Lapis Philosophorum



bola-arco-iris

como bola colorida



PEDRA FILOSOFAL
António Gedeão

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956



Geração da Pedra Filosofal

“Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida.”

Foram estas palavras que, depois de apresentadas pela primeira vez em 1969 no programa de televisão “Zip-Zip”, pela voz de Manuel Freire marcaram uma geração que, reprimida por uma ditadura fascista e atormentada por uma guerra colonial sem fim à vista, se encontrava ávida de liberdade em que o sonho se afirmava como o único caminho. Desde então, o poema “Pedra Filosofal” tornou-se uma bandeira de luta e de crítica, fazendo crer que o sonho comanda a vida. Toda a simbologia deste poema numa fase tão conturbada da história recente contribuiu ainda mais para adensar a aura que o transformou num grito de revolta e sofrimento mas ao mesmo tempo de afirmação e esperança. (Portugal, CITI)


Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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