Os 70 anos do Chico Buarque





Já devo ter comentado aqui no blog. Vai de novo. Uma conhecida que é de outro país aqui da América Latina costuma cutucar para me ouvir falar do Chico. Por exemplo, quando comento quanto adoro as coisas do Caetano e do Gil, ou coisas do tipo, volta a perguntar: “E o Chico?” “Estou falando de genialidade humana, né? Talvez eu até goste mais do Caetano ou do Gil, mas tem que admitir que as composições do Chico muitas vezes atingem outro plano: o divino. Acontece ainda com mais frequência em parcerias com o Edu Lobo.” Ela se diverte: “Acho graça nisso que você diz do Chico”. Mas é verdade. Inclusive acho que nunca consegui pensar num disco de perfeição mais angelical que O Grande Circo Místico.


Estadão, 15//06/2014

Por Renato Vieira

Chico Buarque de Hollanda completa 70 anos de idade, trabalhando em Paris, onde escreve novo livro. E em 2014 sua obra musical completa meio século a partir de Tem Mais Samba, canção escrita para o musical Balanço de Orfeu , que ele considera o marco zero de sua obra. O cantor, compositor e escritor não é mais a “única unanimidade nacional” apregoada por Millôr Fernandes no início de sua carreira – o próprio Chico disse ter “ficado espantadíssimo” com os comentários de seus detratores na internet –, mas é inegável que suas posições em relação ao Brasil e o impacto de sua produção continuam pertinentes. A importância de Chico e suas qualidades como cidadão e artista são expostas neste caderno que celebra seu aniversário. Depoimentos de amigos e parceiros ouvidos pelo Estado ajudam a definir sua personalidade na intimidade. Ruy Guerra, com quem Chico escreveu a peça Calabar: O Elogio da Traição, além de músicas para a trilha sonora, afirma que o talento de Chico é fruto do “trabalho constante e teimoso”.

Trabalho que deu mais de uma dezena de clássicos sem os quais a música brasileira não seria a mesma. Algumas funcionam como alicerces de entendimento do País. Outras ressaltam as características de um poeta que evidencia o operário, a mecânica do cotidiano e a moça na janela e na alcova. Chegar aos 70 não é impedimento para ele. Sua obra permanece em construção.

Maria Bethânia sobre Chico

Chico Buarque é um dos maiores compositores do Brasil. É meu grande e querido amigo, muito bom de ter. Quieto e respeitador. Profissional extraordinário, estudioso, firme. É um homem lindo, maravilhoso, cavalheiro e deslumbrante. Comigo, é uma flor. Não poderia ser mais suave, amoroso e cuidadoso. Das canções que ele fez para eu cantar, não posso escolher uma. Todas são deslumbrantes. Estarão para sempre entre as melhores da minha vida. Isso já é um presente muito grande. Sou grata. Apaixonada por ele. E sua música alcança nobremente a todos. Com o melhor português, a melhor música, a melhor harmonia. Por isso é hora de parar de dizer que brasileiro tem ouvido burro. O brasileiro é sensível e sabe o que é bom. Chico faz aniversário um dia depois de mim. Sou do dia 18 de junho e ele, do dia 19. Quando a gente estava fazendo o show de Chico & Bethânia, no Canecão (no Rio, em 1975), era um sucesso! Ficamos meses em cartaz. Estávamos no palco e resolveram fazer uma homenagem. No final do show, para tudo e entram as ‘canequetes’, de tapa sexo, cada uma com uma TV imensa e oferece para a gente. Chico me olhou e disse: ‘Nunca mais faço aniversário!’ Que vergonha que a gente passou! Mas ele é geminiano, adora fazer aniversário. Este ano ele não está aqui para eu dar um beijo nele. Mando de longe! Chico é tudo. É o máximo.”

Edu Lobo sobre Chico

Nossa parceria é fora do comum. Temos apenas duas músicas fora de projetos específicos, “Moto-Contínuo” e “Nego Maluco”. As outras 40 que fizemos juntos “têm patrão”: fizemos músicas para balés e musicais. O balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, havia encenado Jogos de Dança, seis peças instrumentais que fiz. Eles me chamaram para fazer O Grande Circo Místico e eu sugeri o Chico para fazer as letras, pela qualidade dele e porque ele tinha prática de teatro, a carreira dele foi por esse caminho. Eu sempre interferi muito nas letras dos meus parceiros, pedindo para trocar uma palavra. Nunca fiz isso com o Chico na vida. Nenhuma letra eu tive que pedir algo, porque ele é completamente obcecado, escreve e reescreve. Crio a expectativa e normalmente vem uma letra melhor do que a que estou esperando. Além de ser um excelente compositor, ele consegue inventar e construir um personagem, caso da Lily Braun e da Beatriz no Circo Místico. Nosso encontro foi bom para nós dois. Eu sou um melhor músico pelo que fiz com ele e ele é um melhor músico por conta do trabalho que fez comigo. Chico consegue adivinhar o que a música quer passar e, muito provavelmente, nem o autor da melodia pensou daquele jeito.

Djavan sobre Chico

Junto com Caetano, Gil e Milton, Chico é uma das minhas principais influências. Quando eu era crooner em boates no Rio de Janeiro, no meio dos anos 1970, cantava muitas músicas dele. Em 1979, Chico me ligou em casa. Eu não o conhecia pessoalmente e demorei a acreditar que era ele e que ele sabia que eu existia, mesmo ouvindo aquela voz. Na ligação, ele me convidou para ir a Cuba. Aí que eu não acreditei mesmo, porque não havia relação diplomática com o Brasil. Fomos a Cuba e depois a Angola. O Chico era um embaixador da música brasileira, promovia muitos encontros com os músicos dos locais que visitávamos, as viagens são inesquecíveis. Em Cuba, decidimos fazer uma música juntos. No Brasil, fizemos “Alumbramento”, que acabou dando nome ao meu terceiro disco. Também gravamos “A Rosa”, e foi muito divertido, com aquela letra irônica. Depois fizemos “Tanta Saudade”, que entrou na trilha do filme Para Viver Um Grande Amor, em que atuei. O Chico que me convenceu a isso, porque eu não queria, mas ele achou que o papel principal tinha a ver comigo. Ele sempre acreditou no meu trabalho, na minha música. Quando nos conhecemos, ele dizia: “Isso que você está fazendo é o caminho. Continue fazendo”.

Para ler comentários de outros artistas sobre o Chico no Estadão, clicar aqui.



Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Gente admirada, Homenagens e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s