Apartheids no país da Copa

Este texto, que saiu publicado na Folha de São Paulo, está sendo reproduzido em vários blogs. Vi pela primeira vez no Provisório, via tuíte da @Be_neviani. Também no Twitter, a respeito do texto, vi comentários do tipo: “André Singer virou psolista? Tucanou?” O André Singer, entre outras coisas, foi porta-voz da Presidência no primeiro governo Lula, é autor do livro Os sentidos do lulismo (2012), é professor de Ciência Política na FFLCH-USP… Bom, eu não faria pouco caso das análises dele, sabe? Não só pelo histórico, mas principalmente porque o que já ouvi dele aponta para um bom senso e uma honestidade de propósitos que raramente pressinto em alguém. Tem sido uma das pessoas em cujas ideias presto atenção com boa dose de confiança e o maior respeito. Também já vi, em outras situações, algumas acusações de reacionarismo dirigidas a ele, com as quais, da mesma forma, não concordei. (Claro, a gente sempre pode se enganar, mas neste caso eu duvido.) Da minha parte, não vi necessidade de discutir o artigo em termos de governismo vs. psolismo ou governismo vs. tucanismo. E como é de conhecimento de quem já prestou alguma atenção neste blog, apoio o governo Dilma. Apoio, como dizem alguns seguidos-seguidores do Twitter, “por atacado”, não necessariamente em todo o varejo. O comentário sobre “terminar os estádios a tempo”, assim como a menção à Copa no título (justo no título!), colocam como pressuposto que a preocupação com a Copa implica a não preocupação com questões sociais mais importantes, como se fossem duas coisas necessariamente excludentes? Esse pressuposto, concordo, parece bem discutível. E, também concordo, vem sendo usado com bastante má-fé, em alguns casos, por antigovernistas. Isso, suponho, causou as ironias dirigidas ao autor do texto. Pode ter sido mancada do André Singer mesmo, desnecessário. A questão da Copa é toda uma outra discussão, que não parece nada simples para ser evocada no texto de passagem assim, superficialmente, mas que também não parece estar a salvo de críticas justas. Talvez seja também mancada escrever para a Folha de São Paulo, né? Mas, tá, nisso ele até que está em algumas boas companhias. (Aborrece que algumas pessoas continuem aceitando escrever para esse jornal, mas acho que é até bem fácil de entender os motivos.) Enfim, só para deixar claro que achei o texto bem bom e que quem vier com tosquices para o lado do André Singer neste blog se arrisca a tomar um safanão.

Folha de São Paulo, 11/01/2014

APARTHEIDS NO PAÍS DA COPA

Por André Singer

Desta vez não foi preciso esperar junho. Dois acontecimentos de tonalidades quase opostas, no início de ano futebolístico, tiveram o dom de mostrar ao mundo a formação estamental brasileira sob o manto da suposta igualdade civil. Refiro-me à retomada dos irônicos “rolezinhos” em shoppings de São Paulo e ao macabro vídeo das decapitações no Maranhão.

O sentido ideológico das manifestações dos jovens da periferia nos centros de compras paulistanos é difícil de precisar. Como fica claro em entrevista do antropólogo Alexandre Barbosa Pereira (brasil.elpais.com), elas contêm profunda ambiguidade. De um lado, ao contestar a falta de áreas de lazer e a exclusividade de espaços semipúblicos para quem tem dinheiro, trazem demanda igualitária. Por outro, ao expressar fascínio pelo universo da mercadoria, ajudam a reproduzir a desigualdade contestada.

Mas, ao menos numa dimensão, o movimento juvenil em torno dos locais de consumo traz recado claro e insofismável. As meninas e meninos estão dizendo: “Nós existimos e queremos ter o direito pleno a participar desta sociedade, seja ela como for”. Convencidos, por bons motivos, de que a vida social gira em torno da mercadoria, a garotada periférica se organizou para afirmar que não admite mais ser excluída desse círculo.

Embora quase impossível, se abstrairmos o que há de monstruoso na ação dos detentos maranhenses, há também ali um grito de desespero, uma maneira cruel e sanguinária de dizer que não é possível viver naquela situação excluída por completo do cânone civilizado. Celas com 13 presos em espaço onde caberiam apenas quatro. Galinha crua como refeição. Cheiro nauseante de fezes, urina e comida estragada. Foram tais amostras superficiais do inferno penitenciário que a Folha colheu em presídio de São Luís análogo ao do horrendo filme.

A organização dos presidiários em bandos que, na prática, controlam o cotidiano da prisão é a consequência óbvia de tais condições. Sociedade de massas com um dos mais altos índices de detentos do planeta, o Brasil gera, quase que de maneira automática, redes criminosas que, uma vez formadas, funcionam como pequenos Estados dentro do Estado. O problema é que são Estados tirânicos, onde a lei é simplesmente a do mais forte.

Tanto os “rolezinhos” paulistanos quanto as cabeças cortadas de Pedrinhas estão a lembrar a tarefa que o país da Copa do Mundo ainda tem diante de si: incluir, integrar, dar acesso universal aos benefícios que já foi capaz de produzir para uma parte da população. Esvaziar presídios e encher praças vai exigir de nós bem mais do que terminar os estádios a tempo.

ANDRÉ SINGER escreve aos sábados nesta coluna.

avsinger@usp.br

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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