Da prepotência e da arrogância


arrogância rubem alves


AS PRIMAS-IRMÃS CAUSADORAS DE ERROS

Por Nubia Silveira. Sul21, 15/10/2013

Entre as inúmeras correntes que recebo diariamente, como todos que estão plugados na internet, uma me chamou a atenção. Diz o texto, sem as costumeiras ameaças de que irei para o fundo do inferno se não a repassar para amigos e inimigos, que se trata de uma oração etíope. Não sei se é verdade, mas gostei dela. É curta, objetiva e, em determinado momento, pede que ao sermos ricos, não sejamos prepotentes. Achei interessante essa ligação de prepotência apenas com os ricos. Para mim, a prepotência e a arrogância são primas-irmãs e podem ser exibidas por ricos, pobres, homens, mulheres, baixos, altos, gordos, magros e de pessoas de qualquer profissão.

Tanto a prepotência quanto a arrogância nos fazem olhar o outro com superioridade, como se fôssemos donos exclusivos da verdade. O primeiro grande degrau para cometer erros de todos os tamanhos. Não é difícil encontrar os prepotentes-arrogantes. Eles estão bem instalados em todos os lugares. Nos últimos dias deparei com um médico dessa categoria. Ele me foi indicado como um grande especialista em ombro, pois agora cada um é responsável por uma parte do nosso corpo.

Meu sobrinho tinha consultado com esse senhor e adorado o tratamento. “Ele ficou horas comigo, perguntou tudo, me explicou direitinho o que tenho”. Fiquei entusiasmada e marquei a consulta. Ao contrário do meu sobrinho que pagou por ela, eu fui pelo meu plano de saúde.

Estranhei o comportamento do profissional dedicado, na descrição do meu sobrinho, já na entrada. Parecia apressado em me despedir. Tudo na base do “oi,tchau”. Me mandou levantar o braço que doía, jogar para frente e para trás, o que fiz, apesar da dor, e me despediu:

– Coloca uma bolsa de água quente no ombro e vou te receitar um anti-inflamatório. Não é nada de mais.

Sou teimosa. Insistente. Voltei a dizer:

– Me dói nas costas, um pouco abaixo do ombro. É como se algo tivesse arrebentado.

Ele foi logo me entregando a receita.

Tentei retomar o assunto:

– Estou pensando em retornar ao Pilates. Posso?

Ele, já de pé, abriu uma gaveta e retirou dali um papel impresso.

– Sem problemas, disse o médico especialista em ombro. Só leva este papel com orientações sobre os exercícios.

Joguei a toalha. Desisti. Saí do consultório, em menos de dez minutos, com a receita na mão. Na rua, pensando em ir direto a uma farmácia, dei uma olhada no que ele havia prescrito. Abaixo do nome do remédio vinha a orientação: se sentir dor no peito, se tiver arritmia e não sei mais o quê, suspenda o uso da medicação.

Naquele momento, tive certeza de que ele me viu como uma idiota, sem poder de decisão sobre o que é bom ou ruim para mim. Joguei a receita fora, me prometendo que se a dor continuasse recorreria a uma emergência especializada em ortopedia e traumatologia.

Foi o que fiz alguns dias depois, ainda com bastante dor. O médico que me atendeu, prestou atenção no que eu dizia, mandou fazer uma radiografia na hora. Mostrou a artrose no ombro.

– Mas, doutor – repeti a ladainha – minha sensação é de que algo arrebentou nas minhas costas, logo abaixo do ombro.

Ele levou em conta o meu lamento e mandou fazer uma ecografia. Lá me fui eu para mais um de tantos exames que já fiz nesta vida.

– A senhora está mesmo com dor. Não está inventando, disse o médico que fez a ecografia.

– Como inventando? Era o que me faltava: começar a inventar dor.

– Veja com o seu médico. Houve rompimento do manguito.

Mais essa, pensei. E logo esqueci o tal rompimento, pois tinha mais coisas a fazer. Mas, quando entreguei o resultado do exame ao médico da clínica, não gostei da cara que ele fez.

– Realmente, a senhora rompeu totalmente um dos manguitos e isso é caso de cirurgia. Eu não faço, mas um bom cirurgião pode fazê-la por vídeo, abrindo apenas três furinhos no seu ombro.

Incrível! Eu não estava inventado nem a dor, nem o problema. E ele só foi descoberto porque o médico da urgência resolveu me ouvir e descer do pedestal. Ele não é especialista em ombro, não é famoso, pelo que sei, e não é prepotente-arrogante. Sabe ouvir e se preocupa com o que o outro diz.

Vou acrescentar um pedido à oração etíope para que a prepotência e a arrogância sejam varridas da nossa vida.

Nubia Silveira é jornalista

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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