Sobre informações não confiáveis

Joao-Goulart

Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da PUC-SP, mostra como pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas da derrubada de João Goulart, em 1964, se contrapõem à tendenciosa imagem de presidente fraco e isolado, divulgada pela imprensa da época. Nas pesquisas, Goulart tinha altos índices de aprovação

Na Revista Brasileiros, 28/02/2014

QUANDO AS INFORMAÇÕES NÃO SÃO CONFIÁVEIS

Luiza Villaméa

Criado em maio de 1942, o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) está tão vinculado ao cotidiano brasileiro que sua sigla entrou para os dicionários como sinônimo de pesquisa. No decorrer de décadas, o Ibope acabou montando um retrato do Brasil em múltiplas facetas, com levantamentos que vão das mudanças de hábito de consumo a preferências políticas. Doado para a Unicamp (Universidade de Campinas), esse acervo hoje é fonte preciosa para estudiosos de diferentes áreas. São 297 metros lineares de documentos, que incluem mais de 56 mil relatórios de pesquisa, de onde o historiador Luiz Antonio Dias garimpou 500 páginas de levantamentos políticos feitos nos anos 1960, durante o tumultuado período que culminou com o golpe de 1964.
Ao cruzar os resultados das pesquisas do Ibope com editoriais dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicados na mesma época, o historiador concluiu que houve uma sistemática campanha para apresentar o presidente João Goulart como um governante fraco, isolado da população e vulnerável à influência comunista: “A Folha gastou muito papel e tinta para propagar a ameaça comunista no Brasil. O Estadão também. O surpreendente é que, apesar de toda a ação da imprensa, Goulart continuava com um alto apoio na população.” Para o historiador, a verdade sobre o presidente deposto ainda está por ser reestabelecida: “Goulart passou para a História como um fraco que não reagiu ao golpe. Essa visão de debilidade e isolamento foi criada e, em certa medida, ficou. É uma visão equivocada do momento”.
Doutor em História, com a tese A Geração Cara-pintada: a Participação dos Jovens no Processo de Impeachment, Dias conquistou o título de mestre, em 1993, com a dissertação O Poder da Imprensa e a Imprensa do Poder: a Folha de S.Paulo e o Golpe de 1964. Ao mapear as pesquisas do Ibope arquivadas na Unicamp, ele retomou e ampliou o tema do mestrado. Aos 47 anos, ele é professor da Universidade de Santo Amaro e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde chefia o Departamento de História. “Gosto mesmo é de dar aulas. A chefia do departamento é um piano que os mais antigos não querem carregar.”
Luiz Antonio Dias

ANÁLISE
O historiador Luiz Antonio Dias, que mapeou pesquisas e editoriais da década de 1960

Brasileiros – Pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe de 1964 só agora começam a vir a público. Por quê?

Dias – Esse material foi doado pelo Ibope ao Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, em 2003. Formam o Fundo Ibope, com uma infinidade de levantamentos, do consumo de sabão em pó a pesquisas políticas. Comecei a analisar o material da década de 1960 porque, em meu mestrado, defendido em 1993, trabalho no sentido de mostrar que a Folha de S.Paulo teve um papel importante para formar uma opinião pública favorável ao golpe de 1964. E minhas novas pesquisas indicam que, no mestrado, eu estava errado. Não havia uma opinião pública favorável ao golpe. Ao mapear o material do Ibope, verifiquei que Goulart tinha aprovação popular não só em levantamento feito em São Paulo às vésperas do golpe e não divulgado, como em outros anteriores, realizados em 16 cidades, entre junho e julho de 1963.

Brasileiros – Sabe-se por que a pesquisa de março de 1964 não chegou a ser divulgada?

Dias – Tenho duas hipóteses. A primeira delas é que não deu tempo de tabular os dados, pois as entrevistas foram feitas do dia 20 a 30 de março e o golpe vem na sequência, em 1º de abril. Essa é uma questão técnica. A questão política é que seria um contrassenso divulgar a pesquisa naquele momento. Ela mostra que Goulart tinha amplo apoio da população, como a pesquisa de 1963 já indicava.

Brasileiros – Como era exatamente  a situação?

Dias – A pesquisa feita na semana anterior ao golpe, em São Paulo, aponta que 72% da população aprovavam o governo Goulart. Entre as camadas mais pobres, o índice era de 86%. Essa foi a única pesquisa que encontrei com identificação do contratante, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Seu resultado é um contraponto àquilo que a imprensa estava divulgando, de que Goulart era um presidente fraco e ligado ao comunismo.  E as pessoas foram entrevistadas depois do Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, que marca a guinada de Goulart para a esquerda. Há uma pergunta se as medidas anunciadas no comício seriam demagógicas, para aumentar o prestígio do presidente. Em São Paulo, só 10% achavam que era assim.

Brasileiros – E as pesquisas nacionais?

Dias – O que mais encontrei foram questões sobre comunismo. Outro tema recorrente é o das reformas de base, sobretudo a reforma agrária. Há também pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 1965, com candidaturas que naquele momento eram viáveis, como as de Juscelino Kubitschek, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Algumas dessas pesquisas perguntam também sobre a possibilidade de Goulart ser candidato, o que era uma situação complicada. Na época, não havia reeleição. Ele tinha sido eleito vice, assumira a Presidência com a renúncia de Jânio Quadros, e a oposição dizia que se fosse mantido no cargo, configuraria reeleição. O interessante é que algumas pesquisas mostram que a população é favorável, inclusive, à mudança da Constituição para que Goulart pudesse ser candidato.

Brasileiros – E em relação ao comunismo?

Dias – A primeira pesquisa que mapeei sobre comunismo foi de janeiro de 1961, vinculada ao regime cubano. A pergunta é: “Em sua opinião, o governo cubano, representa uma ameaça para o resto do continente?”. Há uma divisão. Praticamente um terço acha que sim, um terço acha que não e um terço não sabia, não opinava. Outras pesquisas mostram que grande parte da população era contra o comunismo, mas, pelo menos até 1963, não via o comunismo como um risco iminente para o Brasil.

Brasileiros – Em São Paulo é diferente?

Dias – Não tem uma alteração significativa. Mas em outra pesquisa, entre os dias 1º e 8 de fevereiro de 1964, realizada em São Paulo, com 500 pessoas, na qual perguntavam se o comunismo no Brasil estava aumentando, 54% achavam que estava aumentando, 16% que estava diminuindo, 2% que estava igual e 28% não souberam responder. Entre as classes inferiores, 40% não souberam responder. Entendo que não souberam responder porque não conseguiam visualizar o medo, o fantasma do comunismo. Mas também é nítido que, apesar de serem perguntas distintas, quando comparadas às pesquisas de 1961, as pessoas estavam mais preocupadas com o comunismo. E a imprensa tem um papel fundamental na criação desse medo. Eu trabalhei com a imprensa e são recorrentes as matérias e cadernos especiais sobre o comunismo ou ligando os comunistas ao governo Goulart. Na segunda metade de 1963, isso vai se intensificando nos jornais que analisei, a Folha e o Estadão.

Brasileiros – Por que a opção pela Folha e pelo Estadão?

Dias – No mestrado, fiz uma análise do período da renúncia de Jânio Quadros até 1968, para mostrar a participação da Folha no golpe e o crescimento econômico que o jornal consegue posteriormente. No doutorado, pesquisei outro tema, a participação dos cara-pintadas no impeachment do presidente Fernando Collor. Mais recentemente, voltei a analisar a Folha e também o Estadão, para problematizar a força dos meios de comunicação ao criar a imagem de alguém.

Brasileiros – A Folha teve participação efetiva no golpe?

Dias – Teve. A Folha gastou muito papel e tinta para propagar a ameaça comunista no Brasil. OEstadão também. Além da atuação nas páginas do jornal, surgiram, ainda na década de 1990, informações sobre as vinculações políticas de Octavio Frias, o dono do jornal, com o IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que eram grupos golpistas. Ele participava das reuniões, como também os Mesquitas (donos de o Estadão). E existia, desde os anos 1980, um boato de que os carros da Folha eram utilizadas para transportar presos políticos. Esse ano, na Comissão Nacional da Verdade surgiram provas testemunhais de que os carros do jornal foram, de fato, usados para transportar presos. Mas, ao comparar os dois jornais, percebi que o Estadão foi muito mais contundente ao relacionar os comunistas com o governo Goulart.

Brasileiros – Qual o impacto disso?

Dias – O surpreendente é que, apesar de toda a ação da imprensa, Goulart continuava com um alto apoio na população. Em relação aos comunistas, aparece um dado interessante. Quando se perguntava se as forças de esquerda eram compostas por comunistas, 49% dos entrevistados achavam que não necessariamente. Pelo menos até agora, não encontrei nenhuma pesquisa questionando se Goulart era ou não comunista. Mesmo entre os militares é frequente a fala de que Goulart não era comunista, como indicam depoimentos a um projeto da Biblioteca do Exército e ao CPDOC (o centro de documentação e pesquisa da Fundação Getúlio Vargas). Nesse aspecto, oEstadão é mais crítico a Goulart. A Folha coloca que presidente não era comunista. Diz que ele era fraco e poderia ser manipulado por comunistas.

Brasileiros – Há, então, uma contradição com o resultado das pesquisas.

Dias – Existem aí duas questões. A primeira delas é a imagem que foi construída de Goulart.  Ele não teria a mesma capacidade política, a mesma habilidade que Getúlio Vargas tinha. Não era um consenso, mas grande parte dos estudos aponta para esse caminho, sobretudo pelo fato de Goulart não ter resistido ao golpe. Junto com o entendimento de que ele não resiste porque é fraco, há a ideia de que não tem o apoio da esquerda, da direita e nem da população. Essa imagem foi se consolidando. Alguns historiadores, alguns jornalistas, contribuem para isso.

Brasileiros – Por exemplo?

Dias – O jornalista Elio Gaspari, quando escreve seus livros sobre a ditadura. No primeiro deles, A Ditadura Envergonhada, ele chama Goulart de “um pacato vacilante”. Diz que Goulart “não era um covarde, mas se habituara a contornar os caminhos da coragem”. Sempre estranhei o fato de grande parte dos historiadores e analistas apontar Goulart como vacilante e, ao mesmo tempo, afirmar que ele planejava um golpe para continuar na Presidência. Para mim, isso sempre foi uma incoerência.

Brasileiros – Elio Gaspari também desenvolve esse raciocínio?

Dias – No mesmo livro, ele consegue dizer que Goulart era um pacato vacilante e que estava articulando para continuar no poder. Enfim, a visão que se tem de Goulart é muito estereotipada, que ele gostava de mulheres, de bebidas e de cavalos. Gaspari reforça essa imagem negativa ao dizer que Goulart era “um dos mais despreparados e primitivos governantes da história nacional. Seus prazeres estavam na trama política e em pernas, de cavalos ou de coristas”. Outros autores adotaram a mesma linha, como o historiador Jorge Ferreira indica no livro João Goulart – Uma Biografia. Por esse ângulo, Goulart não via a hora de acabar uma Presidência que tinha caído no colo dele por acaso. No entanto, tomando como corretas as pesquisas do Ibope, ele tinha grande aprovação popular.

Brasileiros – O que a imprensa divulgava naqueles dias?

Dias – Em março, tanto a Folha quanto o Estadão lançaram vários editoriais dizendo que Goulart havia se distanciado demais da população. O Estadão tem um editorial que fala do divórcio da opinião pública na mesma época em que uma pesquisa do Ibope mostra que Goulart tem um amplo apoio. Essa visão de debilidade e isolamento foi criada e, em certa medida, ficou. Tem implicações. É uma visão equivocada do momento. Goulart passou para a História como um fraco que não reagiu ao golpe. Hoje, muito se fala de que ele deveria ter reagido porque tivemos mais de 20 anos de ditadura. De qualquer forma, não acredito que seria tão fácil resistir ao golpe. No Chile, em 1973, o presidente Salvador Allende resistiu e isso não impediu que o Palácio de La Moneda fosse bombardeado, Allende morresse e o general Augusto Pinochet tomasse o poder.

Brasileiros – Goulart tinha informações precisas sobre o apoio americano aos militares que lideraram o golpe?

Dias – Não só com relação aos golpistas, mas sobre o apoio no período anterior. O livro de Jorge Ferreira traz documentos e testemunhos indicando que Goulart sabia o que estava sendo arquitetado e a dimensão da estrutura golpista. Na época, internamente se falava muito de ilhas de conspiração desarticuladas. Essa perspectiva fica muito clara em depoimentos feitos por militares ao general Aricildes Motta, para o projeto História Oral do Exército. Externamente, porém, há um trabalho muito bem elaborado, com muito dinheiro entrando no Brasil através do IPES e do IBAD.

Brasileiros – Como?

Dias – O IPES e o IBAD eram duas entidades da sociedade civil criadas, em tese, para defender e propagar a democracia. Mas o modelo de democracia que defendiam não era, evidentemente, o que exercia o governo Goulart. Na prática, o IPES e o IBAD lançavam muitas cartilhas sobre o comunismo. 
No livro 1964: A Conquista do Estado, o historiador René Dreifuss traz muitos documentos sobre essas entidades. Calcula que 2,3 milhões de cartilhas foram distribuídas no Brasil, para alertar sobre o perigo do comunismo.

Brasileiros – Filmes também foram feitos.

Dias – Muitos filmes eleitorais, dizendo: “Não vote nos candidatos comunistas”. Há documentos mostrando que os recursos desses institutos chegavam para deputados e senadores de oposição ao governo Goulart e, sobretudo para os governadores Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto, em Minas Gerais. Não teriam investido tanto dinheiro nas eleições de 1962 se já estivessem planejando um golpe para 1964. Acredito que esses grupos agiam em duas frentes. Uma delas legal, os governos estaduais, o Congresso, os meios de comunicação e a sociedade civil. E havia também o plano B, diante da possibilidade de um acirramento das tensões. A partir de outubro de 1963, as diferenças se acirram. É quando Goulart começa a sair de uma posição mais conciliadora. Então, o que deduzo é que se ele reagisse ao golpe, sobretudo com o apoio do III Exército, do Rio Grande do Sul, existiria a possibilidade de uma guerra civil, com uma possível intervenção americana.

Brasileiros – O Departamento de Estado americano já liberou documentos sobre a operação Brother Sam, o envio de uma força naval no dia 31 de março, quando o general Olímpio Mourão Filho saiu com suas tropas de Juiz de Fora, precipitando o movimento.

Dias – O golpe estava agendado para abril. Uma das possibilidades seria o dia 21 de abril, data da morte de Tiradentes, saindo de Minas, apoiado por Magalhães Pinto. O 21 de abril é emblemático porque a ideia era salvar o País do inimigo externo. O medo não era só do Goulart. O medo era também dos soviéticos, da possibilidade de que o Brasil se tornasse uma nação tutelada pelos soviéticos, como Cuba. Não podemos esquecer o contexto. As questões conjunturais eram internas e também externas. O interessante é que, no mesmo dia em que Mourão decidiu sair de Juiz de Fora, a Folha chegou às bancas com um caderno especial, de 44 páginas, chamado 64 – Brasil Continua.

Brasileiros – Qual a sua conclusão?

Dias – É como se a Folha tivesse um cronograma e decidisse preparar a população. A mensagem, como um todo, era: “Não importa o que ocorra, o Brasil continua. Não importa o que ocorra, continue fazendo a sua parte e trabalhando, lutando pela Constituição, pela democracia”. É como se nascesse um novo Brasil em 1964. E há anúncios de muitas empresas, inclusive da Ultragaz, “chama da paz e da esperança”, enviando a “milhões de lares desse fabuloso país nossa mensagem de confiança e nossa certeza: 64 – Brasil continua”. O presidente da Ultragaz era Henning Albert Boilesen, que, nos anos 1970, participou de sessões de tortura na sede da Operação Bandeirantes e acabou sendo justiçado por grupos de esquerda.

Brasileiros – Antes do golpe, como era a cobertura?

Dias – Tem um editorial da Folha do dia 10 de março, Queremismo, Não, uma referência ao movimento pela permanência de Getúlio Vargas na Presidência, em 1945. Nesse editorial, o jornal diz que Goulart precisava desestimular o “impatriótico” movimento de setores da esquerda ligados a ele. Se não fizesse isso, as instituições correriam sérios riscos.

Brasileiros – Como foi a reação ao comício na Central do Brasil?

Dias – No dia do comício, 13 de março, teve o editorial Comício-provocação. Em um trecho diz:  “É duvidoso que compareçam aqueles que honesta e seriamente se preocupam com os verdadeiros problemas nacionais”. Depois, que o comício “lembra as maciças concentrações populares organizadas e dirigidas para sustentar ditadores ou aspirantes a tal”.

Brasileiros –E depois do comício?

Dias – No dia 14, o editorial chama-se Para Quê?: “Depois de uma longa, sensacionalista e até por vezes ridícula preparação psicológica, realizou-se sem maiores incidentes, como era de esperar, o comício que as esquerdas promoveram na Guanabara. (…) O comício de ontem, se não foi um comício de pré-ditadura, terá sido um comício de lançamento de um espúrio movimento de reeleição do próprio sr. João Goulart”. E aí tem uma parte que a Folha, nesse momento, é muito mais radical do que ela tinha sido até então: “Resta saber se as Forças Armadas, peça fundamental para qualquer mudança deste tipo, preferirão ficar com o sr. João Goulart traindo a Constituição e a pátria ou permanecer fiéis àquilo que devem defender, isso é, a Constituição, a pátria e as instituições”. Ou seja, convoca os militares a tomar uma postura.

Brasileiros – O Estadão também convocou?

Dias – Estadão já convocava antes. Desde outubro, o jornal adotou posições muito duras, convocando os militares a intervir, por causa da revolta dos sargentos em setembro de 1963, em Brasília. Em 5 de março do ano seguinte, publicou um editorial chamado O estado de revolução em Pernambuco. Nele, fala que Pernambuco está um caos, com a cidade de Recife “ocupada por elementos de procedência suspeita, ostensivamente armados”. No interior, diz o editorial, o panorama não era diferente, “sendo total a paralisação na área da agroindústria, com os engenhos cercados por piquetes de grevistas”. Ao dizer que Pernambuco transformou-se um Estado sem lei, o jornal culpa Goulart.

Brasileiros – Não culpa o governador Miguel Arraes?

Dias – O Arraes também, mas, Goulart, para o jornal, fomentaria as greves. A culpa seria dele por ter uma ligação muito forte com os trabalhadores desde os tempos de ministro do Trabalho. No dia 8 de março, no editorial A embaixada russa e a revolução, o jornal falou de encontros a portas fechadas entre Arraes e representantes da embaixada russa. Na véspera, tinha estampado que “interessa à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a reeleição de Goulart no pleito de 1965”.  Não há nenhuma prova, nenhum documento, mas o jornal disse que a fonte era irrefutável. De qualquer forma, é importante porque no momento de acirramento, vinculava a reeleição de Goulart aos interesses soviéticos.

Brasileiros – O que ocorreu logo depois do dia 13?

Dias – Tem o editorial O presidente fora da lei. O jornal alegou que não foi solicitada ao governador Carlos Lacerda autorização para fazer o comício. Nesse editorial, o jornal disse que: “É, evidentemente, a última etapa do movimento subversivo que, já agora, não há dúvidas nenhumas, era chefiado sem disfarces pelo homem de São Borja. E é também o momento de as Forças Armadas definirem, finalmente, a sua atitude ambígua ante a sistemática destruição do regime pelo sr. João Goulart, apoiado nos comunistas”. Então, aqui o Estado mais uma vez falou da necessidade de os militares intervirem. Na sequência, depois do comício, houve uma sucessão de fatos, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo.

presidente fora da lei

PARCIALIDADE Editoriais publicados no dia do comício da Central do Brasil citam concentrações para sustentar ditaduras e ataque à Constituição

Brasileiros – Qual a importância da marcha?

Dias – Foi uma reação ao comício. O Estadão, em 19 de março, convocou a população para a marcha. O editorial acusou Goulart de ter se formado na ditadura Vargas e avisou que as reformas não seriam apoiadas por aqueles que defendiam a democracia. No dia 20 de março, o editorialContra a mazorca pela civilização discorre sobre uma reunião de governadores, em São Paulo, para “coordenar os vários movimentos que se estão esboçando no País em defesa da Constituição ameaçada”. Aliás, as esposas de vários políticos participaram da marcha.

Brasileiros – Leonor de Barros estava à frente. O governador, Adhemar de Barros, sobrevoou a marcha de helicóptero.

Dias – Ela era meio que a primeira-dama da marcha. A esposa de Ney Braga, governador do Paraná, também participou. Essas primeiras-damas eram vinculadas ao Camde (Campanha da Mulher pela Democracia, movimento financiado pelo IPES, cujas integrantes eram conhecidas como candocas, pela aproximação com a igreja católica mais conservadora). No dia 21, o editorial O paulista e a nação em perigo falou que a multidão, dessa vez composta de “brasileiros profundamente conscientes de seus deveres e obrigações”, tinha saído às ruas para defender a democracia. Dias mais tarde, mais referência à Revolução Constitucionalista de 1932, contra Vargas. No editorial São Paulo repete 32, publicado em 1º de abril, o jornal afirmou que havia no Estado a mesma mobilização para levantar-se em defesa da Constituição registrada três décadas antes.

Brasileiros – Como foi a abordagem da Folha?

Dias – Como o Estadão, a Folha teve uma abordagem favorável à marcha. No dia 19, o editorial “Impeachment”Não começa criticando Waldir Pires, o consultor-geral da República, “segundo o qual se o Congresso decretar o ‘impeachment’ do chefe de governo o povo revogará, não são leviandades como essa que aconselham o Parlamento a deixar de lado qualquer ideia de promover a medida extrema. O impedimento não deve ser cogitado por numerosas outras razões, muito mais sérias e entre elas a de que ele, no momento, apenas serviria aos interesses dos que querem tumultuar o país e criar clima para a subversão”. Na véspera da marcha, a Folha divulgou um apelo da FIESP para que os industriais facilitassem a presença de seus empregados na passeata. Pede também  para que os empresários compareçam com suas famílias.

Brasileiros – E depois da marcha?

Dias – Dois dias depois, o jornal descreveu quem esteve nas ruas: “Poucas vezes ter-se-á visto no Brasil tão grande multidão na rua, para exprimir em ordem um ponto de vista comum, um sentimento que é de todos, como a que ontem encheu o centro da cidade de São Paulo, na ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’. Ali estava o povo mesmo, o povo, povo, constituído pela reunião de todos os grupos que trabalham pela grandeza da pátria”.

Brasileiros – Os jornais influenciaram também os militares?

Dias – A imprensa não levou os generais a colocarem as tropas nas ruas. Mas deu aos militares o respaldo para fazer isso, como se toda a população tivesse pedido. Depois do golpe, no dia 24 de abril, a Folha falou em abrir mão de direitos, no editorial O Sacrifício Necessário: “Nossas palavras dirigem-se hoje de maneira muito especial a todos aqueles que entendem que, para a redenção da pátria, se torna preciso dar mais do que trabalho de todos os dias e a confiança. Dirigem-se aos que se acham dispostos ao sacrifício de interesses, de bens, de direitos para que a não ressurja quanto antes plenamente democratizada”. Ou seja, conclama as pessoas a abrirem mão de seus direitos para garantir a democracia. No período imediatamente anterior, mesmo sem nenhuma proposta concreta de reforma da Constituição, o jornal dizia que Goulart estava atropelando a lei.

Brasileiros – Não se pode então considerar que o golpe foi uma ação puramente militar.

Dias – São as mudanças da História. Até a década de 1990, a expressão era golpe militar de 1964, sem responsabilizar nenhuma parcela da sociedade civil.  A partir do ano 2000, sobretudo nas publicações lançadas em 2004, a expressão se altera. Fala-se então em golpe civil-militar, porque um grupo da sociedade civil, entre eles os empresários e a imprensa, apoiou os militares.  É preciso chamar para o banco dos réus da História os donos dos veículos de comunicação, os empresários, a FIESP, para tomar depoimento sobre o que fizeram, por que fizeram e como fizeram.

Brasileiros – Esse é justamente o papel das comissões da verdade.

Dias – Tem-se questionado muito as comissões da verdade, por requentarem informações que os historiadores já tinham. Isso também ocorre, mas as comissões são importantes porque trazem à tona a história recente do País. Há uma série de episódios mal contados nos livros didáticos. As escolas vêm reforçando ideias equivocadas. 
Daí a importância de investigar a morte de Goulart. É como exumar um pouco da memória. Não acho muito provável comprovar a causa de sua morte, mas, se isso acontecer, a verdade histórica será restabelecida. A partir daí, pode-se até avançar, punir os culpados, embora pela Lei da Anistia estejam todos perdoados.

Brasileiros – E se o resultado das perícias for negativo?

Dias – Continuará a lenda de que ele foi morto, mas não deu para provar. De qualquer forma, o fato de seu corpo ter sido recebido com honras de chefe de Estado em Brasília é uma contribuição para começar a se resgatar a história de Goulart. Como ficou a versão de que ele fugiu, é como se ele tivesse fugido da História. Novos documentos, novas perspectivas mostram que não foi exatamente uma fuga. Foi uma saída estratégica, para evitar um derramamento de sangue.

Brasileiros – Entre as pesquisas que encontrou no acervo do Ibope, há alguma feita depois do golpe?

Dias – Há uma pesquisa feita na Guanabara, no começo de fevereiro de 1965, sobre o governo Castelo Branco. O golpe não tinha completado nem um ano ainda. Pelo resultado, 45% dos entrevistados estavam satisfeitos com o governo, enquanto 46% se declararam insatisfeitos. A avaliação de Goulart, quando ele caiu, era muito melhor.

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