Falácias da liberação sexual


sexy lie


Doce, 30 de junho de 2014


A FALÁCIA DA LIBERAÇÃO SEXUAL
E AS NOVAS FORMAS DE DOMINAÇÃO

Clarissa Wolff

– Sabe, essa história de liberação sexual é uma mentira.

Tudo começou com essa frase, que um dia comentei casualmente com meu namorado. Em seguida completei: “acho que vou escrever sobre isso”.

Quando morava em Porto Alegre, eu gostava de ir a strip clubs com um dos meus melhores amigos e começar a noite por lá, bebendo uma cerveja e observando as apresentações. Aliás, amigos homens eu sempre tive muitos: “você é um dos caras, Cla”, era o que costumava ouvir com frequência. “Queria que as meninas que eu fico fossem mais como você.” Há algum tempo, essas declarações começaram a me deixar intrigada.

A gente sabe que o machismo mais fácil de reconhecer é aquela tia que manda a filha lavar a louça enquanto o filho joga videogame, que xinga a menina pelas roupas que ela veste, que usa termos como “ela tava pedindo”, enfim: pra ela, o papel da mulher é ser casta, submissa, gerar filhos e cuidar da casa. Nossa geração, porém, define que a mulher tem também outro papel muito claro na sociedade: a de provar que é superliberada sexualmente, adepta do sexo casual, de relacionamento aberto, de clubes de swing, ménage à trois e sexo no banheiro da balada. Não tem nada de errado em gostar de sexo casual e nenhuma das coisas citadas aqui – e ser sexualmente livre é algo lindo. O problema é que é, também, bastante raro.

Pra se adequar, a gente se vê reproduzindo comportamentos como: “ah, eu só tenho amigos homens, mulher é muito dramática” e “eu odeio discutir a relação” e “eu só curto sexo casual” e “claro que eu amo pornografia!”. Essa falsa “liberação sexual” é só uma forma de nos encaixar em um novo papel pré-definido em que devemos ter um determinado comportamento para receber aceitação masculina. A gente aprende a internalizar nossa própria objetificação e confunde isso com liberdade sexual quando é só uma nova prisão – diferente da de antes, mas ainda prisão.

O mundo hoje é muito mais sobre saciar a fantasia sexual masculina de disponibilidade ilimitada de mulheres do que sobre a liberação sexual feminina de verdade – todo cara quer uma coelhinha da Playboy.



No vídeo acima, Caroline Heldman resume como funciona a objetificação (tema também bem explicado aqui) e os motivos pelos quais isso não é empoderador. Trazendo a dicotomia entre sujeito e objeto, ela explica que o objeto sempre é subordinado ao sujeito, que é quem tem escolhas e atitudes. Compreendendo essa análise, fica claro que nossa própria objetificação é ligada diretamente à nossa sujeição em relação aos homens.

Ela ainda contesta a mentira de que “sexo vende” e elabora que, às mulheres, é vendida e imposta a noção de que é dessa forma – através da subjugação da nossa sexualidade (que, é claro, precisa responder a certos padrões) – que garantimos nosso valor. E o pior: além de depressão, péssima autoestima e uma série de outros problemas criados por essa dominação, ela aprisiona e condiciona nossa sexualidade, impede uma verdadeira liberação e se torna um obstáculo para uma relação sexual prazerosa. É mais um problema que aparece no nosso caminho em busca do orgasmo: já ouvi muitos relatos de amigas que, embora realmente gostem de fazer sexo, nunca gozaram com um homem, apenas sozinhas.

Essa matéria sobre a Jennifer Lawrence traz à discussão que essa objetificação, é claro, invade Hollywood também, de formas menos óbvias, e como o estereótipo da “Cool Girl” nada mais é que parte da dominação. Jane Fonda, outra cool girl que a autora descreve, perdeu o status no momento em que começou a se envolver seriamente com política – e a coincidência aqui é inexistente. Ela havia, é claro, rompido com a ordem que fazia dela a queridinha da época: “Cool girls não se importam com as mesmas coisas que normal girls. Elas não se sentem atoladas pelo patriarcado e nem se preocupam com seu peso. Elas são basicamente ‘um cara’, mas mascaradas em lindos corpos femininos, aproveitando os privilégios dos dois. Mas vamos deixar uma coisa clara: é atuação. Pode não ser consciente, mas é a forma que a nossa sociedade ensina uma menina a ser legal: relaxe, não incomode, aja como um cara, mas pareça uma supermodelo”.

A jornalista do The New Yorker Ariel Levy escreveu um livro intitulado Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture, em que aprofunda essas questões e critica o mundo supersexualizado em que as mulheres são objetificadas, objetificam umas às outras e são encorajadas a se objetificarem. “É a ideia de que a sexualidade feminina é sobre performance, e não sobre prazer”, diz a autora, explicando que é comum mulheres participarem de atividades sexuais que não expressam seus desejos individuais, mas são designadas para tornarem essa mulher desejada ou causarem prazer para o homem observador.

Levy começa o livro falando de Girls Gone Wild, um fenômeno especializado em objetificação feminina. Entre os relatos que ela nos traz estão empregados do programa que coíbem meninas a mostrarem o corpo, “é só os peitos, qual o problema?”; meninas que ficam com outras meninas “pelo show, pelos homens”, que tiram a roupa por artigos da marca – seus seios nus em televisão nacional por um boné; e até mesmo uma menina que aceitou se masturbar para a câmera, mas claro que não conseguiu atingir o orgasmo, porque a ideia do ser sexy é muito distante de sexo (e prazer). Uma das histórias é sobre um concurso que a marca produziu, em que meninas em posições sexuais foram cercadas por homens que gritavam violentamente para que elas tirassem as roupas e elas diziam que não queriam. Depois de alguns minutos de pressão, é claro que elas cederam – isso é uma forma muito clara de violência e assédio sexual financiado pelo programa. Mais para frente, o livro traz a estatística aterradora que um quarto das meninas dos Estados Unidos entre 15 e 19 anos descrevem sua primeira relação sexual como “consensual, mas não desejada”.

A Playboy é outra óbvia instituição que promove os mesmos valores nojentos. Em 1967, quando questionado sobre o símbolo do coelhinho, Hefner declarou que “uma garota deve parecer um coelhinho, pulando, cheia de alegria e energia. (…) [A Playmate] não é sofisticada, uma garota que você não poderia ter. Ela é jovem, saudável e simples – a garota da casa ao lado. A gente não tem interesse em mulheres misteriosas ou difíceis, em femme fatales que usam lingeries elegantes e rendadas, e são tristes e meio sujas psicologicamente. A garota da Playboy não tem renda nem lingerie, ela é nua, limpa, com cheiro de sabonete, e é feliz.” Isso porque, como aponta Levy, a revolução sexual inaugurada na década e apoiada por Hefner era válida apenas para os homens: mulheres com a mesma riqueza de experiências sexuais que ele, e que gostavam de andar por aí de roupão, eram “psicologicamente sujas”. “A garota da Playboy tem uma moral altíssima. Se elas aceitam um encontro, são demitidas”, ele explica, deixando claro que a função da mulher para a marca era de ornamento: não era a parceria, a cumplicidade sexual que era valorizada, mas sua obediência. Amor (e sexo) livres eram empoderadores para homens, mas vergonhosos para mulheres: Hefner diz, na introdução da primeira edição da revista, que gosta de meninas divertidas e fiéis, mas que mentalmente prefere a companhia de homens.

Se é para falar de objetificação e a violência contra mulheres que isso gera, a pornografia jamais poderia ficar de fora. Terreno fértil para todo tipo de violência, estatísticas e depoimentos aterradores mostram a realidade obscena dessa indústria. Linda Lovelace conta que sua iniciação foi em um estupro coletivo de cinco homens, financiado pelo pornógrafo Chuck Traynor: “Ele me ameaçou com uma arma. Eu nunca tinha feito sexo anal e aquilo me destruiu. Eles me trataram como uma boneca inflável, (…) eu nunca senti tanto medo e desgraça e humilhação na minha vida”. Do outro lado, os depoimentos dos chefes da indústria pornográfica entregam que “o que eu realmente gosto de ver é violência contra mulher” (Bill Margold), “não tem nada de que eu goste mais do que uma garota que fala que não vai fazer sexo anal, porque, sim, ela vai ter um pau enfiado no seu cu” (Max Hardcore), “pode ser que promova violência contra mulheres nos EUA, mas eu penso ‘que bom’, eu odeio essas putas” (depoimento de um pornógrafo que criou títulos como “Bem-vindos ao acampamento do estupro”). No livro de Levy, a atriz Jenna Jameson revela que nunca conseguiu assistir às suas cenas e outras experiências aterradoras.

Nada mais adequado que o sensacional slogan do movimento Women Against Pornography: “Pornografia é a teoria, estupro é a prática”. A ideia é largamente explorada no primeiro livro da feminista radical Susan Brownmiller, Against Our Will: Men, Women and Rape. Para ela, “estupro é nada mais, nada menos que um processo consciente de intimidação pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres em um estado contínuo de medo”. Em entrevista, Erica Jong, uma feminista liberal, fala à Ariel Levy: “Eu tava no banheiro esses dias e fui passar shampoo e vi que o nome é ‘Dumb Blonde’ [Loira Burra]. Eu pensei, ‘há trinta anos isso não poderia ser vendido’. Eu acho que a gente perdeu a noção das formas como nossa cultura diminui as mulheres. Eu não iria sugerir alguma lei contra o produto, mas não vamos nos enganar e acreditar que isso é liberação. As mulheres compram a ideia de balançar os peitos com lantejoula – quer dizer, eu sou super a favor disso – mas não vamos ficar cegos pelos seios e bundas e não perceber o quão longe nós não chegamos. Não vamos confundir isso com poder de verdade. Eu não gosto de ver as mulheres sendo feitas de idiotas”.

“A cultura da vulgaridade não é sobre abrir a cabeça para as possibilidades e mistérios da sexualidade. É sobre infinitamente reiterar uma particular – e comercial – forma de sexualidade”, explica Levy enquanto avança a discussão. Existe uma óbvia desconexão entre ser sexy e o sexo em si. Ser sexy é plastificado e pasteurizado, alcançável em meia dúzia de regras ensinadas pela mídia – ou melhor, pelos homens da mídia: seios grandes, cintura fina, cílios longos, muitos decotes, e o ingrediente especial, decorativismo. Uma mulher sexy, na cultura atual, não precisa ser sexual – aliás, muitas vezes é ainda melhor se não for: ela serve como objeto de apreciação, como instrumento para deixar os paus dos homens duros, não como sujeito sexual com vontades e protagonismo (isso nunca). Em uma das sex tapes de Paris Hilton, ela atente o telefone durante a relação sexual, escancarando a completa falta de conexão com o momento, com o sexo e com o prazer.

“Provar que você é gostosa, merecedora de desejo e, mais que isso, que você quer provocar esse desejo ainda é exclusivamente uma tarefa para mulheres. Não basta ser rica, bem-sucedida e realizada (…), até mesmo mulheres no topo de seus campos de atuação precisam se mostrar sexualmente disponíveis”, Levy explica. Como Candida Royalle disse, “nós nos tornamos uma cultura muito sexualizada, mas é sexo e consumo em uma coisa só. Movimentos revolucionários costumam ser engolidos pelo mainstream e transformados em cultura pop. É uma forma de neutralização, quando você pensa sobre isso… torna tudo seguro e acessível, e exclui os radicais. Quando isso acontece, qualquer poder real é dissipado”.

Outro ponto apontado por Levy é por que as mulheres alegremente tomam o posto de FCP, abreviação que a autora escolhe para “Female Chauvinist Pigs”. Uma de suas entrevistadas, executiva da Sony, explica: “Meus maiores mentores sempre foram homens. Por quê? Porque eu tenho pernas lindas, seios maravilhosos e um grande sorriso que Deus me deu. Porque eu quero fazer meu primeiro milhão antes dos 35. Então é claro que sou uma FCP. Você acha que esses homens queriam que eu tivesse lá falando sobre melhoras na carreira, departamentos de marketing, demografia? Não. Eles queriam brincar no meu jardim secreto. Mas eu apliquei meu batom de guerra da Chanel, abri as portas com saltos altos da Gucci, trabalhei, me esforcei muito e subi na ladeira. E fiz a diferença! Tudo isso num terninho curto da Prada”. Isso porque “ser um dos caras” é a melhor forma de se afastar do estereótipo negativo que ser mulher representa. E ser um dos caras, uma cool girl desencanada e divertida, implica também ser sexy e disponível sexualmente. E é claro que é empoderador: você obviamente ganha mais poder ao jogar as regras do jogo. A questão que vale frisar é que não é empoderador como mulher, e sim como parte do patriarcado. Como Levy conclui o capítulo, “se você é a exceção que prova a regra, e a regra é que mulheres são inferiores, então você não fez nenhum progresso”.

“O conceito dessa cultura da vulgaridade como um caminho para liberação em vez de opressão é uma conveniente – e lucrativa – fantasia”, Levy conclui. É claro que faz sentido: o mundo é dos homens; às mulheres, na maior parte das vezes, só resta seguir as regras deles. Mas não se enganem: isso não é liberação, e, muito mais, isso não é feminismo.

Hoje, ser feminista me arranja muito mais problemas do que soluções. “Você enxerga machismo em tudo”, “você tá cada vez mais intolerante”, “que exagero, Clarissa”, “você costumava ter senso de humor” são só algumas das frases que invadem meu dia-a-dia. Os assédios quase diários não passam mais silenciosos e as juras internas de “deixa pra lá, relaxa, é normal” pra cada vez que eu era violentada verbalmente deram lugar para uma raiva crescente e poderosíssima. Quando escrevi meu texto sobre padrões de beleza, que foi publicado no Brasil Post também, vi gente – homens, claro – compartilhando e comentando sobre o quão ridículo era porque “mulher tem que ter carne pra homem pegar”, o valor da mulher ainda completamente ligado à necessidade do homem, é claro. É verdade, não sou mais a cool girl bem-humorada de antes, que sacava o mundo dos caras, gostava de strip clubs e pornografia, e “sabia se divertir”. Agora, parece que sou uma feminazi amarga que odeia homens. E minha reação a isso hoje é rir e pensar: ainda bem. Tava na hora de abrir os olhos.



Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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