órgãos

Leandro Fortes

Sozinho, escondido em Londres, na Inglaterra, depois de ter conseguido asilo humanitário na Itália, em 2008, o analista de sistemas Paulo Pavesi se transformou no exército de um só homem contra a impunidade dos médicos-monstros que, em 2000, assassinaram seu filho para lhe retirar os rins, o fígado e as córneas.

Paulo Veronesi Pavesi, então com 10 anos de idade, caiu de um brinquedo no prédio onde morava, e foi levado para a Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas, no sul de Minas, onde foi atendido pelo médico Alvaro Inhaez que, como se descobriu mais tarde, era o chefe de uma central clandestina de retirada de órgãos humanos disfarçada de ONG, a MG Sul Transplantes. Paulinho foi sedado e teve os órgãos retirados quando ainda estava vivo, no melhor estilo do médico nazista Josef Mengele.

Na edição desta semana de CartaCapital, publiquei uma reportagem sobre o envolvimento do deputado estadual Carlos Mosconi (PSDB) com a chamada “Máfia dos Transplantes” da Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas. Mosconi, eleito no início do ano, pela quarta vez consecutiva, presidente da Comissão de Saúde (!) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi assessor especial do senador Aécio Neves (PSDB-MG), quando este era governador do estado. Aécio o nomeou, em 2003, presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMG), à qual a MG Sul Transplantes, idealizada por Mosconi e outros quatro médicos ligados á máfia dos transplantes, era subordinada.

As poucas notícias que são veiculadas sobre o caso, à exceção da matéria de minha autoria publicada esta semana, jamais citam o nome de Carlos Mosconi. Em Minas Gerais, como se sabe, a imprensa é controlada pela mão de ferro do PSDB. Nada se noticia de ruim sobre os tucanos, nem quando se trata de assassinato a sangue frio de uma criança de 10 anos que teve as córneas arrancadas quando ainda vivia para que fossem vendidas, no mercado negro, por 1,2 mil reais. Nada. Esse silêncio, aliado à leniência da polícia e do judiciário mineiro, é fonte permanente da dor de Paulo Pavesi. Mas Pavesi não se cala. De seu exílio inglês, ele nos lembra, todos os dias, que somos uma sociedade arcaica e perversa ao ponto de proteger assassinos por questões políticas paroquiais.

Como sempre, a velha mídia nacional, sem falar na amordaçada mídia mineira, não deu repercussão alguma à CartaCapital, como se isso tivesse alguma importância nesses tempos de blogosfera e redes sociais. Pela internet, o Brasil e o mundo foram apresentados ao juiz Narciso Alvarenga de Castro, da 1ª Vara Criminal de Poços de Caldas. Em 19 de fevereiro desse ano, ele condenou quatro médicos-monstros envolvidos na máfia: João Alberto Brandão, Celso Scafi, Cláudio Fernandes e Alexandre Zincone.

Eles foram condenados pela morte de um trabalhador rural, João Domingos de Carvalho. Internado por sete dias na enfermaria da Santa Casa, entre 11 e 17 de abril de 2001, Carvalho, assim como Paulinho, foi dado como morto quando estava sedado e teve os rins, as córneas e o fígado retirados por Cláudio Fernandes e Celso Scafi. Outros sete casos semelhantes foram levantados pela Polícia Federal na Santa Casa.

Todos os condenados são ligados à MG Sul Transplantes. Scafi, além de tudo, era sócio de Mosconi em uma clínica de Poços de Caldas, base eleitoral do deputado. A quadrilha realizava os transplantes na Santa Casa, o que garantia, além do dinheiro tomado dos beneficiários da lista, recursos do SUS para o hospital. O delegado Célio Jacinto, responsável pelas investigações da PF, revelou a existência de uma carta do parlamentar na qual ele solicita ao amigo Ianhez o fornecimento de um rim para atender ao pedido do prefeito de Campanha (MG). A carta, disse o delegado, foi apreendida entre os documentos de Ianhez, mas desapareceu misteriosamente do inquérito sob custódia do Ministério Público Estadual de Minas Gerais.

Na terça-feira, veio o troco.

A Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) suspendeu as audiências que aconteceriam nesta quarta-feira 17, até sexta-feira, 19 de abril, para se iniciar, finalmente, o julgamento do caso de Paulinho. Neste processo, estão sendo julgados, novamente, Cláudio Fernandes e Celso Scafi, além de outros acusado, Sérgio Poli Gaspar. De acordo com a assessoria do TJMG, o cancelamento se deu por conta de uma medida de “exceção de suspeição” contra o juiz Narciso de Castro impetrada pelo escritório Kalil e Horta Advogados, que defende Fernandes e Scafi. A defesa da dupla, já condenada a penas de 8 a 11 anos de cadeia, argumenta que o juiz teria perdido a “necessária isenção e imparcialidade” para apreciar o Caso Pavesi.

Ou seja, querem trocar o juiz, justo agora que o nome do deputado Carlos Mosconi veio à tona.

Eu, sinceramente, ainda espero que haja juízes – e jornalistas – em Minas Gerais para denunciar esse acinte à humanidade de Paulo Pavesi que, no fim das contas, é a humanidade de todos nós.


Outro artigo de Leandro Fortes na Carta Capital (2013, clicar aqui para texto completo) recorda também o assassinato do administrador da Santa Casa de Poços de Caldas, em 2002, no dia em que prestaria depoimento sobre a máfia ao Ministério Público. O administrador havia anunciado que entregaria gravações de conversas entre médicos envolvidos. Médicos indiciados e PMs agiram para fazer com que o assassinato passasse por suicídio e para impedir perícias:

Em 24 de abril de 2002, Carlos Henrique Marcondes, administrador da Santa Casa, foi assassinado no dia exato de seu depoimento no Ministério Público sobre a atuação da máfia dos transplantes lotada no hospital. Ele tinha gravado todas as conversas com os médicos envolvidos no tráfico de órgãos e pretendia entregar as fitas às autoridades. Antes de falar, Marcondes foi encontrado morto no próprio carro com um tiro na boca. Segundo um delegado da Polícia Civil da cidade, o ex-PM Juarez Vinhas, tratou-se de suicídio. O caso foi sumariamente arquivado. O laudo pericial constatou, porém, que três tiros haviam sido disparados contra Marcondes, embora apenas um o tenha atingido.

Mais ainda: a arma usada e colocada na mão da vítima desapareceu do fórum de Poços de Caldas, razão pela qual foi impossível periciá-la. Levado à Santa Casa, o corpo do administrador foi recebido por dois médicos do hospital. Um deles, João Alberto Brandão, foi condenado em fevereiro. O outro, Félix Gamarra, chegou a ser indiciado, mas acabou beneficiado pela lei de prescrição penal, por ter mais de 70 anos de idade. A dupla raspou e enfaixou a mão direita de Marcondes, supostamente usada para apertar o gatilho, de modo a inviabilizar o exame de digitais e presença de resíduos de pólvora. E o advogado da Santa Casa, o também ex-PM Sérgio Roberto Lopes, providenciou a lavagem do carro.



Em 2013, sobre o envolvimento do então deputado estadual de MG Carlos Mosconi (post completo aqui), Paulo Pavesi dizia:

“Mosconi já conseguiu enterrar diversos casos. Já conseguiu abafar a morte do administrador do hospital. Já conseguiu enterrar uma CPI. E agora, está conseguindo, junto a desembargadores, dar o rumo que tanto deseja aos processos. […] Em Poços de Caldas, já se fala abertamente que o juiz será removido.”



No Diário do Centro do Mundo (2014): Paulinho, 10 anos, vivia quando seus órgãos foram removidos e vendidos.

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Paulo Pavesi Tráfico de órgãos no Brasil

Para saber sobre o livro e como fazer download gratuito do livro, clicar sobre a foto.



Nos últimos dias os posts do Paulo Pavesi em seu blog denunciam que um desembargador está tentando derrubar e censurar o blog, além de estar representando contra o juiz que prendeu alguns dos médicos da máfia.





“Este vídeo é a continuação de uma guerra. Um desembargador e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, estão protegendo os assassinos do meu filho, garantindo a impunidade graças à propinas e acordos políticos. E agora estão ameaçando calar o meu blog. Vamos em frente! Estou pronto.”



Desembargador Antonio Servulo

Clique sobre a foto para ir ao blog do Paulo Pavesi



Blog do Paulo Pavesi, 24 de junho de 2015



E-mail enviado para Aécio Neves. Será que ele vai responder?

“Bom dia caro Senador Aécio Neves,

Meu nome é Paulo Pavesi, e tenho certeza que já deve ter ouvido falar. Temos um amigo em comum, Carlos Mosconi.

Atualmente eu estou asilado na Europa, após sofrer diversas ameaças por parte do poder político de Minas Gerais. A Itália me concedeu asilo por unanimidade após analisar a documentação que apresentei.

O crime que eu cometi? Denunciei um grupo de traficantes de órgãos, da qual meu filho com apenas 10 anos de idade foi vítima.

Não se preocupe em saber detalhes desta história agora, pois a noite publicarei um vídeo explicando.

Fiquei emocionado ao ver a sua preocupação com os presos políticos na Venezuela, que hoje vive um momento de ditadura. (sic)

Por isto estou escrevendo este e-mail. Gostaria de convidá-lo para me visitar aqui em Londres, onde moro atualmente, e saber um pouco da minha história. Afinal, em pleno século 21, mais especificamente em 2008, eu precisei deixar o país — BRASIL — por denunciar um grupo de bandidos marginais assassinos, comandados por Carlos Mosconi, seu ex-assessor especial no governo de Minas Gerais. Na época foi instalada uma CPI e Mosconi não permitiu ser ouvido. O senhor o nomeou superintendente da FHEMIG e a primeira medida foi abraçar toda a rede de transplantes de Minas Gerais (com a sua ajuda é claro) e logo em seguida um escândalo estourou por causa de fraudes na fila de espera (que também não deu em nada).

Enfim, caro Senador que aprecio tanto, estou publicando este vídeo para convidá-lo a vir me visitar. Tenho vários fatos para narrar sobre a pressão que fizeram contra mim e contra a minha família, e ainda hoje fazem. Ahhh… O processo do meu filho já dura 15 anos, e com frequência o julgamento é adiado a pedido de Mosconi. Mas como disse, não se preocupe em saber os detalhes agora. Mais tarde, o vídeo mostrará tudo, como deve ser mostrado.

Tenho certeza que o sr. como defensor dos direitos humanos vai criar uma comitiva para me visitar não é mesmo?

Nós temos pão de queijo aqui esperando por vocês.

Ah… não poderia esquecer de lhe fazer uma pergunta. Eu estou sendo processado por um desembargador (amigo seu e de Mosconi), só porque ele está tentando afastar o juiz que condenou os sócios de Mosconi à prisão. Como eu tenho visto que o sr. e Mosconi parecem ser blindados, gostaria de saber qual o advogado que vocês contratam. Estou precisando de um. Sabe como é né? Se não for muito caro, quem sabe? A esperança é a última que morre.

Paulo Pavesi”


Blog do Paulo Pavesi, 27 de junho de 2015



Promessa é dívida. Então, está paga.

“Bom sábado aos brasileiros e brasileiras de bem. Não sou político e não me interessa a guerra entre PT e PSDB. Mas a verdade é esta. Se metade dos podres do PSDB viessem à tona como os podres do PT, o PSDB teria sido extinto há muito tempo. Mas há um mecanismo no Brasil que é muito complicado e evidente. Esta turminha tem uma proteção que qualquer anjo da guarda se sente obsoleto.”






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Blog do Paulo Pavesi, 24 de junho de 2015.



Esqueci! Só para constar

“NÃO HÁ NENHUM PRESO PELA MORTE DO MEU FILHO. ESTÃO TODOS SOLTOS. OS MÉDICOS QUE ESTÃO PRESOS FORAM PRESOS PELA MORTE DE OUTRO PACIENTE. NO CASO PAVESI NÃO SE ADMITE A PRISÃO. A PROPINA PAGA FOI ALTA O BASTANTE.”


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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