Princípios universais para além das culturas e das crenças

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A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem.
~Karl Marx~


As gerações futuras ficarão chocadas com o fato de nunca termos tido realmente consciência de que o problema político maior fosse o da igualdade dos sexos.
Essa consciência assinará o momento-chave da revolução.
~Françoise Héritier~

Nós, povos das Nações Unidas, resolvidos a proclamar mais uma vez nossa fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade dos direitos de homens e mulheres…

Tenho a convicção de que alguns princípios universais devem ser defendidos, proclamados e promovidos muito além das culturas e das crenças. Entre esses, a Carta dos Direitos Humanos é um texto fundador para toda a humanidade; e a humanidade inclui as mulheres – ou melhor, repousa sobre elas.

Todos nós, colaboradores deste livro, pensamos que nenhuma religião e nenhum costume justificam que se assassine, que se queime, que se torture, que se apedreje, que se estupre uma mulher só porque ela é uma mulher. Nenhuma religião, nenhum costume justifica que se mutilem as meninas, que as vendam ou as prostituam. Nenhuma religião e nenhum costume justificam que as mulheres sejam subjugadas, que sejam humilhadas, que sejam privadas dos direitos elementares do indivíduo.

Na França, na Europa, nas sociedades ocidentais, a condição das mulheres progrediu espetacularmente no decorrer do século XX. As mulheres conquistaram seu lugar com obstinação e ainda não terminaram de fazê-lo. Há duas gerações, podem controlar sua vida e ser donas de seu corpo – o que é uma verdadeira revolução. Em todos os lugares, ou quase, a lei garante à mulher a liberdade de controlar sua procriação, em todos os lugares, ela proclama a igualdade.

Não obstante, vemos claramente que, apesar de diplomas e competências comparáveis, a diferenciação das responsabilidades hierárquicas e das remunerações permanece. A escolha de trajetórias e de carreiras não é igualitária; as condições da vida cotidiana tais como são organizadas e financiadas por nossas sociedades também não o são. Aqui, os partidos políticos desdenham a paridade, preferindo pagar multas a conceder postos elegíveis a candidatas. Ali, redes e confrarias tecem com fios de vidro o telhado invisível que impede as mulheres de atingir os pontos mais altos. Assim que o poder se mostra, observem a foto: ele continua a usar gravata. A atenção dada à ascensão de uma Angela Merkel ou de uma Michelle Bachelet e os qualificativos usados para descrevê-las demonstram mais a exceção que a regra.

Assim que se deixa a cena pública ou as páginas frias das revistas para observar nossas sociedades em seu cotidiano, a realidade obscurece.

Humilhações, precariedade, violências conjugais, prostituição, criminalidade, desemprego, sexismo: as mulheres são sempre as primeiras vítimas. Pior: há entre nós zonas de sombra em que as mulheres vivem em estado de subordinação total, se não de escravidão, nos ambientes de imigrados em que os costumes desafiam a lei. De nada adianta que as jovens frequentem as escolas francesas: elas têm seu clitóris excisado, são obrigadas a usar véus, casadas à força, violentadas em suas escolhas mais íntimas. Para essas, como para as outras – o exemplo da França e dos países escandinavos prova isso -, somente a lei e sua incorporação no tecido social melhoram a condição das mulheres. Todavia, ainda resta muito a fazer, ainda que seja exigir a aplicação efetiva daquilo que foi conquistado.

Eis a situação do Ocidente. E em outros lugares?

Em outros lugares, mais da metade da humanidade, homens e mulheres misturados, curva-se perante o sofrimento. O sofrimento de ser pobre, mal-alimentada, doente, iletrada, explorada. Em primeiro lugar, o sofrimento de ter nascido mulher, que agrava todos os outros. Em todos os lugares, a condição das mulheres nos mostra a face mais negra das realidades contemporâneas. Elas são inferiores, simplesmente. Impuras. Servem apenas para serem submetidas, exploradas, espancadas, violadas, compradas, repudiadas. Destinadas ao silêncio, ao esquecimento. Em suma, desprezíveis e indignas.

Quisemos explorar, como a um continente desconhecido, essa condição de ter nascido mulher e de viver como tal. A ambição desta obra coletiva, para a qual contribuíram especialistas, escritores, jornalistas de todas as áreas e de todos os continentes, é trazer à luz, na diversidade dos costumes e das culturas, a condição das mulheres de hoje.

Livro negro: esse rótulo, tornado genérico, encontra todo o seu sentido com a situação das mulheres.

A engenhosidade das civilizações humanas em matéria de violências exercidas contra as mulheres não tem limites. Nós as percorremos em suas múltiplas dimensões: violências físicas, tanto em tempo de guerra quanto de paz, violências econômicas, sociais, políticas, religiosas, bem como psicológicas.

Seremos acusados de arrogância e de imperialismo cultural? Alguns, em nome da liberdade de pensar ou do respeito a todas as tradições, querem nos fazer admitir uma falta de respeito aos princípios universais que afirmam, especialmente, a igualdade do homem e da mulher. Conviria, para eles, em nossos próprios países, tolerar as infrações mais gritantes de nossas leis, quer se trate de excisão, quer de poligamia. Sob o pretexto de combater a globalização, seria preciso respeitar e promover o multiculturalismo, até em seus aspectos mais arcaicos e degradantes. Os puristas do etnicismo, que tremem ao descobrir relógios de pulso, celulares e preservativos femininos no coração da África, nada encontram para dizer sobre as práticas  mais degradantes, desde que sejam ancestrais: entre os zulus, verificação pública da virgindade das meninas; no Kerala, queima ou imolação das mulheres que se tornaram inúteis… Certamente, convém proteger e promover a diversidade cultural que faz a riqueza do mundo, mas não ao preço dos direitos humanos mais elementares. O que conta mais: a cultura ou o indivíduo? Mais precisamente, o que deve prevalecer: a cultura ou a mulher?

Promover as mulheres não é uma maneira de diminuir os homens: é, para nossas sociedades, a melhor garantia de equilíbrio e de progresso. Foram necessários três milênios para se chegar a essa constatação, compartilhada atualmente por todos os atores do desenvolvimento e aplicada – com maior ou menor constância ou hipocrisia – pelos diferentes líderes de nossos governos e de nossas sociedades.

“Uma coisa é certa”, escreve Françoise Héritier, do Collège de France, “as gerações futuras ficarão chocadas com o fato de nunca termos tido realmente consciência de que o problema político maior fosse o da igualdade dos sexos. Essa consciência assinará o momento chave da revolução.”

As mulheres são sua própria esperança e não podem contar senão consigo mesmas para mudar a sociedade. Cada vez que fazemos progredir o direito de todas, a humanidade dá um passo para um mundo mais justo.

Christine Ockrent, jornalista e escritora

OCKRENT, Cristine; TREINER, Sandrine (org.) O livro negro da condição das mulheres.
trad. Nícia Bonatti. Rio de Janeiro: Difel, 2011, p. 15-18.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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