Sentido da vida, vida boa, vida ética


“A vida não tem sentido nenhum, mas não é proibido dar-lhe algum.”





“O fato de não haver um sentido pré-determinado, definido, estabelecido para a vida, aumenta a nossa liberdade individual, cria condições favoráveis para a gente poder construir uma vida e uma história de vida… “


Vida ética, vida boa – Renato Janine





Nem tudo abaixo é transcrição ao pé da letra. Alguns recortes são sínteses e parafráses.

A “vida boa” pode ter dois significados. Pode significar a vida eticamente boa e pode significar a vida boa do ponto de vista da felicidade. E não é nada óbvio que as duas coisas convirjam. Pode perfeitamente ser que a ética tenha um confronto com a felicidade. Infelizmente, a nossa experiência é que muitas pessoas que agem da maneira mais desonesta possível, dormem bem. (O homem mau dorme bem é o nome de um filme do Akira Kurozawa.) Então é possível haver uma separação, ou é possível nós entendermos que há uma ligação? Algo que tem me ocorrido muito é o encontro entre o que a psicologia nos propõe e o que a ética nos propõe. Vou tentar trabalhar um pouco nessa direção.

Tenho pensado muito no que significa nós passarmos uma vida na qual temos experiências que são aquelas que, por assim dizer, “fogem ao cânone”. É muito fácil pensarmos a ética como uma aplicação mecânica de uma grade do que é “certo” ou “errado”. E boa parte da educação moral consiste nisso.

Nós não precisamos, para respeitar os sinais de trânsito, acreditar neles (o que for que signifique “acreditar nos sinais de trânsito”). Eu preciso simplesmente temer uma multa etc. Esse tipo de situação tem um significado que não é ético, mas sim legal: jurídico, penal… (E a sociedade funciona bem assim. Quer dizer, não me interessa, quando vou verificar por que as condutas legais estão sendo adotadas, não me interessa inquirir cada pessoa “por que é que você cumpriu a lei”? Essa pergunta, num convívio social, se torna de certa forma absurda. Porque se nos formos fazer isso, nós entramos no processo tão bem conhecido como “Inquisição”. Não nos contentamos, no caso da inquisição, em saber que vocês agiram bem. Nós queremos saber quais são as razões pelas quais cada um agiu bem. E isso é algo sem fim.) Então, desse ponto de vista, um código de ética é um código. […] Mas isso não é, por si só, ética.

Um ponto interessante do código de ética é sinalizar mudanças no código penal. Aponta para uma mudança na moralidade. Atualmente muitos pontos estão mudando no código penal. Antes de haver uma mudança na lei penal, há uma mudança na sensibilidade. É interessante, positivo, embora isso não seja por si só ética.

Nem lei nem código de ética são o mesmo que ética. O que sigo por medo de punição, mesmo que essa punição seja o olhar alheio, não é necessariamente ética, entendida como aquilo que sigo por uma convicção pessoal.

Mas as mudanças atuais no código penal são um ponto interessante no sentido mudança da ética, evolução da ética. A pergunta que eu coloco é: será que isso tem a ver também com uma mudança na psicologia?

E se houver caminhos pelos quais nós pudermos articular o que é positivo na ética com o que é positivo na psicologia?

A principal questão surge quando diferentes valores entram em conflito.

Nós muitas vezes varremos para debaixo do tapete os momentos de crise ética que vivemos.

Qual a diferença de considerar os momentos em que oscilei entre diferentes valores como crise ética ou crise psicológica?

Há valores que são difíceis de estabelecer, que colocam uma dificuldade extraordinária de dizer o que é “certo” e o que é “errado”, qual é a conduta ética. A única exigência que estou fazendo é que essas condutas, essas divergências éticas, essas discussões éticas não sejam passadas em brancas nuvens, é que elas sejam tematizadas, que elas sejam discutidas. Se chegarmos ao momento em que isso puder ser discutido, será fabuloso. São dúvidas que fazem parte da nossa vida cotidiana. Essa é a questão ética. A pergunta que eu estou fazendo é: não é uma crise psicológica também? Não é cada vez mais um fator de crescimento psicológico você perceber a sua extraordinária dificuldade, às vezes, de lidar com situações que escapam às regras que foram definidas, aos modelos que foram propostos etc?

De certa forma, estamos diante de um paralelo entre duas linhas – uma da ética e outra da psicologia – e nas duas o fundamental passa a ser pensar a ideia da crise.

A vida boa, do ponto de vista ético, é a que se pauta pelos valores a que chamamos de “bem”. Não é mais um “bem” que está dado de uma vez por todas. Não é mais um “bem” que eu descubro nos Dez Mandamentos, na leitura dos filósofos… Não é nem sequer um “bem” que represente harmonia. O que estou falando é da vida boa no sentido de que consigamos equilibrar nossos valores, tomar opções que são custosas, que são onerosas, nas quais sempre falta alguma coisa, nas quais sempre algum sofrimento sobra, e que no entanto nos parecem valiosas.

O que seria a vida boa do ponto de vista psicológico? Não é a vida “saudável”. Não vamos trabalhar com uma psicologia tão barata, tão banal, que fale em “cura” ou em “saúde” ou numa situação em que nós não tenhamos problema nenhum, que tudo corra muito bem, sem problemas nem nada. Não se trata de curar a pessoa da neurose, da psicose, da perversão… Trata-se, isso sim, de pensar como é possível reduzir ao mínimo possível o nível de sofrimento que alguém tenha. Como é possível a pessoa sofrer aquilo que efetivamente é necessário? Emildo Stein diz que “a psicanálise é altamente econômica”. Aprender a viver apenas o problema que você está vivendo. Num acontecimento presente – alguém olhou feio, você foi demitido – você está apenas trabalhando com aquele afeto, daquele momento, que é um afeto penoso, pode ser profundamente doloroso, mas que é apenas aquele afeto. Reduz-se uma série de custos anexos que viriam, para lidar apenas com o sentimento negativo daquele instante ou daquela relação. Isso é altamente positivo. Vida boa é ser capaz de não agregar a infelicidade que nós tivemos antes, não agregar as infelicidades do passado ao presente. Mas é um trabalho difícil. Exige um ajuste de contas com uma série de sentimentos que foram se acumulando. Que fazem com que eu tenha uma reação violenta, intempestiva, com algo que pode ser local, que pode não ser tão bom, mas também pode não ser tão mau. Uma coisa mais realista.

Se pensamos dessa forma, qual pode ser a via que articula o que pode ser a vida boa do ponto de vista da psicologia e do ponto de vista da ética? Eu tenho para mim que tem muito a ver com essa capacidade de lidar com a crise, com o drama, com o trauma, com a dor intensa. Eu creio que passa muito por essas experiências, de certa forma extremas, nas quais o século XX foi pródigo. O século XX foi o século dos campos de concentração. Pessoas tiveram que lidar com situações que tornam quase insustentável a sobrevivência. Quando vários autores dizem que a violência, a dor, a desumanidade que foram praticadas nos campos de concentração nazistas, comunistas, foram algo que ultrapassa a possibilidade de narrar, a possibilidade de representação verbal, de verbalização, ou seja, são de uma dor tão intensa que praticamente cala a pessoa, eles estão falando disso. E, no entanto, uma das poucas maneiras pelas quais a gente pode superar isso é verbalizando. É difícil nós superarmos isso se não for, de alguma forma, construindo isso com palavras. Ajustando contas. Não é à toa que a psicanálise dá importância à fala. Não é qualquer fala. Não é uma fala confessional. Não é à toa que é tão importante a gente ser capaz de contar experiências – às vezes de uma forma mais transparente, às vezes de uma forma mais velada – mas que permitem socializar o sofrimento, e dessa forma superá-lo um pouco. Então, essa situação do trauma, essa situação da violência, tem um aspecto interessante, que é a capacidade que ela nos traz de lidar com alguns extremos da humanidade. Talvez a gente deva começar a pensar no que são esses extremos. Talvez a gente deva parar de varrer para debaixo do tapete. Parar de fingir que aqueles momentos não ocorreram.

… questões que nos colocam dois pontos. O primeiro ponto é o da experiência do extremo. O segundo ponto é o da experiência da verdade. A experiência do extremo pode significar que, em certas circunstâncias, nós falhemos em valores fundamentais. Pode significar que nos mostremos incapazes de ser honestos com o outro ou com nós mesmos. Mas a experiência da verdade é uma que pode ter a ver também com o seguinte: e se esses momentos do extremo, em que as coisas aparentemente não dão certo, não forem, por si mesmos, “culpados”? Qual culpa que há em alguém amar? Mas, qual é o ponto fundamental aí? É, provavelmente, dizer a verdade. É, provavelmente, ser capaz de expor esse assunto. Talvez nós estejamos ainda muito presos a uma ideia de culpa. Uma ideia de culpa muito forte vinculada aos sentimentos. Talvez nós tenhamos ainda padrões de ética e de moral que carregam tanto na culpa que acabam, eles próprios, gerando um conflito com a verdade. Eu me sinto tão culpado com certas atitudes que eu tomo, que eu minto, em vez de ser capaz de abrir o jogo, de dizer a verdade e de lidar com isso da maneira mais correta possível. Talvez. São hipóteses que estou levantando.

Mas o ponto que me deixa com a pulga atrás da orelha: e se, pela primeira vez, talvez, estejamos com a possibilidade de que o caminho da ética e o caminho da psicologia não sejam divergentes? Com a possibilidade de que ter a conduta correta, ter a conduta que respeita o outro, não for diferente de ter a conduta que procura a felicidade? Ou, em outras palavras, e se não tivermos mais a ideia de que a felicidade se faz às expensas do outro? De que é um empreendimento privado, privatizado, em guerra com o outro? É a dúvida que eu gostaria de compartilhar com vocês. A partir daí podemos juntar dois caminhos importantes. Um deles tem 2.500 anos. É o tema da vida boa entendida eticamente como aquela em que o que conta mesmo é o respeito ao outro, é o equilíbrio, é a moderação etc. Por outro lado, a ideia da vida boa como a que nos dá satisfação, faz nosso coração sorrir. Durante muito tempo, a tendência dessas duas “vidas boas” foi de divergir. Talvez porque pensamos muito a vida da felicidade como a dos prazeres, a vida da realização pessoal. Mas E SE… esses dois caminhos forem próximos?

Bacanas também algumas coisas na parte de perguntas e respostas, que não incluí aqui. Por exemplo, a relação que faz entre o mito de Édipo e a cultura que valoriza ter tudo planejado e sob controle. Mas aí fica por conta de quem quiser ver o vídeo: cansei de transcrever. Só uma amostra:

Eu não sei se é possível ser integralmente ético. O que que isso significa, a rigor? Se isso significar que a gente segue sempre regras dadas, dá para ser “integralmente”… mas não “ético”. Quer dizer, dá para ser integralmente obediente aos Dez Mandamentos […] Sim, é possível. Isso quer dizer “ser ético”? Tenho minhas sérias dúvidas, porque a ética está muito ligada à capacidade que você tem de escolher você seu próprio caminho. Então, se você está escolhendo seu próprio caminho, há um nível de “erro”, há um nível de titubeio, de gaguejo, que é inevitável. Esse gaguejo, essa dúvida… isso faz parte justamente do crescimento ético. E eu volto ao ponto: eu vejo com muita dificuldade, hoje, um crescimento ético que não seja um crescimento psicológico. E reciprocamente. Acho um crescimento psicológico aquele que faz que as pessoas sejam capazes de ir se abrindo mais e mais às dificuldades desse mundo e à compreensão das próprias dificuldades delas e da tolerância que elas têm que ter aos outros. Não tolerância da indiferença, de achar que tanto faz o que o outro fez. Tolerância de entender que o outro pode estar agindo de uma maneira que eu não gosto, que eu não admiro, mas que pode ser positiva e com a qual eu posso ter algo a aprender. A que pluraliza os seus valores. Acho um grande ponto a questão da orientação sexual. Nem falo “opção” sexual porque acho que ninguém escolhe a sua sexualidade. […] A questão decisiva que eu vejo é uma abertura de espírito, é uma espécie de escancaramento das nossas mentalidades. Nós estamos há algumas décadas num período em que é preciso constantemente abrir mentalidades para aquilo que antes era inaceitável. E nós não podemos dizer que vamos fechar diante do futuro.


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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