Hoje é o dia deles


Fernando Pessoa e heterônimos


No blog da Companhia, 08/03/2014
Via @autrandourado

Como definiu — de forma lapidar — o poeta Marcelo Noah em sua página no facebook, hoje é uma espécie de Bloomsday lusófono. “É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um dia. Foi precisamente o que ocorreu em Lisboa a 8 de março de 1914”, escreveu o grande crítico George Steiner, acostumado a papas-finas como Conrad, Nabokov e Beckett (autores que, se não criaram heterônimos, iriam se reinventar em outros idiomas). Assim como o dia joyceano, celebrado em diversos quadrantes do planeta em 16 de junho — quando transcorre a ação de Ulysses —, hoje é uma data de regozijo, orgulho e lembrança para os leitores que formam essa pátria chamada língua portuguesa. Pois completa-se um século que Fernando Pessoa concebeu sua constelação de poetas — Alberto CaeiroRicardo Reis e Álvaro de Campos —, todos com vozes, dicções, personalidades e (perdão pelo português) approaches diversos entre si. Uma vitória titânica da criação poética sem qualquer similar em outras culturas literárias.

Fique agora com uma nanoantologia das criações de Pessoa:

(De Álvaro de Campos)
Chove muito, chove excessivamente…
Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.

Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu “ah nesse tempo eu era mais feliz”
Ou pensarei “ah, que tempo triste foi aquele”!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…

(De Alberto Caeiro)
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia…
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam…

(De Ricardo Reis)
Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.

Na dura mão aperta
Com um tacto apertado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra coisa que a palma.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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