Visões


Transcrição de boa parte do capítulo “Visões”, do livro Memórias, sonhos e reflexões. Nesse capítulo, Jung recorda o que vivenciou internamente durante e depois de uma experiência de ter estado à beira da morte.



Planet Earth is blue and there's nothing I can do ~David Bowie~

Planet Earth is blue
and there’s nothing I can do.
~David Bowie~



VISÕES
Carl Gustav Jung

No início de 1944 fraturei um pé e logo depois tive um enfarte cardíaco. Durante a inconsciência, tive delírios e visões que provavelmente começaram quando, em perigo de morte, administraram-me oxigênio e cânfora. As imagens eram tão violentas que eu mesmo concluí que estava prestes a morrer. […] Eu tinha atingido o limite extremo e não sei se era sonho ou êxtase […]

Parecia-me estar muito alto no espaço cósmico. Muito ao longe, abaixo de mim, eu via o globo terrestre banhado por uma maravilhosa luz azul. […] Sabia que estava prestes a deixar a Terra.

[…] O espetáculo da Terra visto desta altura foi a experiência mais feérica e maravilhosa da minha vida.

[…] ocorreu-me algo estranho: tudo o que tinha sido até então se afastava de mim. Tudo que eu acreditava, desejava ou pensava, toda a fantasmagoria da existência terrestre se afastava de mim ou me era arrancada – processo extremamente doloroso. Entretanto, alguma coisa subsistia, porque me parecia então ter ao meu lado tudo o que vivera ou fizera, tudo o que tinha se desenrolado a minha volta. […] Eu era feito de minha história e tinha a certeza de que era bem eu. “Eu sou o feixe daquilo que se cumpriu e daquilo que foi.” Esta experiência me deu a impressão de uma extrema pobreza, mas ao mesmo tempo de uma extrema satisfação. Não tinha mais nada a querer nem a desejar; poder-se-ia dizer que eu era objetivo; era aquilo que tinha vivido. No princípio, dominava o sentimento de aniquilamento, de ser roubado ou despojado; depois, isso também desapareceu. Tudo parecia ter passado; o que restava era um fato consumado sem nenhuma referência ao que tinha sido antes. Nenhum pesar de que alguma coisa se perdesse ou fosse arrebatada. Ao contrário: eu tinha tudo que era e tinha apenas isso.

[Algumas outras visões são narradas, e Jung conta que elas se desvaneceram de repente, quando o processo de morte foi interrompido com sucesso pelo médico.]

Decepcionei-me profundamente, tudo parecia ter sido em vão. O doloroso processo de “desfolhamento” parecia ter sido inútil. […]

Na realidade, passaram-se ainda três semanas antes de que me decidisse a viver; não podia alimentar-me, tinha aversão pelos alimentos. O espetáculo da cidade e das montanhas que via do meu leito de enfermo parecia uma cortina pintada com furos negros ou uma folha de jornal rasgada com fotografias que nada me diziam. Decepcionado, pensava: “Agora é preciso voltar ‘para dentro das caixinhas!'” Parecia, com efeito, que atrás do horizonte cósmico haviam construído artificialmente um mundo de três dimensões no qual cada ser humano ocupava uma caixinha. E de agora em diante deveria de novo convencer-me que viver nesse mundo tinha algum valor! A vida e o mundo inteiro se me afiguravam uma prisão e era imensamente irritante pensar que encontraria tudo na mesma ordem.

Durante essas semanas o ritmo de minha vida foi estranho. Durante o dia sentia-me frequentemente deprimido, miserável e fraco e ousava com dificuldade fazer um movimento; melancolicamente pensava: “Agora preciso voltar a este mundo cinzento”. De tarde, adormecia e o sono durava até perto da meia-noite. Então acordava e ficava desperto, talvez uma hora, mas num estado muito particular. Ficava como num êxtase ou numa grande beatitude. Sentia-me pairando no espaço como que abrigado no meio do universo, num vazio imenso, embora pleno do maior sentimento de felicidade possível. Era a beatitude eterna; não se pode descrevê-la, é extraordinariamente maravilhosa, eu pensava.

Os que me cercavam também pareciam encantados. […] Eu próprio me encontrava nos Pardes Rimmonim*, o jardim das romãs, e aí se celebrava o casamento de Tipheret com Malchuth. Ou então era como se eu fosse o rabino Simão ben Yochai, cujas bodas eram celebradas no além. Era o casamento místico tal como aparecia nas representações da tradição cabalística. […] Eu não deixava de pensar: “É o jardim das romãs! É o casamento de Malchuth com Tipheret!” Não sei exatamente que papel eu desempenhava na celebração. No fundo, tratava-se de mim mesmo: eu era o casamento, e minha beatitude era a de um casamento feliz.

Pouco a pouco a visão do jardim das romãs se dissipou e se transformou. A essa visão se sucedeu “o casamento do cordeiro”, numa Jerusalém pomposamente ornamentada. Sou incapaz de descrever os pormenores. Eram inefáveis estados de beatitude com anjos e luzes. E eu próprio era “o casamento do cordeiro”. Isso também se dissipou e deu lugar a uma última visão. Eu seguia um largo vale até o fundo, aos pés de uma suave cadeia de colinas; o vale terminava num anfiteatro antigo que se situava, admiravelmente, na paisagem verdejante. E nesse teatro desenrolava-se o hieros gamos (matrimônio sagrado): dançarinos e dançarinas apareceram e, sobre um leito ornado de flores, Zeus-Pai do universo e Hera consumavam o hieros gamos, tal como está descrito na Ilíada.

Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado, noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens de toda a criação”. […] Comumente as visões duravam aproximadamente uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!” Esses estados interiores eram tão fantásticos que o mundo se me afigurava risível. […]

[Ele depois narra um outro momento da vida em que voltou a experimentar o que havia afirmado como a “objetividade” dessas visões. Foi depois da morte de sua mulher, num sonho que teve com ela.]

Postara-se a alguma distância e me olhava de frente. […] Seu rosto não estava alegre nem triste, mas expressava conhecimento e saber objetivos, sem a menor reação sentimental, além da perturbação dos afetos. Sabia que não era ela, mas uma imagem composta ou provocada por ela em minha intenção. […] A objetividade vivida nesse sonho e nas visões pertence à individuação que se cumpriu. Ela é desprendimento dos juízos de valor e do que nós designamos por liames afetivos. Em geral o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora, estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do outro, motivo pelo qual este e nós perdemos a liberdade. O conhecimento objetivo situa-se além dos intrincamentos afetivos, e parece ser o mistério central. Somente ele torna possível a verdadeira conjunctio.

[Então ele conta que, à experiência de quase morte, seguiu-se uma etapa de grande produtividade na escrita.] O conhecimento ou a intuição do fim de todas as coisas deram-me a coragem de procurar novas formas de expressão. Não tentei mais impor meu próprio ponto de vista, mas submetia-me ao fluir dos pensamentos. Os problemas apoderavam-se de mim, amadureciam e tomavam forma.

Minha doença teve ainda outras repercussões: elas consistiram, poder-se-ia dizer, numa aceitação do ser, num “sim” incondicional ao que é, sem objeções subjetivas, numa aceitação das condições da existência como as vejo e compreendo; aceitação do meu ser como ele é simplesmente. No início da doença, sentia que minha atitude anterior tinha sido um erro e que eu próprio era de qualquer forma responsável pelo acidente. Mas quando seguimos o caminho da individuação, quando vivemos nossa vida, é preciso também aceitar o erro, sem o qual a vida não será completa: nada nos garante – em nenhum instante – que não possamos cair em erro ou em perigo mortal. Pensamos talvez que haja um caminho seguro: ora, esse seria o caminho dos mortos. […] Quem segue o caminho seguro está como que morto.

Foi só depois da minha doença que compreendi o quanto é importante aceitar o destino. Porque assim há um eu que não recua quando surge o incompreensível. Um eu que resiste, que suporta a verdade e que está à altura do mundo e do destino. Então uma derrota pode ser ao mesmo tempo uma vitória. Nada se perturba, nem dentro, nem fora, porque nossa própria continuidade resistiu à torrente da vida e do tempo. Mas isso só acontece se não impedimos que o destino manifeste suas intenções.

Também compreendi que precisamos aceitar os pensamentos que se formam espontaneamente em nós como uma parte de nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor. As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempre existem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem. Porque a existência das ideias é mais importante do que seu julgamento subjetivo. Os julgamentos, entretanto, enquanto ideias existentes, não devem ser reprimidos, porque fazem parte da expressão da totalidade.

* Pardes Rimmonim é o título de um tratado cabalístico de Moisés Cordovero (séc. XVI). Tipheret (graça) [eu conhecia a palavra como significando “beleza”, mas ‘tá, entendo a afinidade entre as duas traduções] e Malkouth (reino), são, segundo a concepção cabalística, duas entre as dez esferas das manifestações divinas [isso tem a ver com a “árvore da vida”, ao que parece, com a elevação pelas esferas centrais dela até a esfera superior da “coroa”, Keter – Malkut e Tipheret são esferas do centro, só que tem Yesod no meio, aí estou tentando entender porque Yesod ficou de fora], nas quais Deus sai de sua obscuridade. Representam um princípio masculino e um princípio feminino dentro da divindade. [Não sei se esta nota é da tradutora ou do próprio Jung. Tem mais cara de ser da tradutora. Fiquei com preguiça de procurar essa informação no livro, depois de digitar tanta coisa.]
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos e reflexões. Trad. Dora Ferreira da Silva.
22a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. p. 253-259.
[Original em inglês de 1961].

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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