Mais da política pública da burca grátis



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Maria Frô, 07/07/2014

VAGÃO FEMININO: GILHOTINA OU ASPIRINA?
Yuossef Igor

Aprovada a criação de vagões exclusivos para mulheres, resta uma pergunta e alguns apontamentos: é o oprimido a principal razão para o livre exercício do opressor?

Acredito que se ainda não alcançamos o limite da barbárie patriarcal, estamos bem próximos, e não estou falando do oriente medio apenas, mas principalmente do mundo ocidental e cristão. Instituimos a culpa, culpabilizamos as vítimas e deixamos à margem as medidas coerentes. O problema é da mulher – é o que se pode entre-ouvir em cada:

“Essa é para casar, essa é para transar.”
“Fulana parece um homem.”
“Mas o que ela queria saindo vestida assim e sozinha?”

Esquecemos o óbvio, descartamos o necessário e urgente. Vagão feminino não resolverá os milhares de estupros que acontecem todos os dias, não calará a sanha de alguns monstros paridos por nossa cultura latina e machista, que ainda entende a mulher como propriedade, a baba dos homens adultos infantilizados pela sociedade de consumo e cuidadora da prole – crescei e multiplicai-vos, parece que é isso, não é?

Mas então que fazer?

Educação bastaria? Policiamento ostensivo e um sistema eficiente de prevenção e repressão a crimes contra a mulher?

Nascemos errados, fomos criados de maneira equivocada e opressora, a cultura da culpa e a política do medo nos batizou como bestas da floresta, mas ainda piores, nos predamos de maneira doentia e faz parte do prazer de alguns a prática disso, a negaçao d@ outr@.

E desde Eva, os mais velhos nos ensinaram que a dor é culpa delas, que a sua suposta fragilidade é o motivo de nossa dominação. Todos os domingos ouvimos na missa, culto, reunião que dentro delas reside o pecado original e por sua causa provamos aquilo que nos condenou a ser o que somos, assim elas são apenas nossas mães, nossas namoradas, nossas mulheres, como se houvesse o diabo de uma lógica paramentada e supostamente divina para legitimar o apartheid que elas sofrem desde o principio da humanidade.

A mulher é o negro do mundo, é o negro do negro, o objeto com feições humanas, aquilo que devemos cuidar e defender, nunca ouvir ou cogitar levar em consideração o que dizem, sentem ou pensam.

Em 1954 nos estados do sul dos EUA, havia bancos reservados para negros nos ônibus. Na África do Sul, alguns lugares eram vetados a determinados grupos étnicos. Hoje até o mais conservador, ao pensar nisso, sente vergonha da humanidade. A criação de vagões reservados para mulheres é o triunfo da lógica absurda que os nossos tempos gestaram, do retorno ao obscurantismo capaz de criar a ideia de que existem seres humanos de 2a classe.

Vagão feminino como política para coibir os abusos sofridos por nossas companheiras é tão absurdo quanto recomendar a guilhotina como analgésico, pois segrega a vítima e empodera o opressor, nos divide. Quando o correto seria combater o machismo nosso de cada dia, e como combater?

Segregando, separando, tornando a fronteira entre homens e mulheres ainda mais profundas?

Qual o próximo passo? Leis sobre o que vestir ou a instituição de lugares nas cidades e no trabalho apenas para elas?

Vagão feminino não combate o machismo, apenas o reafirma.

Camarada Zé

Sobre o tema também: “O vagão para mulheres só anda para trás” – Marília Moschkovich

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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