estala


broken-glass-heart


ESTA VELHA
Álvaro de Campos

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim…

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanço
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanço qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!


Procurando as referências do livro Coração de vidro, de José Mauro de Vasconcelos, encontrei na web o comentário de que o final do livro era um verso de Fernando Pessoa: “Estala, coração de vidro pintado”. Então fui atrás do poema, que é este, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), publicado no livro Poemas, segundo informação encontrada também na web.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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2 respostas para estala

  1. Bom dia Ani querida!
    Que espetáculo logo de manhãzinha ler Fernando Pessoa em seus múltiplos e singulares eus. Amei.
    Ontem comprei Fernando Pessoa – Poemas Dramáticos. E a intensidade desse poeta me dilacera deliciosamente.
    Adoro o Google Doodle. Alíás o Google todo.
    De José de Mauro Vasconcelos li Meu Pé de Laranja Lima, na adolescência acho, mas pouca lembrança restou, a da leitura apenas. E essa é mais uma bela sugestão de leitura. Mais um na minha lista.
    beijo e até.
    denise

    • Ani disse:

      Agradeço a visita e o comentário, Denise!
      Fernando Pessoa é um grande amor literário desde a adolescência.
      Minha mãe falava muito de Meu pé de laranja lima, mas esse livro eu não li. Do José Mauro de Vasconcelos só li Coração de vidro. Lembro do forte impacto que teve, nunca esqueci. É um livro triste, mas que acho que ajuda na capacidade de se projetar no lugar do outro, imaginar suas dores (ajuda na compaixão, enfim), mesmo quando esse “outro” não é um ser humano, mas seres da natureza (um pássaro, uma árvore…).
      Quem sabe um dia ainda volto a ler, agora de uma perspectiva adulta.
      Um beijo!

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