Professorado e gênero

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“O PROFESSOR” NÃO EXISTE: DESIGUALDADES EM GÊNERO,
NÚMERO E GRAU ENTRE O PROFESSORADO BRASILEIRO

Por Marília Moschkovich em seu blog, 15/10/2013

Embora sejam maioria entre o professorado brasileiro em todos os níveis, as mulheres ainda têm menos acesso a segmentos mais valorizados como o ensino médio e o superior.

Certa vez faciltei um workshop sobre desigualdade de gênero no ensino superior e na ciência, em um congresso de jovens ativistas. Com participantes de diferentes países, formamos grupos de três ou quatro pessoas. Eu falava algumas palavras e eles precisavam desenhar uma representação gráfica do que eu pedia. Em inglês, há a vantagem de os substantivos de profissão raramente possuírem gênero. Assim, quando eu pedi que desenhassem “a preschool teacher”, eles poderiam ter desenhado um homem ou uma mulher que fossem professores de pré-escola. Todos os grupos desenharam mulheres. Dali a alguns desenhos, mais adiante, pedi que representassem “an university professor” – ou seja, um docente de universidade. Quase todos os grupos desenharam figuras masculinas, com exceção de um pequeno grupo de norueguesas e finlandesas feministas que participava da discussão.

Nesta terça-feira (15) comemoramos o “dia do professor” no Brasil. Minha experiência como professora, assim como a anedota do workshop, mostram que esse “o professor”, assim, no geral, simplesmente não existe. Os professores e professoras são uma categoria que inclui diferentes tipos de trabalho, salário e prestígio social. Ao contrário do que a generalização da figura de “o professor” pode sugerir, porém, os homens são minoria no professorado em nosso país. Diferente do que podemos imaginar a partir dessa informação, por outro lado, são eles que ocupam os cargos de maior salário e prestígio.

Num texto um pouco longo, trago algumas reflexões – tão esquecidas e tão necessárias – sobre um dos diversos tipos de desigualdade do nosso sistema educacional: a desigualdade de gênero entre docentes de todos os níveis.

Grau: a mentalidade que desvaloriza a docência

Durante um ano e meio de minha vida, trabalhei numa escola internacional no interior paulista. Meus alunos, que tinham entre 03 e 06 anos de idade, não conseguiam entender por que eu jamais deixava que me chamassem de “tia Marília”. Na cabeça deles – e de muitos pais e mães – a melhor tradução de “teacher”, no caso da pré-escola, era “tia”.

Alguns anos antes de trabalhar nessa escola eu havia lido as cartas de Paulo Freira reunidas num livretinho chamado “Professora, sim! Tia, não!”. Ali, ele reflete sobre um aspecto da desvalorização do professorado que em geral não observamos, mas que determina o prestígio social e salarial da categoria como um todo: a ideia de que professor não é uma profissão.

Essa ideia é em geral mais forte quanto menores são os estudantes que o professor atende. O hábito de chamar a professora da pré-escola de “tia”, e o fato de muitas preferirem ser chamadas de “tia”, segundo Freire, é uma evidência dessa desprofissionalização. É como se a professora estivesse ali, em primeiro lugar, por um laço afetivo, por prazer/lazer, e não porque é uma profissional treinada para aquele tipo de trabalho.

Pois é justamente essa mentalidade que faz com que professores, em especial os do ensino básico, ganhem salários tão ruins no Brasil: qualquer um pode, sem treinamento, “dar uma aulinhas”, basta saber do assunto; como aquilo que as crianças aprendem na pré-escola em geral é sabido por todo adulto, logo todo adulto poderia estar ali fazendo o trabalho da professora; concluímos, assim, que a professora não é uma professora mas sim uma “tia”, que está lá passando o tempo com as crianças enquanto os profissionais “de verdade” trabalham; como qualquer um pode fazer aquilo, pagamos uma merreca.

Há ainda, aqueles que, “na falta de algo melhor para fazer”, se tornam professores. Conheço e conheci vários e várias. Por exemplo pessoas que, apesar de conhecerem bem o português e saberem que jamais se atreveriam a dizer que são “professores de português” e dar aulas de nossa língua materna, fazem exatamente isso com qualquer idioma estrangeiro que dominem um pouquinho. Cobrando por isso uma merreca, claro, e ajudando a desvalorizar a categoria como um todo.

Temos aí duas categorias bem desvalorizadas graças à crença, no senso-comum, de que “qualquer um” (ou quase qualquer um) poderia realizar aquele trabalho: os professores de pré-escola e os professores de idiomas estrangeiros.

O mesmo tipo de raciocínio tem o efeito inverso, de valorização, sobre categorias como os professores de ensino médio e os professores universitários. Com essa mentalidade, poderíamos concluir que ajudar crianças de 7 anos a somar números inteiros seria um trabalho muito mais simples do que dirigir a descoberta de adolescentes sobre a existência e funcionamento de matrizes e derivadas. Assim, se defende por aí que os professores de ensino médio sejam “donos” de um saber “mais especializado” e, portanto, mais valoroso. Seus salários são a princípio maiores em relação às demais categorias, e seu trabalho é visto socialmente como mais prestigioso.

[Nota: Se alguém aí pensou em “anos de estudo” como forma de justificar salário, é importante lembrar que nossa legislação exige curso superior completo para qualquer posto na carreira de professor, seja ele na pré-escola, no ensino fundamental ou no médio. Apenas no ensino superior que se exige pós-graduação, o que tampouco justifica salários maiores se pensarmos num mercado de trabalho onde médicos, advogados, juízes, economistas e engenheiros apenas com graduação têm em geral salários superiores a pesquisadores (de qualquer área) com doutorado.]

De toda maneira, meu ponto nesta seção do texto é o seguinte: há muita heterogeneidade quando pensamos na “profissão de professor”. O trabalho do professor varia conforme o segmento em que ele atua. Essa variação é acompanhada de uma variação também em seus salários e sobretudo do prestígio de que ele ou ela pode gozar socialmente como profissional.

Há, claro, uma pequena distorção quando comparamos os professores do ensino médio com os professores do ensino fundamental, mais no sentido do salário e das condições de trabalho do que acerca do prestígio da profissão: a municipalização da educação fundamental, consolidada nos anos 1990 e 2000 tornou possíveis diversos casos de cidades em que os salários e condições de trabalho dos professores no ensino fundamental são melhores ou iguais aos dos professores do ensino médio. Quando observamos a rede privada, porém, a história é quase sempre outra.

De maneira geral podemos dizer que o prestígio da posição – e o salário – costumam ser diretamente proporcionais ao “grau” onde trabalham os professores, em ordem crescente: educação infantil, ensino fundamental (sendo o primeiro ciclo menos valorizado do que o segundo), ensino médio, ensino superior. Pois os professores e professoras não se encontram homogeneamente distribuídos nesses graus, nessa escadinha de prestígio, poder e salário. Basta olhar para alguns dados relativamente simples dos últimos Censos nacionais da educação básica e superior (disponíveis no site do INEP) para compreendermos o por quê de a “tia” vir assim, quase sempre no feminino.

Número e gênero: onde estão as mulheres

Todas as vezes em que trabalhei na pré-escola, em escolas privadas, as equipes que me acompanhavam eram formadas totalmente por mulheres, com exceção de um professor de educação física (que alternava suas aulas com uma outra, mulher). Quando passei a dar aulas para o ensino médio, pelo contrário, eu era uma das únicas mulheres da equipe. Como aluna de graduação e depois mais consistentemente em meu mestrado, pude observar também que não somos grande coisa entre os docentes do ensino superior, especialmente das universidades e ainda menos se contarmos apenas as públicas – apesar de sermos a maior parte dos doutores formados a cada ano no Brasil.

Com a pulga ainda atrás da orelha, fiz uma análise rapidinha e extremamente simplificada sobre os dados fornecidos pelo INEP sobre a quantidade de homens e mulheres entre o professorado brasileiro, nos diferentes segmentos do sistema educacional. Por meio deles podemos concluir, como vocês verão em seguida, que existe uma desigualdade gritante provocada pelo gênero.

Pra começar a conversa, aquela informação básica sobre o que chamamos de “composição sexual” de cada categoria e do professorado em geral. Isso significa que estamos interessadas/os aqui em, individualmente, em cada categoria, quantos homens e mulheres trabalham e que porcentagem eles representam do total de professores naquela categoria. Simples, certo? O gráfico abaixo mostra esses dados.

[Nota: não foram incluídos professores de Educação de Jovens e Adultos, Educação Especial, nem de Educação Profissional, Pré-Vestibulares e cursos independentes como cursos de idiomas. Além disso, é importante notar que as informações sobre o ensino superior foram retiradas do Censo 2011, já que os resultados do Censo 2012 não foram divulgados até o fechamento do artigo]

grafico-professores-genero-2

Segundo tais dados, as mulheres são cerca de 75% do professorado brasileiro. O único segmento em que elas não são a maioria do corpo docente é o ensino superior, onde chegam bem perto da metade. “Professor”, no Brasil, é uma profissão altamente feminizada. Em geral esse tipo de conclusão faz com que pensemos que, ora bolas, se a profissão tem muitas mulheres então provavelmente não tem muita desigualdade de gênero, certo?

Aí é que o tatu sai da toca. Ou melhor, a “tatuza”.

A única coisa que concluímos com esse primeiro gráfico é que elas estão mais presentes. Isso não significa muito, pois elas também estão fortemente presentes na população brasileira e só em 2010 elegemos uma mulher como presidenta, não é? As “minorias sociais” muitas vezes não são minorias numéricas, especialmente no caso das mulheres.
Para falarmos em desigualdade, precisamos daquele primeiro pedaço do texto, ali em cima. Para que a condição seja considerada “desigual” e não apenas “diferente” da condição dos homens, é preciso reforçar que existe aí uma correlação entre salário e prestígio social para cada segmento em que trabalham nossos professores e professoras.

De toda maneira, como podemos saber se os dados do primeiro gráfico não são apenas um reflexo do fato de que as mulheres são maioria? Se é apenas no ensino superior que elas não são maioria no corpo docente, isso quer dizer que até o ensino médio a situação é igualitária? E, ainda, como encontrar um indicativo de que o gênero tenha mesmo alguma coisa a ver com isso?

Pois o segundo gráfico, abaixo, mostra um outro tipo de cálculo que me ajudou bastante no mestrado. Em vez de olharmos para a tal da “composição sexual”, utilizamos os mesmos dados para fazermos outra pergunta. Vamos observar o conjunto total de professoras mulheres e o conjunto total de professores homens. Perguntamos, então: entre as professoras mulheres, quais as chances de estarem trabalhando em cada segmento? E entre os homens? E se desconsiderarmos o “sexo”, somando ambos, o resultado é muito diferente?

grafico-professores-genero

Como podemos ver, as mulheres estão fortemente concentradas na educação infantil e no ensino fundamental. Seus colegas homens, por outro lado, se concentram nos segmentos de maior prestígio dessa escala: os ensinos médio e superior.

De maneira simplificada, podemos afirmar com esses dados que quando uma mulher decide ser professora, no Brasil, há mais chances de que ela se torne professora do primeiro ciclo do ensino fundamental (30,9%), do que do segundo ciclo (26,7%) e da educação infantil (20,1%). Há significativamente ainda mais chances de que ela faça qualquer uma dessas escolhas do que do que as chances de ela se tornar professora do ensino médio (14,4%) ou do ensino superior (8%).

A história dos homens é outra: os homens que decidem ser professores lecionam majoritariamente para o segundo ciclo do ensino fundamental (32,2%), para o ensino superior (29,1%) e para o ensino médio (26,6%) – justamente os segmentos que são tidos como “mais especializados” pois dividem o conhecimento e as aulas em disciplinas. Quando se trata das chances de que lecionem nos segmentos iniciais, elas são ínfimas tanto no ensino fundamental (10,2%) quanto na educação infantil (com pífios 1,9% de chances).

Para termos a dimensão real dessas desigualdades, podemos observar a linha verde, que mostra as chances gerais para professores trabalharem em cada segmento. Uma vez que isso depende da quantidade de vagas oferecidas e do tamanho de cada segmento no sistema, é justamente na distância entre cada linha (azul e vermelha) e a linha verde que enxergamos a desigualdade entre homens e mulheres. Quando se trata dos segmentos menos valorizados, a linha vermelha (homens) está muito abaixo da linha verde. Quando se trata dos segmentos mais valorizados, ela está substancialmente acima. Isso nos mostra que os espaços mais prestigiosos e onde há menos vagas de trabalho estão ocupados pelos professores homens.

Fechando a demonstração, podemos dividir as chances das mulheres pelas chances dos homens criando uma espécie de quociente de desigualdade simplificado. A tabela abaixo nos mostra quantas chances a mais (números maiores do que 1) ou a menos (menores do que 1) as mulheres professoras têm de ocupar cargos em cada segmento do nosso sistema de ensino, em relação a seus colegas homens. Quanto mais próximo de 1, mais igualitária a situação.

professorado e gênero tabela-quociente

Os dados nos mostram que as mulheres tem 10 vezes mais chances de se tornarem professoras de educação infantil do que os homens enquanto eles têm quase o dobro de chances de se tornarem docentes no ensino médio e mais que o triplo de chances no ensino superior. Como eu planejava demonstrar, está aí uma desigualdade forte entre homens e mulheres que compõem nosso professorado.

Por onde é a saída?

Alguns estudos bem interessantes de diversas áreas (ciências sociais, história, economia, educação, administração) apontam uma coincidência entre a desvalorização de uma carreira e sua feminização. O acesso das mulheres ao professorado, de fato, seguiu o caminho da desvalorização, semelhante ao que foi relatado na França pela pesquisadora Marlaine Cacouault-Bitaud num livro que resenhei há algum tempo. O mesmo raciocínio que serve para carreiras pode servir para diferentes “fatias” de uma categoria profissional, como é o caso aqui.

A primeira pergunta que nos fazemos nesses casos é: existe uma relação causal? Quer dizer, a profissão de professor de ensino fundamental, por exemplo, se desvalorizou por que as mulheres passaram a ocupar as posições? Ou as mulheres só puderam ocupar essas posições por causa de uma desvalorização do espaço profissional?

Basta recorrer à história e, no caso das professoras e professores, encontramos a resposta, mesmo que picada em pedacinhos de um quebra-cabeças. O acesso das mulheres a cada segmento de ensino foi acontecendo progressivamente, sobretudo ao longo do século XX. O “detalhe” que não nos contam é que os diplomas que elas podiam obter nas escolas para meninas não tinham o mesmo valor legal que os diplomas obtidos nas escolas para meninos. Um dos tantos exemplos disso é a LDB de 1961, que confere diferentes status a professores licenciados e professores formados no curso normal. As mulheres frequentavam majoritariamente os cursos normais e eram muito poucas nas universidades.

A entrada das mulheres nas universidades, por exemplo, só aconteceu de maneira um pouco mais ampla quando os diplomas de curso normal passaram a ser considerados equivalentes ao colegial, em geral cursado pelos homens. Antes disso, no início do século XX, as mulheres praticamente não podiam se matricular em universidades. A LDB de 1961, mesmo com algumas assimetrias ainda entre os tipos de diploma, consolidou sua equivalência para a entrada em universidades.

Isso tudo – e muitos outros estudos interessantes sobre história da educação no Brasil (sugiro uma boa passeada no Google Acadêmico e nas bibliotecas mais próximas) – nos diz que essas desigualdades não são recentes. Essas desigualdades são produto de um sistema que durante muito tempo privilegiou os homens em detrimento das mulheres, de muitas maneiras. Ao mesmo tempo, as pessoas foram formadas por esse sistema (que refletia e reflete o sistema de valores da sociedade brasileira, generalizando um tento). Por isso dizemos que é lenta a mudança no sistema simbólico, que nos faz considerar certos tipos de trabalho “femininos” e outros “masculinos”, que nos faz achar certas coisas “aceitáveis” para um gênero mas não para outro, que nos faz escolhermos nossas profissões também com base nesses preceitos e em nossa identidade como homens e mulheres.

A mudança, porém, é possível – e já começou. A história nos mostra um avanço grande em relação às desigualdades de gênero no mercado de trabalho de professores no Brasil. Os últimos censos do INEP, porém, nos mostram que o caminho percorrido é um copo d’água num oceano. Mas dizem por aí que em copo d’água já dá pra fazer tempestade. Então façamos.

Neste dia das professoras, deseje um feliz dia de luta à profissional mais próxima!

Feliz luta, colegas!

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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