Entrevista de Haddad sobre Braços Abertos


Via Luis Nassif e  @CacoBrasil2

Entrevista de Fernando Haddad a Bruno Torturra, gravado em 16/05/2014, em resposta a críticas feitas por Bruno Torturra, no Facebook, sobre a autorização pela prefeitura para a instalação de cercas na região da Luz, como forma de delimitar o espaço para os usuários de crack. Mais sobre as circunstâncias da entrevista clicando aqui.






Trechos

O fluxo tinha mais de mil pessoas. Hoje o fluxo remanescente tem duzentas pessoas […] Quatrocentas pessoas estão no Programa Braços Abertos.

[Sobre o cercamento, depois de comentar que o fluxo remanescente vem sendo usado como escudo para crimes, por pessoas que não fazem parte daquela população, e que não se informou ou não se esclareceu suficientemente que a decisão foi pactuada com aquela população.] Explicamos: Vocês precisam de uma proteção, porque tudo o que as forças conservadoras querem aqui é um desastre: é um acidente, uma morte, … para justificar a repressão.

Lá tudo é pactuado com eles. Nós nunca tomamos uma decisão que não tenha sido pactuada com eles. Mas quem não está na mesa pactuando se sente tutor daquela população. E o maior inimigo que aquela população pode ter, de um lado, é o repressor, e de outro, é o tutor. Então são visões que tomam aquela comunidade como objeto de políticas públicas, e não como sujeito da sua própria superação. Tem uma visão muito equivocada, na minha opinião, sobre como aquelas pessoas podem efetivamente contribuir com a sua própria recuperação… e como querem contribuir. Porque, em determinado grau de envolvimento, todos querem a mesma coisa. Todos querem deixar aquela vida, da maneira como ela está organizada.

A Polícia Militar disse: “Nós não estamos conseguindo proteger essas pessoas. Pode aparecer aqui…” Sabe? Tudo o que a gente não quer é um cadáver na Luz. Um programa que está dando certo, tem visibilidade internacional, prestígio internacional. É um dos programas hoje mais conhecidos de combate à drogadição no mundo. São Paulo está na vanguarda do combate a esse tipo de problema. O que as pessoas querem: preservar o programa. Quando começa a haver risco de vida em função de incidentes que possam comprometer a imagem do programa, se tentam providências. Para evitar que isso aconteça. Por exemplo, evitar que aquelas pessoas sejam confundidas com ladrões, com trombadinhas, com assaltantes, com sequestradores… 

Vou dar outro exemplo: nós fechamos três bares que estavam sendo utilizados pelo tráfico. Outro episódio que foi contestado. O pessoal do conselho, da sociedade civil: “Por que a prefeitura mudou de política?” A prefeitura não mudou de política. A prefeitura tem uma filosofia. Essa filosofia envolve alguns conceitos básicos, que são novos. Primeiro: aquelas pessoas são sujeitos, não são objetos, nem da violência e nem da tutela. Nós não achamos que ninguém precisa falar por eles. Como ainda acontece. Ainda acontece que pessoas quererem representá-los. Eles não precisam de representantes. Essas pessoas foram capazes de sentar aqui nesta sala comigo e desmontar uma favela de duzentos barracos. Sem a interveniência de ninguém. Poder público de um lado e eles de outro. Se nós pudemos fazer isso com uma favela de duzentos barracos sem nenhum incidente, por que nós não podemos conduzir o processo com eles? Isso terá idas e vindas, terá percalços, terá equivocos? Óbvio. Mas, se for construído com eles, nós vamos chegar do outro lado do rio. Porque navegar nessas águas… Se fosse simples, não estaria a quinze anos o problema aí. Agora, é a primeira vez que se tem esperança de uma superação. Então vamos dar um pouco mais de crédito para aqueles que estão à frente do comando da operação.

Característica do Braços Abertos é que nós não temos um ponto de chegada. Nós temos um caminho que está sendo construído no dia a dia. Nós não temos, assim, “ó, nós vamos chegar ali, porque ali é o que vai resolver o problema”. Nós estamos, desde o começo, desde o primeiro dia, construindo semana a semana, mês a mês, e todo mês tem alguma novidade no programa. Agora nós vamos reinaugurar o Largo Coração de Jesus. […] Nós estamos abrindo agora frentes de trabalho novas. Já chegamos à conclusão de que as pessoas não podem permanecer nos mesmo hotéis indefinidamente, porque a evolução delas bate num teto e elas não conseguem superar aquilo se permanecerem ali. Então, muitas estão dizendo: “Olha, eu estou grato de estar aqui neste alojamento, mas este alojamento já não me permite superar a minha condição”. Essa construção, ela é procedimental. Eu não tenho um… “Onde você quer chegar com esse programa?” Eu falo: olha, eu sei o que eu quero dessas pessoas: que elas se assumam como sujeitos da sua própria recuperação e nos ajudem a construir essa política pública, da maneira como está acontecendo, passo a passo, etapa a etapa. O ponto de chegada nós vamos construir juntos. Não é que nós vamos “chegar” juntos. A minha convicção é de que essa relação contratual tem que ser mantida a todo custo. Porque a confiança que eles têm na prefeitura, e que não podem perder… eles não podem imaginar que a prefeitura não os tome como cidadãos e como capazes de ajudar a mudar a cidade para melhor. Nós não entendemos que eles são um problema. Nós entendemos que eles se veem numa situação… em que eles não querem permanecer, a maioria daquelas pessoas quer mudar de vida, e nós estamos construindo essa política junto com eles. E com a ajuda de especialistas. Obviamente que a academia está debruçada sobre isso.

O que pode fazer o Braços Abertos dar errado é uma quebra de confiança… [Assim em quase tudo nesta vida, né, prefeito?]  e produzida. Que não se quebra o lado nosso. Se se gerar naquela comunidade desconfiança das reais intenções da prefeitura, manifestas desde 15 de janeiro para cá… E que em nenhum momento se quebrou com o princípio da pactuação […] Se essa relação for quebrada, nós vamos perder para o que tem de pior na cidade. Aí não é o poder público nem eles que vão tomar a região. É um outro tipo de gente que durante dez anos mandou ali.

É um território muito vulnerável. É um território em que o olho gordo do crime…

Eu fico com medo da crueldade da direita, mas eu também fico com medo da ingenuidade da esquerda.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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