Efeitos Pochmann

Marcio Pochmann 10_06_2014

Marcio Pochmann

Não lembro o ano em que o Marcio Pochmann começou a me chamar a atenção. Foi há um bom tempo, em comentários na TV sobre eleições e seus resultados e coisas afins. Começou a acontecer que, quando ele surgia, eu ficava contente: “opa, aquele analista político que eu gosto”. E ouvia tudo com o maior interesse. Talvez tenha sido ele que, em alguma das eleições (presidenciais?, para governos de Estado?), chamou a atenção para que o PSDB tinha tido maioria em estados dominados pelo agronegócio? Fui cada vez mais achando os comentários, relações, derivações dele um negócio revelador, que fazia dados fazerem mais sentidos. 

Eis que, em 2012, fico sabendo que Marcio Pochmann é o candidato do PT à prefeitura de Campinas. Começaram a acontecer entrevistas com ele pelos “blogueiros sujos”. Foi se intensificando a admiração. Talvez tenha sido só então que fui procurar direito quem era esse Marcio Pochmann, formação, coisas assim. É formado em Economia pela Federal do Rio Grande do Sul (1984). Doutorou-se em Ciência Econômica na Unicamp (1993). É professor da Unicamp. Foco em Políticas Sociais e Economia do Trabalho. Participou da articulação de políticas sociais em governos do PT. Tem uma produção em pesquisa fora do comum. Por aí vai. “Parece que não ando mal de percepção”, pensei, “não era à toa que eu gostava tanto de ouvir ‘esse analista político aí'”.

O blog Ani Dabar chegou a fazer campanha pela candidatura do Pochmann em Campinas, num dos widgets, embora quem vos fala não vote, não more e jamais tenha morado em Campinas. Torcida acirrada. Chegou perto do segundo turno, mas não deu. Postei no Twitter: “já que Campinas vacilou, quero @MarcioPochmann para governador”. Aí começou nova torcida: para que fosse ele o candidato do PT ao governo do Estado de São Paulo, nas eleições de 2014. Mesmo com um lado soprando que seria relativamente improvável, confesso que tive uma firme esperança no bom olho do amado Lula: “Lula vai sacar, certeza, vai perceber que esse sujeito tem que ser candidato a governador, inclusive com boas chances de ganhar. Lula sabe em que ‘postes’ aposta, e esse é um poste bem luminoso.” Tempos depois daquele tuíte pós-resultados das eleições em Campinas, tomo o bom susto de ver que o Marcio Pochmann começava a seguir a conta deste blog no Twitter. Seguir de volta, claro, porque a conta dele eu já seguia fazia tempo. Foi uma surpresa, já não esperava esse follow back e, sinceramente, não vi nenhum bom motivo. Por isso, quando aconteceu, esperancei que podia ser um sinal de que realmente se estivesse cogitando o nome dele para candidato ao governo de São Paulo: “talvez tenha se lembrado do meu tuíte a respeito e esteja dando uma piscadela”, pensei. Outra decepção: também não foi mesmo desta vez. Mas um dia o Marcio Pochmann estará em algum cargo de liderança, no executivo, em tudo aquilo que depender da minha torcida.

Hoje tive a oportunidade de vê-lo ao vivo e a cores, num lançamento do livro O mito da grande classe média (Boitempo, 2014). Privilégio duplo, porque na mesa estava também André Singer, outra pessoa que tenho ouvido com o maior interesse. E foi especialmente bacana essa fala do Marcio Pochmann. (Tentei anotar algumas coisas, talvez em outro momento consiga resgatar um pouco, completando este post ou fazendo outro.)

André Singer Marcio Pochmann 10_06_2014

André Singer e Marcio Pochmann

Quais são os efeitos Pochmann? Primeiro este de agora. Um embasbacamento com o que esse ser humano é capaz de saber, entender, correlacionar e articular. Com a capacidade de trabalho, pesquisa, reflexão. Com a clareza de pensamento e expressão, sem afetação. É o tipo de pessoa que intuo que nos faria um tremendo bem na política. E acho mesmo uma sorte quando alguém assim se dispõe a entrar para a política. Aliás, é dele uma frase ótima, no contexto da crise internacional: “a política salvou o Brasil”. Não creio que se possa salvar o Brasil sem boas políticas. E de esquerda.

Outros efeitos são mais esquisitos e pessoais. Ultimamente, ouço o Marcio Pochmann e dá uns surtos de querer fazer Economia. Na Unicamp, de preferência. (Respiro fundo e espero o surto passar.) E teve o efeito de não me aguentar de contente de ter dado certo de ouvi-lo ao vivo no lançamento de hoje, e inclusive conseguir uma dedicatória num dos livros. Não sei se entendo o que escreveu, com essa letra danada aí  (“com abraço fraterno”, diz minha vidência para quase qualquer tipo de letra), mas quem liga?

Marcio Pochmann dedicatória

Sobre o livro O mito da grande classe média:

A economia política da mobilidade social recentemente retomada no Brasil aponta para duas questões especiais. A primeira se relaciona à tensão aberta em torno da abissal diferença de qualidade de vida entre ricos e pobres.

Desde a década de 2000, a inclusão social em massa interfere na base geral da prestação de serviços baratos pelos pobres aos ricos. Por dispor de enorme força de trabalho barata e expressiva para atender aos serviços familiares e pessoais, as elites brasileiras, que detêm uma qualidade de vida consagrada pelo consumo equivalente ao dos ricos nos países desenvolvidos, contam ainda com uma verdadeira rede de serviçais.

O salto na geração de ocupações formais reduziu sensivelmente o desemprego, sobretudo entre os pobres, tornando menos abundante a oferta de serviços baratos, o que implicou alguma transferência de renda privada das famílias ricas para os pobres. Na sequência, a elevação no padrão de consumo dos trabalhadores pobres impulsionada por políticas públicas inclusivas em áreas como educação, transporte e habitação gerou o desconforto da desmonopolização de oportunidades destinadas fundamentalmente aos segmentos de maior rendimento.

A segunda questão emerge do entendimento de que a sustentação do crescimento econômico com geração de emprego pela maior progressividade no gasto público se tornou mais decisiva do que os atributos individuais dos emergentes no processo recente de mobilidade social. Do saldo de mais de 21 milhões de novos postos de trabalho abertos durante a década de 2000, despontou o protagonismo do setor terciário (serviços e comércio) e a concentração das remunerações em até dois salários mínimos mensais.

Esse ambiente de forte geração de empregos com menor rendimento se mostrou funcional à absorção da população trabalhadora pertencente à base da pirâmide social. No quesito atribuição pessoal dos brasileiros emergentes, a migração do campo para a cidade perdeu importância, com maior expressão urbana e de escolaridade entre os que mais ascenderam no país.

O sucesso da retomada da mobilidade social proporcionada por reforço das políticas públicas tornou um mito a versão da grande classe média. Tal como nas economias desenvolvidas, o Brasil repete a possibilidade – cada vez mais distante do neoliberalismo em vigor no mundo – da ascensão e fortalecimento das classes trabalhadoras. Este é o desafio a ser explicado pelo presente livro.

O mito da grande classe média - Marcio Pochmann

  Contra-capa do livro, por Marilena Chauí.

Erguendo-se contra as simplificações neoliberais e pós-modernas acerca do capitalismo contemporâneo, este livro esclarece como e por que se propala mundo afora a ideia de “medianização” das sociedades e, no Brasil, a da existência de uma nova classe média.

Dois dos critérios centrais de que se dispunha tradicionalmente para determinar o pertencimento à classe média, isto é, o consumo de bens duráveis e serviços e o crédito bancário, se desfazem na materialidade real, uma vez que esses critérios, agora, alcançam a classe trabalhadora (e, sobretudo, os trabalhadores mais pobres). No entanto, ideologicamente esses critérios continuam aparecendo como definidores da classe média, contra todos os dados concretos que mostram de maneira inequívoca o surgimento de uma nova classe trabalhadora brasileira.

Livro de análise contra o senso comum, esta é também uma obra de combate político, atenta aos riscos do encobrimento da realidade social não apenas pelo imaginário neoliberal, mas também pela tradição autoritária da sociedade brasileira, que, avessa ao sentido democrático dos direitos, naturaliza e valoriza positivamente a divisão social como oposição entre o privilégio e a carência.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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