De anjos e gentes

SONY DSC

Talvez vocês não acreditem. Da minha parte, tenho pleno convencimento de que há anjos infiltrados entre nós gentes comuns e correntes. A pessoa que trabalha de diarista em casa, não é de hoje que desperta minhas suspeitas. Hoje cheguei de volta em casa às 21:45 com a previsão de não encontrar uma cena nada animadora na geladeira e na despensa, exceto se acontecesse uma dessas contrariedades da ordem natural à qual muitos chamam de “milagre”. O mercado próximo fecha às 21h. Talvez restasse apenas fazer um miojo e pronto, como outras vezes, porque nem ovo ia ter, então nem adiantaria tanto assim fazer arroz, a não ser que fosse acompanhado de algo que ainda restasse de salame, e que eu não tinha muita certeza que restasse. Com sorte, talvez ainda tivesse um teco de cenoura? Eu tinha almoçado às 13:30 e depois me alimentado só de cigarros até as 21:45, mas paciência: era o que se apresentava para o dia. Só que não foi assim, porque era dia do anjo vir. O anjo, que fique claro, não tem nenhum compromisso comigo de resolver problemas de cozinhar, muito menos o problema de que eventualmente possa não haver muito mais do que um miojo. E certamente já é suficiente alegria e milagre que, todas as terças-feiras, tudo na casa apareça limpo sem que eu tenha que mover um dedo para isso. Mas pasmem: a cena que encontrei contrariava todas as expectativas naturais. Na geladeira, tinha um real, concreto, doce e maravilhoso pudim de leite. Não restavam dúvidas: a ordem da natureza havia sido subvertida pelo anjo. E isso só porque tinha lhe dado na veneta me fazer uma surpresa. Mas como seria possível preparar um pudim de leite, na ausência da maior parte dos ingredientes? Se vocês estão mesmo se fazendo essa pergunta, como eu me fiz, deixem de ser bobos: não encontrar ingredientes vai lá ser obstáculo para um anjo? Definitivamente não. De modo que o anjo resolveu a falta de leite condensado, de leite integral, de ovos e até de forma de pudim e… plim!… eu tinha um pudim de leite na geladeira. De quebra, nessa mesma geladeira, haviam aparecido, do nada, três ovos que poderiam servir de acompanhamento, caso eu fizesse aquele tal arroz que – não fosse o fato de existirem anjos – não teria acompanhamento possível, exceto algo que talvez ainda restasse de salame na geladeira. A epifania do pudim de leite não era nem um pouco pouco, mas tampouco era só isso. O anjo tinha trazido, de uma visita a Aparecida do Norte, um maço de fitinhas de Nossa Senhora Aparecida e deixado do lado do meu computador. O anjo tinha tratado de colocar no meu dia o salgado, o doce, o colorido e a bênção. Faz três anos que, de tempos em tempos, essa pessoa não se aguenta em seu papel de gente como nós, comum e corrente, e dá alguma escorregadela, deixando aparecida alguma ponta de umas asas de anjo.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Memórias sonhos reflexões e marcado . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s