Uma palavra


palavra boa
não de fazer literatura
mas de habitar
fundo
o coração do pensamento



No documentário que leva o nome de uma de suas famosas canções, “Uma Palavra”, Chico Buarque fala da rica relação entre música e literatura em suas canções e livros. Gravado em Lisboa, Paris e Budapeste, mostra o artista explicando as diferenças entre as duas linguagens e como elas se influenciam mutuamente em sua obra. No filme, Chico visita a Hungria pela primeira vez, com dicionário em punho, após dois anos de pesquisa sobre sua capital para escrever o best-seller Budapeste. [Texto no gnt.globo.com]



UMA PALAVRA
Chico Buarque

palavra prima
uma palavra só, a crua palavra
que quer dizer
tudo
anterior ao entendimento, palavra

palavra viva
palavra com temperatura, palavra
que se produz
muda
feita de luz mais que de vento, palavra

palavra dócil
palavra d’agua pra qualquer moldura
que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
qualquer feição de se manter palavra

palavra minha
matéria, minha criatura, palavra
que me conduz
mudo
e que me escreve desatento, palavra

talvez à noite
quase-palavra que um de nós murmura
que ela mistura às letras que eu invento
outras pronúncias do prazer, palavra

palavra boa
não de fazer literatura, palavra
mas de habitar
fundo
o coração do pensamento, palavra

 


“A palavra é mais forte do que o criador,
às vezes nos conduz por caminhos que a gente não esperava.”

“Existe, é claro, a coisa do jogo de dados, do imprevisível, na criação.”

“Por isso às vezes é difícil falar sobre o seu trabalho literário: porque às vezes você está inventando em cima do que aconteceu de uma forma quase inexplicável. Não é inexplicável tudo, você está trabalhando. Mas, no meio do trabalho aparecem coisas, aparecem imagens que você não estava buscando. E essas imagens geralmente são bem-vindas. Num primeiro momento são ‘erros’, são ilusões,  que depois você vai dizendo, isso faz sentido, e você vai burilando.”

“A literatura, como proceso critativo, é bastante diferente da criação de canções.
[…] Eu tenho a impressão de que são partes diferentes do cérebro que atuam.
É um pouco esquizofrênico, mas é como se eu tivesse duas pessoas criando.”

“O português. Falar e escrever português tem vantagens e desvantagens. É uma língua muito rica. Eu percebo isso quando eu componho as traduções. Às vezes a tradução para outras línguas latinas sofre um pouco. Padece e empobrece um pouco. Porque o português, talvez por ser uma língua periférica, mesmo dentro da Europa, o país Portugal, às vezes ele é mais próximo até do latim, porque sofreu menos simplificações ao longo da história. Ao mesmo tempo recebeu influências: o árabe e tudo mais. E o ‘brasileiro’ , que já é o portugês adocicado, amaciado, como dizia o Noel Rosa: ‘tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro’, já passou do português. Então é um tesouro desconhecido. A língua portuguesa… Até pouco tempo, os tradutores de português eram os mesmo tradutores de espanhol. O sujeito sabia espanhol, achava que podia traduzir do português. E isso é enganoso, porque o português… o espanhol parece com o português, por isso mesmo é traiçoeiro. Há semelhanças e há diferenças dentro dessas semelhanças muito… especiais.  Então é isso. Vantagens: por ser uma língua marginal, periférica, quem lida com o português é um pouco obrigado a tratar com outras línguas. O português às vezes era considerado como um dialeto do espanhol. E por isso mesmo os portugueses compreendem os espanhóis; os espanhóis não compreendem os portugueses. Nós, brasileiros, compreendemos os latino-americanos. Um argentino que chega no Brasil, ele fala na televisão, não aparece a legenda. Prô grande público! As pessoas entendem o que ele está falando. Se você for para a Argentina, falar em português, ninguém vai te compreender. Então você tem essa obrigação de saber um pouquinho, de lidar com outras línguas. Estou falando não só de quem trabalha com literatura. Eu lembro de uns garotos lá na Candelária […], pedindo esmola […]: ‘Monsieur, have money prá manjar?’ Misturavam quase todas as línguas para se fazer entender.”


[Achando meio fora de lugar algumas coisas que ele diz acima. “Português é uma língua muito rica. Vejo quando vou traduzir para outras línguas”. Chico, dear, ojo: português é tua língua materna, línguas maternas costumam parecer ‘mais ricas’, porque temos domínio mais rico delas, das variedades internas dela (o que todas as línguas têm), ainda mais você, que vira o português do avesso com a maior tranquilidade. As traduções que você faz para outras línguas talvez sofram e padeçam do domínio menos amplo que você tem dessas outras línguas? E tem outras aí. Mas, tá, interessante ouvir a percepção de um usuário dos mais finos do português sobre essas coisas, de qualquer forma. A parte das ‘vantagens’ de ser língua periférica me convence.]

Teve uma época que eu só lia Guimarães Rosa. Eu queria ser Guimarães Rosa.

[Quem, entre quem trabalha com a, ou gosta da, língua, nunca quis ser Guimarães Rosa, né?]

“Escritores não costumam ler os seus contemporâneos.”

[Putz, de repente ele tem razão?]


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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