Da introversão

introvert-manifesto
Às vezes acontece de alguém manifestar algum estranho espanto a meu respeito, tipo: “Você dirige!?!” E aí, claro, me espanto também: a imagem que transmiti a essa pessoa deve estar meio distante do que eu sou. “Modéstia à parte, acho que dirijo bastante bem”. E se você mostrar autoconfiança, percepção dos implícitos e disposição de reagir a eles, mesmo que com algum bom-humor, como numa resposta desse tipo, o julgamento pode virar, num piscar de olhos, de “incapaz” a “arrogante”. Mesmo quando não chega a tanto, é talvez impossível trazer à luz e desmontar um implícito sem causar certa dose de constrangimento. Então, seja por alguma delicadeza, por falta de reflexo imediato devido à surpresa ou por pouca disposição para se desgastar, você muitas vezes deixa para lá. Mas, sei lá, é como se quem fala menos ou mais baixo do que seu interlocutor fizesse isso por medo, desaprovação ou por alguma incapacidade de fazer o que a maioria das pessoas fazem. Ou como se o fato de você não falar muito com pessoas com quem tem pouco contato significasse que quase nunca fala, generalizações desse tipo. Na sociedade do barulho, do excesso e da espetacularização da vida íntima, o silêncio, a moderação e o gostar de estar consigo mesmo – por exemplo, de morar sozinho – parecem cair como algum tipo de debilidade, rejeição, desprezo ou ameaça. E isso me faz lembrar de ter visto, acho que num texto do antropólogo Bronislaw Malinowski, que em certas sociedades indígenas, o silêncio, o não falar, era sentido como ameaçador: daí certa primazia da função fática da linguagem, aquela que, digamos, consiste em falar não para comunicar algo, mas apenas para manter contato. O contato pela voz aliviaria tensões. Mais ou menos o que fazemos quando conversamos sobre o tempo com o estranho no elevador. Isso talvez seja instintivo e geral no convívio humano, e daí nos sentirmos em geral mais relaxados e acolhidos junto a pessoas mais faladoras. E reconheço que eu também sinto essa simpatia e acolhimento, exceto quando a extroversão e a falação são excessivos, inconvenientes e invasivos. Ao mesmo tempo, também sinto uma enorme paz na interação com pessoas que sabem ouvir e que falam com moderação, suave, cuidadosa, precisa e delicadamente. Por isso me surpreende ainda mais que um desses tipos de comportamento precise ser considerado mais normal ou desejável do que o outro. Categorizações são indispensáveis, eu acho: imagino que, sem elas, coisas importantes como a linguagem verbal não seriam sequer possíveis. Um problema é que delas aos estereótipos a distância pode ser pequena. E dos estereótipos aos preconceitos e às estigmatizações há um curto passo. Outro problema é que preconceitos costumam funcionar como pressupostos, e pressupostos são cruéis: como não são verbalizados, não estão abertos à argumentação, são simplesmente impostos como verdade, e a única saída para não concordar com a sua suposta verdade é identificá-los, explicitá-los e negá-los abertamente. E, como já foi dito, fazer isso raramente é tranquilo: na maior parte das vezes é uma situação tensa, de confronto, que causa pelo menos alguma dose de mal-estar. Crianças introvertidas, que sequer têm ainda desenvolvimento suficiente para detectar e questionar pressupostos, ficam muito sem ter saída ao receber goela abaixo um pressuposto como este: se você não fala muito, se você não vê muita graça em contar para todos aqueles tios e parentes que raramente encontra, as particularidades da sua vida, é porque tem algum problema de sociabilidade, alguma debilidade ou incapacidade de ser como as pessoas normais e saudáveis. Talvez – oh, horror – não goste de gente. Deve ser mais ou menos como para um homem, nesta sociedade que associa masculinidade a violência, receber desde pequeno a mensagem de que, se não desenvolver comportamentos violentos, é porque é um frouxo incapaz, e não porque, muito acertadamente, não vê sentido nisso e simplesmente não quer se dedicar à aprendizagem da violência. A recorrência desse tipo de mensagem – explicitada ou subliminar –  talvez possa mesmo, ao longo dos anos, baixar a autoestima e a autoconfiança. Então, pensar que introversão decorre de baixa autoestima pode ser confundir causa com efeito, o que, em casos de violência simbólica, é até bem típico, aliás. O post da Carmen Guerreiro, abaixo, põe às claras muito bem a existência de certa pressão subliminar para que todos tenham um certo tipo de personalidade ou de preferências de forma de se relacionar, sob pena de receberem o diagnóstico de esquisitos-problemáticos. Curioso também é que, se você começa a ler um pouco sobre o que em psicopatologia se chama justamente de “transtorno de personalidade antissocial” – um tipo de incapacidade de empatia com relação a outros seres humanos -, vê que esse tipo comportamento é mais tipicamente vinculado à extroversão, à eloquência, ao carisma, ao comportamento gregário e à invasão do espaço do outro, não à introversão e ao comportamento reservado. Alguns até explicam: a personalidade antissocial tem características parasitárias, quer dizer, de usar o outro para cuidar da sua vida por você, para resolver os seus problemas por você, apropriar-se do que é do outro como se isso fosse direito seu, ver o outro apenas como potencial plateia ou escada para suas pretensões, e coisas do tipo, causando prejuízos e sofrimento àquela pessoa, sem consideração pelos sentimentos alheios. E esse comportamento parasitário é mais eficaz se sua personalidade é socialmente sedutora e quanto mais ampla for a sua rede de relações. Para não cair aqui no outro extremo equívoco e injusto de estigmatizar o comportamento extrovertido, vale a ressalva de que parece natural e compreensível que todo mundo precise de outras pessoas, e que gostar de ser gostado também parece bem natural. Também, se me lembro bem de algumas leituras bem antigas, não é nada fácil traçar a linha entre o saudável e o patológico. Talvez ela se trace na medida em que certo comportamento é extremado e/ou provoca sistematicamente prejuízo e sofrimento, seja para o ator, seja para os que se relacionam com ele. Enfim, pela liberdade de não devermos todos ter – ou escolher – na maior parte do tempo o comportamento extrovertido, sem o efeito colateral da imposição de diagnósticos irracionais, agradecimentos à Carmen.

QUAL É O PROBLEMA DE SER INTROVERTIDO?

Por Carmen Guerreiro, no blog AnsiaMente, em 24/01/2013.

Mais de uma vez, eu digitava quietamente no meu computador no trabalho (para os que não sabem, sou jornalista e trabalho em uma redação, em uma editora de revistas, e redações em geral mantêm um nível razoável de barulho e conversa) quando o diretor de redação comentou com o meu chefe, na minha frente:

“Mas ela não fala, não?” ou “Que silêncio nesse canto aqui, hein?”

Eu fico sem graça. Me sinto na obrigação de dar uma justificativa para o meu comportamento recluso, ainda que o comentário seja uma brincadeira. Eu poderia ser uma daquelas pessoas que contam as piadas que todos dão risada, que fazem um comentário sagaz sobre a conversa geral, mas não sou.  Mas não é culpa do diretor de redação. Ele é uma pessoa bacana que apenas chamou atenção para uma opinião geral da sociedade: a de que extrovertidos são mais bem vistos do que introvertidos. Afinal, todos parecem gostar daquelas pessoas carismáticas, que têm um magnetismo natural, que falam bem em público, parecem estar cercados de amigos, sabem contar uma boa história.

Eu, por outro lado, sempre fui levada a acreditar que tinha algum problema comigo. Na escola e na faculdade, fazer trabalho em grupo era um terror. Eu pedia para fazer a tarefa individual, mesmo que o professor avisasse que o trabalho era difícil de ser feito sozinho. Seminários, então, eram um pesadelo. Na aula de educação física, eu sempre tinha uma desculpa diferente para não participar dos jogos e, quando tinha que participar, era a última a ser escolhida. Não se trata de ser popular ou não: sempre tive meus poucos e bons amigos, fui atrás dos meus interesses, nunca sofri bullying ou nada do tipo.

Mas é um fato também que sempre fui do grupo dos introvertidos, e que isso parecia ser colocado, na balança social invisível, abaixo do mundo dos extrovertidos. Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém me descrever como “tímida”. E por algum tempo acreditei nisso. Mas não sou tímida! Sou introvertida. Já ouvi muito também os outros me dizerem que “achavam que eu era toda certinha” antes de me conhecer direito. Por quê? Por que eu não grito, não sou vulgar, não me exponho?

Não quero sair de balada todos os dias. Não quero conversar no ônibus ou na fila do banco com estranhos. Não quero amizades superficiais. Me irrito com papo-furado, conversinha fiada sem sentido. Sabe aquela conversa de elevador? Pois é, detesto. Não quero participar de um teatro interativo com a plateia. Prefiro ler um livro, cozinhar e navegar na internet a participar de atividades coletivas. Me expresso melhor escrevendo do que falando. Não gosto de falar no telefone. E por isso passo por chata, antissocial, arrogante, tímida e esquisita.

Ao mesmo tempo, invejo secretamente os palestrantes do TED, admito que queria saber como contar uma piada e que me sinto solitária às vezes, e que gostaria de ser uma pessoa um pouco mais desenvolta. Às vezes me sinto inadequada socialmente ou, como uma expressão em inglês define muito bem, unfit (fit é aquilo que cabe, que está na forma certa, e unfit seria algo que não encaixa).

Existe algo de errado com tudo isso? Eu padeço do mal de ser antissocial? Me fizeram acreditar que sim, mas começo a achar que não. Estou lendo o livro Quiet: the power of introverts in a world that can’t stop talking (no Brasil foi publicado como O Poder dos Quietos), que desde a primeira linha foi uma grande “Eureka” para mim.

A autora Susan Cain, ela mesmo uma introvertida, defende que se todos fôssemos extrovertidos ou todos introvertidos, o mundo não daria certo. Ou seja: sem a diversidade, não haveria sucesso.

Como exemplo disso, ela conta a história de Rosa Parks, considerada a mãe do movimento de direitos humanos nos Estados Unidos por ter se negado, em um belo dia, a se levantar do seu assento no ônibus para dar lugar a uma mulher branca. Ela levantava todos os dias, mas naquele decidiu não levantar. Por isso foi presa, julgada e condenada. Isso foi o estopim para o movimento que deu aos afroamericanos direitos iguais aos brancos do país, pois quem saiu na defesa de Parks foi ninguém menos que Martin Luther King Jr. A conclusão é: se um ativista extrovertido como ele tivesse se negado a ceder um assento no ônibus, o efeito teria sido menor. Quem precisava dizer basta era aquela senhora introvertida, quieta, mirrada. Mas quem precisava pegar o microfone e dizer “Eu tive um sonho” era o reverendo.

A questão é que vivemos sob o “ideal extrovertido”, conforme explica a autora. É uma mentalidade que coloca o comportamento “alfa”, que gosta dos holofotes, como ideal social. Prefere ação à contemplação, certeza à dúvida. Isso faz com que introvertimento, junto com seus primos sensibilidade, timidez e seriedade, estejam, segundo Susan, entre uma decepção e uma patologia. Quem já não ouviu, afinal, pais se desculpando pelo silêncio e timidez do filho para os amigos, ou até mesmo para estranhos? Por que crianças tagarelas são mais queridas e tidas como mais inteligentes? Afinal, Einstein só foi começar a falar aos 6 anos!  Na escola também somos  encorajados a “sair da toca” e nos abrir, como se a reclusão fosse uma atrofia social, uma deficiência.

Susan observa, ainda, que muito do que influencia no modo como pensamos e vivemos hoje partiu de pessoas introvertidas, como a teoria da evolução, os quadros de Van Gogh, a invenção do computador pessoal, as composições de Chopin, alguns dos clássicos da literatura, o Google. A lista é infindável.

O livro traz também um teste interessante (com nenhuma relevância acadêmica, mas interessante mesmo assim) para saber se você é extrovertido ou introvertido (responda “sim” ou “não”):

Veja o teste e leia o restante do post aqui.

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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6 respostas para Da introversão

  1. Aline Moraes disse:

    Você se considera uma introvertida, Ani? Não sei bem aonde me “enquadro”, mas me identifiquei muito com um dos mandamentos: “Sometimes it helps to be a pretend-extrovert. There’s always time to be quite later”.

    • Ani disse:

      Oi, Aline. Também não sei bem onde me enquadro e também me identifico muito com o “mandamento” que você menciona, e nem diria que é “fingimento” exatamente. No teste, marco “sim” para a maioria das coisas, então, de acordo com ele, eu teria muitos traços de personalidade introvertida. Há coisas bem claras, por exemplo, acho que me expresso melhor por escrito, tendo tempo para elaborar as ideias. Por outro lado, lido com falar em público melhor do que a maioria das pessoas, até porque minha vida me demandou lidar bem com isso. Prefiro não falar sobre minha vida privada com quem não seja meu amigo. Em geral, prefiro não trabalhar em grupo, mas lidava bem quando tinha que fazer isso. E se o grupo era afinado, achava melhor do que trabalhar sozinha. Muitas vezes estar sozinha num ambiente tranquilo é a forma que prefiro de “recarregar as baterias” (será que não é assim para a maioria das pessoas?). Quando era adolescente saía muito à noite para baladas, já não é o que prefiro fazer como lazer. Para falar a verdade, essas dicotomias tipo “introvertido x extrovertido” normalmente parecem simplificadoras demais. Não sei se o que predomina não é que todas as pessoas tenham um pouco das duas “polaridades” e manifestem isso de forma diferente dependendo das situações, dos momentos da vida e dos grupos (com quem se tem menos afinidade, com quem menos). Mas certamente eu não diria que sou a típica pessoa extrovertida.

  2. Luciana disse:

    Oi, ainda nao consigo levar isso numa boa:/ ontem mesmo me aconteceu algo desse tipo no trabalho, de um superior falar na frente de todos pq sou tao quieta? e os outros me olham curiosos, nossa fico sem reação, sem saber o que falar! isso me magoa demais, me ofende! sabe o que eh pior? tem gente MAIS quieta que eu, e pq logo vao mexer comigo? eu atraio isso, que desanimo!

    • Ani disse:

      “tem gente mais quieta que eu…” Pois é, Luciana, suspeito que essas etiquetas de “quieta” etc. têm a ver com outras coisas que fazem projetar estereótipos e distorcem um pouco a percepção das pessoas sobre as outras: volume de voz, altura, compleição e postura física, jeito de se vestir, ser homem ou ser mulher… Embora eu tenha vários dos traços listados como sendo de personalidade introspectiva, muitas vezes (mas muitas mesmo), tenho comportamentos quase opostos a essas descrições, por exemplo, quando um assunto me entusiasma e/ou é polêmico, sou tagarela à beça, compro briga, não tenho problema de colocar meu ponto de vista, a ponto de ter tido que fazer esforço consciente para aprender a não cortar a fala de outras pessoas e também ouvir. Mesmo assim, as pessoas frequentemente me rotulam de “quieta”, “tímida”… Vai entender. E rótulos são assim: uma vez grudados em você por alguém, tendem a se difundir e perpetuar sem muito questionamento, como um papel de sucesso “gruda” para sempre em certos atores.

  3. Clarissa disse:

    pois é…no ambiente de trabalho as pessoas estão sempre tirando ”gracinhas” comigo pelo fato ser quieta. Sou assim, gosto de estar só, me divirto lendo um livro, ouvindo uma música, estudando e jogando em meu canto em vez de estar em uma balada. Fico estressada em ambientes cheios de gente e/ou com muito barulho, prefiro me socializar com um grupo pequeno de pessoas, tenho poucos amigos, mas são verdadeiros; não gosto de falar trivialidades e besteiras como certas pessoas e com isso acabo sendo taxada como uma individualista que vive no seu próprio mundo, na sua ”concha”.
    É claro que sei socializar, apresentar trabalhos e tenho uma boa oratória, mas não gosto de ser o centro das atenções, não quero chamar atenção e não tenho nenhuma necessidade disso. Sou introvertida, infelizmente isso é visto com maus olhos pela sociedade. Espero que isso mude, afinal de contas é muito ruim fingir ser ou tentar ser uma coisa que você não é.

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