Nick Drake – Man in a shed & A place to be


Na época, algum crítico achou que o primeiro álbum (Five Leaves Left, 1969) do Nick Drake tinha pouca variedade para valer a pena. Talvez outros chamem de estilo o que ele chamou de pouca variedade. Aquilo que faz reconhecer gente como Borges, Pessoa e Lorca imediatamente, no contato com algo deles que você ainda não conhecia. A música do Nick Drake tem uma baita personalidade. Mas tenho que concordar com o crítico num ponto nessa questão da pouca variação: foi um susto ir procurando outras canções dele, depois de ouvir Saturday Sun, e ir descobrindo que eu invariavelmente gostava muito de todas. Mesmo quando você absolutamente adora um artista, tem umas coisas dele de que não gosta tanto assim. É o que poderia ser considerado normal, certo? Tudo bem, talvez não aconteça com os Beatles. Mas me acontece com gente excepcional como Gilberto Gil. E com o Nick Drake não acontecia. Já devo ter conseguido escutar tudo o que ele gravou… e até agora não aconteceu. E que variedade seria essa que o crítico esperava de um cara de vinte anos em seu primeiro disco, sem aquela grana toda que uma gravadora investiria em arranjos para uma grande estrela? Um Sargent Pepper’s? Paro para pensar comparativamente no primeiro álbum dos Beatles (se não me engano, Please please me, 1963, que, aliás, adoro), em que os meninos de Liverpool tinham mais ou menos uns vinte anos, e sinceramente acho Five Leaves Left muito melhor: mais bonito, mais hábil, seja musicalmente, seja nas letras.
Tendo a relativizar, inclusive para mim, minhas percepções e gostos, por isso me assusta essa convicção com que afirmaria, assim em seco, sem relativizar coisa nenhuma, que Nick Drake foi dos maiores entre os maiores. Descobri a música dele só neste ano, em 10 de março de 2013, quando a Romi Smith postou um link para Saturday Sun no Twitter – uma escolha e tanto, uma das canções mais bonitas – e saí procurando quem era o responsável por aquele escândalo que eu tinha ouvido. Foi o início de outros escândalos. E me deixou meio mal perceber que o Nick Drake parece – ainda hoje – subvalorizado. Seus álbuns foram colocados entre os 500 maiores da história pela revista Rolling Stones (só depois de algumas décadas, segundo leio). Mas penso no que tenho ouvido nesta vida e não percebo ainda hoje difusão e entusiasmo à altura de umas músicas que mereciam ser anunciadas por algum deus abrindo nuvens e dizendo “a beleza vos salvará”. Nick Drake tinha que ter coisas cantadas em coro nos estádios de futebol, letras conhecidas de cor no mundo inteiro, como acontece com Hey Jude. Até porque quase tudo o que ele fez é mais bonito do que Hey Jude (e você nem imagina quanto eu gosto de Hey Jude). Mas não é isso o que acontece. Talvez desse para entender (lamentando muito) se o Nick Drake fosse um artista das periferias planetárias. Mas ele estava bem lá no foco das atenções, na Inglaterra, cantando na língua dos impérios da música popular. E aí? Como é que não viram? Provavelmente porque ele não teve certo tipo de personalidade nas relações interpessoais e no palco? Não deve ter tido a irreverência e a desenvoltura dos Beatles e dos Stones? Não deve ter tido um marqueteiro tão eficiente quanto o de outros? Não usava as plumas e óculos excêntricos do Elton John? Ainda não apareceu um grande profeta que soe eficientemente as trombetas para anunciá-lo? Ele já teve canções gravadas por gente muito popular como Norah Jones e Elton John. O problema, na minha percepção, é que nada dele parece ficar tão bom com outras pessoas quanto com ele. Norah Jones é das minhas cantoras preferidas, mas a gravação que ela fez de Day is done decididamente não faz intuir o que é ouvir Nick Drake. Ouço na voz dele e me maravilha o triplo. Renato Russo gravou Clothes of Sand. Gosto muito, me levou pelo menos a prestar atenção na melodia e na letra e achar muito bonita, mas por algum motivo não me apaixonou a ponto de ir ver quem era o autor daquela canção. Ouço Clothes of Sand na voz e violão do Nick Drake e flutuo. Quando me apaixonei por Pink Moon – que é das que mais gosto – pensei que grande parte do que me pegava estava no arranjo, na combinação do violão com o piano. Logo depois li que o arranjo é do próprio Nick Drake e que ele mesmo tocou a parte do piano na gravação. Ele estava compondo e gravando suas canções lá pelo período entre 1968 e 1974. Penso em quantos vídeos tem de Beatles, Stones etc que são dessa época. Até agora não achei um vídeo sequer com filmagem do Nick Drake tocando e cantando. E parece que, de fato, não existem. Como pode? O que estavam fazendo gravadora e empresário desse cara? Quando intuo quanto a percepção do valor de um trabalho – artístico ou não – depende de uma série de meandros de relações interpessoais, me pergunto quanta coisa e gente maravilhosa não passou completamente em branco ao longo do tempo, enquanto talentos médios eram considerados grandes coisas. Só me consola que Nick Drake não tenha ficado tão em segundo plano a ponto de eu nunca ter chegado a conhecer a música dele.
Contam que houve místicos que encontraram o caminho da iluminação e se fundiram com a eternidade. Acredito que houve músicos que encontraram o caminho da beleza e se fundiram com a música. Nick Drake nasceu em 19 de junho de 1948. Lá pelos vinte anos, achou um desses caminhos da beleza (confira lá se Way to Blue e Northern Sky não são vias celestiais). Até as letras dele parecem ter nascido das diferentes músicas do mundo: sons de chuva, de sol, de lua, de estrela, vozes de montanhas, de árvores, de areia, de mar. Sempre adorei o som do inglês cantado, mas nunca me pareceu tão bonito de ouvir. A sensação de beleza transbordava e passei pelo menos uma semana postando canções dele no Twitter, numa propaganda descarada, sem que aparentemente ninguém mais achasse aquilo grande coisa. Só isso, às vezes, me faz duvidar um pouco da relatividade da minha percepção da qualidade do que ele fez. Tenho uma intuição ainda difusa de que o meu entusiasmo com a música do Nick Drake pode ter algum ponto em comum com o entusiasmo de Caetano, Gal e Gil com João Gilberto (embora João Gilberto ainda não me entusiasme tanto assim): uma técnica única, especialmente hábil e bela de tocar, cantar e compor. Convido a fazer o teste de tentar cantar, por exemplo, Clothes of Sand em coro com o Nick Drake; a tentar acompanhá-lo exatamente no uso da voz e dos tempos da letra. Mesmo sem entender muito de música (como eu) você talvez intua (como eu) que ele canta fugindo da expectativa de distribuição de tempos na melodia, verá que ele prolonga ou encurta de forma inusitada algumas sílabas e sons, como o dos “n” finais de sílaba. Parece jogar com a fonética da língua e os timbres de voz trabalhando-os, não como normalmente pode fazer um cantor, mas da perspectiva de um instrumentista: como outro dos instrumentos do arranjo. É como se ele intencionalmente modulasse a voz para que ela provoque a sensação, não exatamente de voz humana, mas de um instrumento de sopro. Um clarinente? Procurando na web como tocar algumas das canções dele no violão, encontrei que ele constantemente compunha alterando a afinação tradicional para as seis cordas. De cima para baixo, as cordas do violão se afinam na sequência mi, lá, ré, sol, si, mi (EADGBE). O Nick Drake constantemente compunha com outras afinações, como dó, sol, dó, fá, sol, mi (CGCFGE) ou si, mi, si, mi, si, mi (BEBEBE), muitas vezes combinando isso com o uso de braçadeira capotraste para alterar o tom. Experimentador do violão. E, putz, o cara tinha vinte anos. Tinha estudado piano, clarinete e saxofone, mas foi autodidata no violão.
Essas são racionalizações a posteriori. No início, foi apenas isto: ouvir e amar. As racionalizações são para tentar entender por quê, e, como disse um crítico literário que nunca lembro bem quem (Leo Spitzer?), o entendimento, além de não diminuir o amor, frequentemente o aprofunda. Renato Russo disse que a sensibilidade do Nick Drake parecia de um anjo. Eu tinha pensado com meus botões que ele provavelmente era um elemental do ar, elfo ou fada. Parece que compartilhei com Renato Russo a percepção de uma música que leva para voar. Escolhemos imagens parecidas. Mas Nick Drake deve ter se percebido meio fodido pela vida e saiu fora em 1974, aos 26 anos. Antes anotou em algum papel uns versos de From the Morning: “and now we rise and we are everywhere“. Foram gravados na lápide. A maioria acredita que a overdose de remédios foi suicídio. Outros acham que pode ter sido mero acidente: exagero imprudente na dosagem dos antidepressivos que ele tomava na época. Uma sensibilidade leve demais para este planeta azul? Seja como for, ele pôde ir dormindo, de um jeito tão suave quanto aquele jeito de cantar. É como eu gostaria de morrer, se pudesse escolher. Para meu consolo, ele já tinha deixado três discos: Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1970), Pink Moon (1972). Mesmo assim, egoisticamente fico lamentando que não esteja vivo até hoje, que não tenha feito muitas outras coisas. E não é que ele nasceu no mesmo dia e mês que o Chico Buarque? Por fim, suspeito que recentemente reencarnou aqui (rs). Feliz aniversário, Nick Drake.


Man in a shed (vídeo fofo)



A place to be (letra fofa)



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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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