Quem é essa mulher?


50 anos de um golpe que destruiu muitos dos melhores brasileiros, deu poder aos piores, abortou projetos de justiça social no Brasil, lançando o país em décadas sangrentas e sombrias. Nunca esquecer. Nem que fosse só porque até hoje sofremos tristes consequências daquela ditadura.



ANGÉLICA
Chico Buarque e Miltinho

quem é essa mulher
que canta sempre esse estribilho?

só queria embalar meu filho

que mora na escuridão do mar

quem é essa mulher

que canta sempre esse lamento?

só queria lembrar o tormento

que fez meu filho suspirar

quem é essa mulher

que canta sempre o mesmo arranjo?

só queria agasalhar meu anjo

e deixar seu corpo descansar

quem é essa mulher

que canta como dobra um sino?

queria cantar por meu menino

que ele já não pode mais cantar

quem é essa mulher

que canta sempre esse estribilho?

só queria embalar meu filho

que mora na escuridão do mar


Em junho de 1971, Stuart Edgart Angel Jones, de 25 anos, morreu em consequência de torturas. O corpo, parece que ainda não se sabe onde foi parar. Principal hipótese: teria sido lançado de helicóptero ao mar. Das circunstâncias da morte, sabe-se porque alguém preso no mesmo lugar viu pela janela da cela as cenas finais da tortura e conseguiu escrever para a mãe de Stuart, Zuleika Angel Jones, relatando: havia sido esfolado e envenenado por gás carbônico, arrastado pelo pátio interno do quartel com a boca no escapamento de um jipe militar. Desde então, Zuzu Angel, que era uma estilista com boa projeção nacional e internacional, passou a tentar recuperar o corpo do filho e a denunciar incansavelmente o crime dentro e fora do Brasil. Em abril de 1976, acabou ela também assassinada pela ditadura. Pareceria ter sido um acidente de carro, mas ela havia deixado um aviso para ser publicado caso algo lhe acontecesse: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Já restaurada a democracia, foram publicados depoimentos de duas testemunhas oculares do acidente, que afirmavam que o carro de Zuzu Angel havia sido fechado por outro e jogado fora da pista. A canção “Angélica”, composta em 1977 e lançada no álbum Almanaque em 1981, foi feita em homenagem a Zuzu Angel. Essa mulher é ela.

Quando Zuzu Angel morreu, eu, que já nasci dentro da ditadura, ainda era criança. Mas hoje, que sei, sinto que não há como simplesmente varrer para debaixo do tapete tanto abuso de poder contra o Brasil. Os responsáveis pela morte dela também foram os que impediram aqueles que tinham capacidade para isso de fazer do país onde eu vivi toda a minha vida um país mais humano, mais justo, melhor. O que fizeram à Zuzu, ao Stuart e a muitos outros como a eles, fizeram, de uma forma também muito grave, a mim. Essa mulher também sou eu.

“Você tem o direito de perdoar alguém pelo que fez a você, mas não tem o direito de perdoar pelo que fez aos outros”, diz Jane Elliott. Pelo que aquela ditadura que começou em 1964 fez com o meu país, mesmo que eu quisesse (e nem quero), eu não tenho o direito de perdoar. Pelo que fez às Zuzus e aos Stuarts que estão mortos, ninguém, mesmo que queira, tem o direito de perdoar. E é mesmo uma questão de Direito: de Direito Internacional. Nós que lembramos que usurparam o poder de alguém que chegou à Presidência por vias democráticas e que (hoje se sabe) contava com ampla aprovação da população; nós que lembramos que essa usurpação levou a tanta tortura, sofrimento e morte; nós que queremos a devida e justa punição dos responsáveis, direta ou indiretamente, por crimes de lesa-humanidade, que não prescrevem: essa mulher somos nós.

 

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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