Da afinidade


gebo


Faz uns dias, a @denisenra – que nunca conheci pessoalmente e com quem nunca tinha conversado virtualmente -, me mandou uma mensagem direta bacana pelo tuíter. Notava minha ausência  por ter sentido comigo uma boa dose de afinidade (simplesmente pelo que posto na minha conta fake). E resolveu me dizer com a maior delicadeza, desculpando-se de antemão por qualquer eventual ‘invasão’. Trocando mensagens, foram aparecendo mesmo as afinidades na forma de sincronia entre o que ela me dizia e coisas que eu tinha como muito caras aqui no blog, sem que ela fosse uma visitante do blog, por exemplo, ter Memórias, sonhos e reflexões do Jung como leitura impactante na vida, ter “Over the Rainbow” entre canções simbolicamente destacadas na psique como befazejas, prezar muito nossas lágrimas mas ainda mais nossas risadas, considerar a alegria e a ternura uns trecos sagrados … Aí ela me deu a dica de um texto de que gosta muito do Artur da Távola (pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros), sobre o tema “Afinidade”. Este eu não conhecia, mas era outra afinidade, já que o blog tinha um texto do Artur da Távola de que gosto demais: “Nunca se sabe onde está uma despedida“. Lido o tal texto sobre afinidades, lembrei de um episódio relacionado ao tema: o reencontro, depois de muitos e muitos anos, com uma amiga de infância e adolescência, pleno dessa sensação mais do que grata de que havia uma proximidade que permanecia intacta, atemporal, que retomávamos a conversa com a naturalidade e a leveza de nenhum tempo ter se passado. Mas especialmente curioso foi ter sido em termos muito parecidos com os desse texto, que falamos daquela sensação aconchegante, de como ela nem sempre acontecia em outros reencontros com pessoas de infância e adolescência que haviam sido muito queridas. Um mistério o reconhecimento e bem-estar atemporais e não-espaciais que acompanham esse tipo de afinidade que perdurou. Percebo que, naquele caso, ela não era, pelo menos não em sua essência, principalmente uma concordância de ideias ou gostos – que parece precisar existir em boa medida, mas por si só nem sempre é suficiente – nem de estilos de personalidade ou de vida: com essa amiga reencontrada, havia a coincidência de estarmos em situações profissionais bem assemelhadas, mas nunca tivemos personalidades similares, e os caminhos pessoais foram bastante diferentes em outros aspectos importantes. O cerne daquela sintonia que facilmente se reestabelecia parecia ser de algum outro tipo.


AFINIDADE
Artur da Távola

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos.  O mais independente. 

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida. 

É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial. Ter afinidade é muito raro. 

Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade. 

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavra. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento. 

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. 

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar. 

Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. 

Só entra em relação rica e saudável com o outro, quem aceita para poder questionar. Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar, não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é. E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso. Isso é afinidade. Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona. Questionamento de afins, eis a (in)fluência. Questionamento de não afins, eis a guerra. 

A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele. Independente dele. A quilômetros de distância. Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar. Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos, veremos ou falaremos. 

Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes, com irmãos do não vivido? 

A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa do tempo para existir.
Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade! No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou. Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm. 

Por prescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes. Sensível é a afinidade. É exigente apenas de que as pessoas evoluam parecido. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau, porque o que define a afinidade é a sua existência também depois. 

Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir restituir o clima afetivo de antes, é alguém com quem a afinidade foi temporária. E afinidade real não é temporária. É supratemporal. Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta, ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade. A pessoa mudou, transformou-se por outros meios. A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas, plantios de resultado diverso. 

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças, é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quantos das impossibilidades vividas. 

Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação.
Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.

Fonte do texto: O pensador.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Literaturas várias, Memórias sonhos reflexões e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Da afinidade

  1. denise disse:

    Ani,sua apresentação ficou muito bacana. E as afinidades aqui pormenorizados são trecos bem sagrados mesmo :))
    Seu jeito muito especial de falar de tudo um pouco me cativou. Sua alegria, sensibilidade e leveza são bens (de atributos) apreciáveis.
    Seu blog é lindo e já o conheço há bom tempo. Existe aqui um texto que já li e só não comentei porque ainda era muito tímida para me apresentar, mas no dia dia que li a postagem me vi um pouco em suas palavras. Um dia visito e deixo lá minha alegria.
    Aliás existem mais textos aqui que amei. Espero voltar e visitá-los um a um num tempo desse.
    beijo
    denise

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s