Sexismo: qual é a questão?



Lisbeth Salander

Lisbeth Salander, protagonista da trilogia Millenium.



ÓBVIO QUE TODOS OS HOMENS NÃO ODEIAM MULHERES,
MAS TODOS SÃO BENEFICIADOS PELO SEXISMO

Texto de Laurie Penny. Tradução de Bia Cardoso,
com a colaboração de Iara Paiva, Liliane Gusmão e Thayz Athayde.

No Blogueiras Feministas, 01/10/2013.
Via Geledés.

Publicado originalmente com o título: Of course all men don’t hate women. But all men must know they benefit from sexism no site NewStatemans.com em 16/08/2013.
Nota das tradutoras: Ainda que o texto foque em um tipo de opressão estrutural e se dirija aos homens cissexuais, nos parece que o mecanismo é válido para outros casos. Por exemplo, pessoas brancas não têm que se ofender quando seus privilégios são apontados — ainda que, pessoalmente, não sejam racistas. A mesma coisa para os privilégios heterossexual e cissexual. É uma contradição pretender-se uma pessoa consciente dos próprios privilégios e interpretar denúncias à macroestrutura como ofensa pessoal.

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Isso vai doer. Nos últimos meses, foi quase impossível abrir um jornal ou ligar a televisão sem encontrar uma matéria sobre outra garota menor de idade sendo estuprada, outra representante política sendo assediada, outra mulher trans assassinada. Porém, assim como as mulheres e meninas, quando um número crescente de homens aliados começaram a falar contra o sexismo e a injustiça, uma coisa curiosa aconteceu: algumas pessoas estão reclamando que falar sobre preconceito é uma forma de preconceito.

Atualmente, antes de falar sobre misoginia, as mulheres estão sendo solicitadas a modificar sua linguagem para não machucarmos os sentimentos dos homens. Não diga: “Homens oprimem as mulheres” — isso é sexismo, tão ruim quanto qualquer sexismo com o qual as mulheres sempre tem que lidar, possivelmente pior. Em vez disso, diga: “Alguns homens oprimem as mulheres”. Faça o que fizer, não generalize. Isso é algo que os homens fazem. Nem todos os homens — apenas alguns.

Esse tipo de disputa semântica é uma maneira muito eficaz de fazer as mulheres calarem a boca. Afinal, a maioria de nós cresceu aprendendo que ser uma boa menina tem tudo a ver com colocar os sentimentos dos outros à frente dos nossos. Não devemos dizer o que pensamos se há uma chance de deixar alguém chateado, ou pior, se podemos deixá-los irritados. Então, nós abafamos nossa fala com desculpas, cautelas e palavras doces. Nós tranquilizamos nossos amigos e entes queridos dizendo: “você não é um desses homens que odeiam mulheres”.

O que não dizemos é: claro que nem todos os homens odeiam mulheres. Mas, a cultura odeia as mulheres, por isso, homens que crescem numa cultura sexista têm uma tendência a fazer e dizer coisas sexistas, muitas vezes sem intenção. Nós não estamos julgando você por ser quem você é, mas isso não significa que nós não estamos pedindo para você mudar seu comportamento. O que você sente pelas mulheres em seu coração tem menos importância nesse momento do que a maneira como você as trata no cotidiano.

Você pode ser o mais gentil, mais doce homem do mundo e, mesmo assim, se beneficiar do sexismo. É como a opressão trabalha. Milhares de pessoas decentes são persuadidas a contribuir com um sistema injusto, porque é menos incômodo dessa maneira. A reação mais adequada para quando alguém exige mudanças nesse sistema injusto é escutar, ao invés de se afastar ou gritar — como uma criança faria — que não é sua culpa. E isso realmente não é sua culpa. Tenho certeza de que você é adorável. Mas, isso não significa que você não tenha responsabilidade de fazer algo sobre isso.

Os livros e filmes protagonizados por Lisbeth Salander não são conhecidos como: Alguns homens que não amavam as mulheres.

Sem invocar os estereótipos de gênero maçantes sobre multitarefas, todos concordamos que é relativamente fácil manter mais de um pensamento no cérebro humano. É um grande e complexo órgão, o cérebro, do tamanho e peso de uma horrorosa e podre couve-flor, com pleno espaço para muitos programas de televisão ruins e para o número de telefone daquele ex-amor, para quem você não deveria ligar depois de seis doses de vodka. Se o cérebro não pudesse lidar com grandes estruturas de ideias ao mesmo tempo que lida com pequenas coisas pessoais, nós nunca teríamos saído das árvores e construído coisas como cidades e salas de cinema.

Não deve, portanto, ser tão difícil como parece explicar para um homem comum que você, homem comum, indo para mais um dia de trabalho, comendo fritas e jogando BioShock 2, pode não odiar e machucar mulheres. Enquanto, homens como um grupo — homens como uma estrutura — certamente fazem isso. Eu não posso acreditar que a maioria dos homens são tão estúpidos a ponto de não entender essa distinção, e se eles são, nós precisamos intensificar nossos esforços para evitar que concorram a cargos em praticamente todos os governos do mundo.

Entretanto, ainda é difícil falar com os homens sobre sexismo sem encontrar uma parede de defensivas e tons de hostilidade, até mesmo violência. Raiva é uma resposta totalmente adequada ao aprender que se está implicado em um sistema que oprime mulheres —- mas a solução não é direcionar essa raiva de volta às mulheres. A solução não é encerrar o debate nos acusando de “sexismo ao contrário”, como se isso de alguma forma fosse equilibrar o problema e impedir você de se sentir tão desconfortável.

Sexismo deve ser desconfortável. É doloroso e irritante receber ataques misóginos. Também é doloroso vê-los acontecer e saber que você está implicado, mesmo que você nunca tenha escolhido estar. Você deveria reagir quando alguém o avisa que um grupo do qual você faz parte está ferrando outros seres humanos da mesma maneira que reage quando o martelo do médico atinge seu joelho para testar seus nervos. Se você não se move, algo está terrivelmente errado.

Dizer que “todos os homens estão envolvidos na cultura sexista” — todos os homens, não apenas alguns homens — pode soar como uma acusação. Na realidade, é um desafio. Você, homem comum, com seus sonhos e desejos, não pediu para nascer num mundo onde ser um garoto lhe dá vantagens sociais e sexuais em relação às garotas. Você não quer viver num mundo onde garotas menores de idade são estupradas e as pessoas, diante de um tribunal de justiça, dizem que elas provocaram; onde o trabalho das mulheres é mal remunerado ou nem é pago; onde somos chamadas de vadias e vagabundas por simplesmente lutar por igualdade sexual. Você não escolheu nada disso. O que você pode escolher, agora, é o que acontece em seguida.

Você pode escolher, como homem, ajudar a criar um mundo mais justo para as mulheres — e para os homens também. Você pode optar por desafiar a misoginia e a violência sexual sempre que as vê. Você pode escolher correr riscos e gastar energia apoiando mulheres, promovendo mulheres, tratando-as no cotidiano como iguais. Você pode escolher levantar e dizer ‘não’. Todos os dias mais homens e garotos estão fazendo essa escolha. A questão é: você será um deles?

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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Uma resposta para Sexismo: qual é a questão?

  1. tiaporanga disse:

    Republicou isso em Tiaporangae comentado:
    Um texto simples e direto. Para qualquer homem entender.

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