Da raiva


rolezinho no chopim


Vou confessar uma coisa que eu estava pensando-sentindo ontem, vendo as fotos da galera dos rolezinhos: “Que gatos e gatas, não?” “Puxa, eles capricharam em se produzir para ir passear nesses shoppings vampirescos horrorosos. Devem ter colocado as melhores roupas.” E ver a rapaziada naquela belezura produzida e entusiástica de adolescência, batendo em retirada de cabeça baixa e jeitão contrariado, no sentido oposto do policial com cacetete… Nossa, no lugar deles eu ia me sentir um lixo. O fato é que eu estava sentindo raiva em estado mais puro. Essa é a confissão. E uma raiva inconformada com a incongruência, porque eles estavam bonitos e vitais, e shoppings são coisas feias e mortas, nas quais a gente sempre se sente mal mesmo. Eles deviam não ter porra de opção nenhuma de diversão para poderem achar que passear naqueles não-lugares era coisa interessante. Como todos nós, aliás, né? Precisaram nos privar quase totalmente dos espaços agradáveis e da rua para tentar nos vender que shoppings podem ter alguma graça. Mas se a coisa os entusiasmava (porque adolescente se entusiasma com tudo mesmo) e queriam dar o melhor da sua boniteza para passear naquelas deformidades urbanas de shoppings, não era certo ninguém tratá-los mal. Raiva e mais raiva. Sinto, se você é das pessoas que se chocam quando alguém diz que está com raiva. É que não dá para dizer que é indignação, nem revolta, nem outra coisa que soe mais polida e civilizada, porque é raiva daquela visceral, daquela que a gente sente que seria capaz de arrancar a orelha de alguém no dente. Agora, lendo o texto abaixo, mais raiva ainda. Não resolve nada, eu sei, mas me dá é uma raiva danada mesmo.


rolezinho no chopim 02


ETNOGRAFIA DO ROLEZINHO

No blog da Rosana Pinheiro Machado, 30/12/2013
Via @andrejcaetano

Em 2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas. Eles contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas as possibilidades em nossos papers). Havia uma agência (no sentido de prazer de Appadurai) impressionante nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping. Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “Não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas. Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando eu mostrei o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando a gente vê a figura toda montada, marca estampada, já vê que é negão favelado”. Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão, “pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina  desafiava o seu destino: “kiido papai noel: eu me comportei, eu passei de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir material escolar e bicicleta!

Eu tenho ficado quieta nesse caso do rolezinho porque este talvez seja o assunto que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não há uma grande diferença do rolezinho organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), eu vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras  que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas medias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.

Eu estou acompanhando os rolezinhos e sinto certo prazer em ver aquela apropriação. Mas entre apropriação e resistência há uma abismo significativo. Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das dependências será eterna: a ideológica. 

Termine de ler o texto do post clicando aqui.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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