por causa do sabonete



sabonete



Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai… perceber que nós todos vivemos em cacos.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina… quebrou.” Ou: “Eu… quebrei”.

E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada.
E eu vou lhe contar uma história.



Época, 28 de janeiro de 2013
Via @denisenra


A MENINA QUEBRADA
Eliane Brum


Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina…. A menina…. Quebrou”.

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina… A menina…” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou…” Catarina repetia. “A menina… quebrou.”

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará.

Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”.

Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina?

Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina… quebrou”. Ou: “Eu… quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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4 respostas para por causa do sabonete

  1. Ani querida, essa me parece ser a última crônica do livro que ainda não li pois optei pela leitura sequencial,de crônica em crônica, para desfrutar mais dessa viagem deliciante que é ler Eliane Brum. Mas amei a contra capa que tem esse trecho da referida crônica:

    ~Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente~ e ali intui que seria algo esplêndido como vi aqui na íntegra.

    ~a menina quebrada~é de fato estupendo e o sorvo lentamente e o mantenho numa cadeira ali lado de minha cama, bem ao alcance de minha mão/coração, para me encher, ou seria melhor preencher, com os extraordinários doçura e calor humano de Eliane Brum, sempre que a alma necessitar de um afago. Porque viver não é fácil e é sempre um trajeto solitário, por mais bem acompanhada que estejamos, e o que vai nos manter acordados é todo carinho e cuidado com a alma, que apenas muitos poucos humanos como Eliane Brum tem esse dom de nos fazer companhia, assim de longe tão pertinho, alimentando nossa tão precária e carente condição humana.
    Eliane Brum não escreve para ensinar, contestar ou qualquer uma outra vaidade qualquer. Escreve para não enrijecer, para se desvanecer em outros e através do próprio ser desaguar e banhar a todos que de seus águas se encantarem. Escreve porque antes de viver no papel, vive entre e com.
    Com todos seus excepcionais sentidos atenta no Ser. No Ser humano.

    Amei essa postagem e só não vim antes por conta de conexão.
    um beijo
    denise

  2. Oi Ani querida,

    voltei só pra te dar um oizinho.
    Desejo que tudo esteja bem contigo.
    Saudade.

    Toda vez que passo pela Av. Niemeyer e vejo a linda ciclovia que o Rio está construindo lembro-me de ti. Ontem li uma placa informando que parece que serão 3.100 km de ciclovia. Que maravilha, né?
    E qualquer dia vou fazer umas imagens para guardar e postar no twitter.

    Também quando ouço uma canção bela e leio um bom artigo e o meu livro que fala de Borges lembro de vc. De sua sensibilidade e bons e belos saberes.
    Fica com Deus e tudo de melhor para ti!
    beijo carinhoso

    Olha o que de lindo Borges escreveu na dedicatória a sua mãe em Obras Completas, 1974 (que vc deve ter, né?) Me encantou tanto esse livro da Solange Fernández Ordónez que estou pensando em tentar fazer uma amizade com Borges através de seus livros.
    Veja a responsabilidade de um escritor quando fala de outro escritor: nos tornar encantados por aquele de quem já se encantou 🙂

    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    “A Leonor Acevedo de Borges

    Quero deixar escrita uma confissão, que ao mesmo temo será íntima e geral, já que as coisas que acontecem a um homem acontecem a todos. Estou falando de algo já remoto e perdido, os dias de meu santo, os mais antigos. Eu recebia os presentes e eu pensava que não passava de um menino e que não havia feito nada, absolutamente nada, para merecê-los. Certamente, nunca o mencionei; a infância é tímida. Desde então me tens dado tantas coisas e são tantos os anos e recordações. Pai, Norah, os avós, e tua memória e nela a memória dos antepassados (…), tua prisão valorosa, quando tantos homens calávamos (…), as claridades compartilhadas e as sombras, tua fresca ancianidade, teu amor a Dickens e a Eça de Queiroz., Mãe, tu mesma.
    Aqui estamos falando os dois, et tout rest est littérature, como escreveu, com excelente literatura, Verlaine, J.L.B.”

    Jorge Luis Borges, em Obras Completas, 1974 –
    transcrito por Solange Fernández Ordõnez, no seu encantador ~O olhar de Borges – uma biografia sentimental ~
    tradução de Cristina Antunes – Belo Horizonte – Editora Autêntica – 2009 – págs 163/164.

    ~nota: acredita Ani que eu só consegui me encantar por Borges a partir do capitulo ~O destino e a trama ~ e esse capítulo com a dedicatória foi o ápice. Até então só o achava um autor brilhante por todas as referências que tinha dele e da própria autora do livro 🙂

    tchau e bj.

  3. Ani disse:

    Oi, Denise!

    Obrigada pela dica do Borges. Tenho as Obras Completas sim (em espanhol, compradas há muitos e muitos anos, por isso não sei se é verdade que sejam completas completas), mas ainda não li inteiras, e esse texto eu não conhecia, ou pelo menos não me lembrava de conhecer (tanta coisa que a gente lê e, mesmo gostando, com o tempo esquece).

    “A infância é tímida”. “As coisas que acontecem a um homem acontecem a todos”. Grande Borges. Para mim, no caso dele nem precisou do encantamento de outros autores, foi amor à primeira vista nas leituras primeiras diretas mesmo. Mas talvez isso tenha a ver com as primeiras coisas que me caíram nas mãos. Tente ver “Utopía de un hombre que está cansado” e “El inmortal” (contos), “El Golem”, “Ausencia”, “Laberinto” (poemas) para ver se não se apaixona de uma vez você também.

    Há alguns anos, fiz um passeio ótimo por ciclovias do Rio. Começando do aterro do Flamengo até o Botânico, e voltando. De bicicleta, claro 🙂 Que venham muitas outras rotas mais na Cidade Maravilhosa. Grande notícia. Vou adorar receber fotos das que não conheci também.

    Como sempre, ótimo receber sua visita. Bençãos para ti.
    Ani

    • Ani querida,

      grata pela atenção.
      Vou anotar os citados por ti. Quero incursionar no mundo fantástico de Borges.
      Fiz as fotos da ciclovia outro dia. Cada dia está mais completa e admirável.
      Obrigada pelas Bençãos. O mesmo te desejo.
      beijo
      denise

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