Da corrupção do discurso anticorrupção



Primo de Richa, Agripino, Serra, Aécio... enxurradas de envolvidos em denúncias de corrupção (e opositores do PT) protestando contra a corrupção. O que isso quer dizer? Para ir ao tuíte (e às fotos), clicar sobre a imagem.

Primo de Richa, Agripino, Serra, Aécio… enxurradas de envolvidos em denúncias de corrupção (e opositores do PT) protestando contra a corrupção. O que isso quer dizer? Para ir ao tuíte (e às fotos), clicar sobre a imagem.



Jogo do Poder, 14/04/2015
via @stockler_

HISTORICAMENTE, O DISCURSO ANTICORRUPÇÃO É “OURO DE TOLO”, EMPULHAÇÃO, DISSIMULAÇÃO, FERRAMENTA DE DEMAGOGO MALANDRO. AGORA É DIFERENTE?

Quem não é contra a corrupção?

A resposta também explica a razão pela qual um discurso contra a corrupção pode servir a qualquer propósito.

No início do século XX a Coluna Prestes percorreu o Brasil com o estandarte da luta contra a corrupção. Nos anos 1950, o discurso anti-corrupção comandado por Carlos Lacerda levou Getúlio Vargas ao completo desespero. No início dos anos 1960, Jânio Quadros se elegeu empunhando uma vassoura, com a qual prometia varrer com a corrupção, e, em seguida, os militares acabaram com a democracia justamente para dar fim à corrupção, o comunismo e a inflação. No início dos anos 1990, Collor se elegeu sob o discurso de que o Governo Sarney era o mais corrupto da história do Brasil, era o “Jânio Quadros de aspirador de pó”, segundo o candidato comunista Roberto Freire.

O resultado que se viu depois da Coluna Prestes, da argumentação sem fim de Carlos Lacerda, de Jânio Quadros, do Golpe Militar de 64 e de Collor, foi o fracasso memorável dos seus propósitos.

Por fim, lembram do PT da década de 1980? Aquele que era o dono da ética, o único sério e honesto, combatente sem trégua da corrupção? Aquela visão lúdica do “Lula lá” que invisibilizava os fatores reais de poder? Aquele PT que elegeu o Presidente também prometendo acabar com a corrupção? Pois é!

Ou seja, o discurso anti-corrupção (esse que diz que a corrupção é o problema fundamental do Brasil) serve para tudo e também para nada, pois foi o elemento presente em todas essas trajetórias, sem jamais revelar como iria acabar com a corrupção.

Esse discurso serve sempre para a demagogia, para a empulhação, ao estelionado intelectual! Ou seja, não resulta e não serve para nada! Até porque nunca revela como terminar com a corrupção.

As manifestações que se iniciaram em 15 de março e tiveram sua segunda rodada em 12 de abril padecem exatamente do mesmo mal e vão se extinguir naturalmente porque o discurso anti-corrupção, que lhe está emprestando unidade e força, tem prazo de validade muito curto.

Logo os brasileiros vão se perguntar: além de tirar o PT do poder para acabar com a corrupção, o que mais vão fazer? Aliás, tirar o PT do poder é a solução para acabar com a corrupção? Então, enfim, como vão acabar com a corrupção, já que ela existe desde sempre?

Logo os brasileiros vão se dar conta que esse propósito é tão quixotesco e falso quanto era o nobre propósito da Coluna Prestes, do discurso de Carlos Lacerda, de Jânio Quadros, do golpistas de 64, de Collor em 1990 e do PT puro da década de 80. Empulhação pura!

As lideranças que organizam as manifestações também portam o vírus da falsidade porque elas não estão expondo de modo transparente como vão acabar com a corrupção e não o fazem porque o discurso anti-corrupção é usado também apenas como o elemento catalizador: o falso motivo.

Na verdade, o empresário que está financiando as manifestações não verbaliza que quer acabar com o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, enfim, com esses programas de transferência de renda cujos custos implicam em aumento da carga tributária. Ele acredita sinceramente que os programas sociais são esmola e que o correto “é ensinar a pescar e não dar o peixe”.

Na verdade, o homem e mulher de classe média que está nas manifestações pensa que se teve que lutar para conquistar o que tem, não é correto o governo pegar o dinheiro “dos seus impostos” e distribuir para quem não trabalha, por meio dos programas sociais.

Na verdade, os estudantes da classe média e da elite crê se tratar de um absurdo que ele tenha que pagar a universidade privada onde estuda, enquanto o filho da Ralé que está sentado ao lado nada paga porque é beneficiado por um programa social para estar ali.

Assim também acha o médico que está nas manifestações que no Brasil de hoje é obrigado a cumprir jornada no seu emprego público e que está com imensa raiva do Governo pela implantação do programa “Mais Médicos”, sem sequer discutir com o seu sindicato, seu CRM ou com a sua Associação Médica, isto porque acreditam que o Governo nada pode fazer sem a sua autorização, pois a saúde é um setor que historicamente lhes pertence.

Os exemplos são sem fim, mas o fato é que os manifestantes não estão dizendo sinceramente o real motivo que lhes move, que é o fim das bondades desse governo “comunista e corrupto”, obviamente, os programas sociais. É exatamente o que pensa em geral a elite brasileira, sempre muito esperta e competente na apropriação do Estado para atender os seus interesses.

Os organizadores das manifestações não verbalizam isso porque sabem que não só vão perder o apoio, como terão a oposição da maioria da população brasileira. Então dissimulam, enganam, falseiam usando o discurso anti-corrupção para mobilizar uma massa de pessoas, em geral despolitizadas e com interesses muito particulares. Isso é legítimo, eis que faz parte do jogo democrático. Mas nisso não diferem em nada dos nossos políticos, cuja ação em geral está sustentada em uma dissimulação. Vale aqui o exemplo do velho MDB, uma Arca de Noé que só se mantinha unido no genérico e generoso discurso anti-ditadura, um consenso da sua esquerda até a sua direita.

Mas o fato é que o discurso anti-corrpção tem um efeito mobilizador muito passageiro, pois se essa fosse uma prioridade da sociedade brasileira os intentos da Coluna Prestes, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, os golpistas de 1964 e Collor teriam sido coroados de êxito e o que se viu foram retumbantes fracassos.

Os nossos partidos, desde a sua criação no século XVIII, não seriam o antro de corrupção e financiamento indecente da política que são até os dias de hoje.

Para que as manifestações tenham alguma perspectiva, algum futuro, consigam ir além do voluntarismo estéril que tem lhes marcado até aqui, é preciso dizer o que querem além de acabar com a corrupção.

Inevitavelmente então terão que revelar como pretendem resolver os reais problemas do povo brasileiro, histórica e insistentemente invizibilizados pelas elites econômicas e dirigentes, inclusive através da utilização do discurso anti-corrupção.

Só assim teremos um debate honesto.

Leia também: Contra a corrupção! – Gregório Duvivier

 E no blog Ani Dabar, sobre este tema:
Política de uma nota só – Vladimir Safatle
A armadilha da corrupção – Contardo Calligaris



Dez dias antes de virar réu por corrupção, o senador do DEM esteve em ato anticorrupção cujo alvo era o governo Dilma Rousseff. Clicar na imagem para ler a matéria na Carta Capital.

Dez dias antes de virar réu por corrupção, o senador do DEM esteve em ato anticorrupção cujo alvo era o governo Dilma Rousseff. Clicar na imagem para ler a matéria na Carta Capital.




manifestações de corruptos contra a corrupção

Mais sobre a intrigante presença maciça de envolvidos em denúncias de corrupção nas manifestações anticorrupção.




manifestações sonegação não é corrupção

Incluindo os que definem corrupção como lhes convém.




São tantas as perguntas sobre a seletividade dos olhares sobre a corrupção, não?

São tantas as perguntas sobre a parcialidade de certos discursos anticorrupção, não?




Palavras de quem criou uma Controladoria Geral que desbaratou uma máfia fiscal, ou seja, de quem foi além de um mero blá blá blá anticorrupção.

Palavras de quem criou a Controladoria Geral Municipal que identificou uma quadrilha fraudando o ISS – Imposto sobre Serviços na prefeitura de São Paulo (clicar sobre a foto para saber mais), isto é, de quem foi além do discurso anticorrupção parcial e oportunista, tomando medidas concretas e eficazes no combate à corrupção (como, aliás, tem sido feito em gestões do PT, entre outras, nas de Lula e de Dilma Rousseff).



Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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