E o Rio inventou a marchinha…


Uma tentativa de reunir as marchinhas que fizeram parte dos meus carnavais. Alguma vai ter faltado, certeza. Não incluí as que não eram familiares para mim. As únicas que fogem a esse critério são as “Touradas em Madrid”, que conheci por causa do espetáculo Sassaricando, e “Aqui Gerarda”, do Adoniran Barbosa, encontrada agora na busca pelo YouTube, porque gostei especialmente delas. Tem uma boa seleção no canal de O Senhor da Voz. Descobri que tenho uma preferida, “Pó-de-mico”. Pelo ritmo e melodia, não pela letra. Aliás, as letras às vezes são meio lamentáveis. Complemento, no final, com um texto do Maykon Sousa, um desses textos que são ótimos porque explicitam bem o óbvio que parece não ser sempre claramente percebido: marchinhas são antiquadas, muitas delas são preconceituosas, e não é um gênero que pareça estar se renovando com o tempo. Concordo em boa parte com ele. Enquanto fazia a compilação, pensava em como algumas das letras despejam tradicionalismo tacanho… Escapam principalmente as que brincam com personagens do carnaval, como “Allah-lá-ô”. Mas, talvez em parte por memória afetiva mesmo, adoro essas marchinhas antigas. Fazer o quê… São satíricas, debochadas, gozadoras, se armam sobre duplos sentidos, pensei, lendo o texto do Maykon. Por isso, marchinhas parecem terreno fértil para críticas inteligentes e para humor linguisticamente engenhoso. Quem sabe, com os blocos de rua novamente pipocando, uma renovação legal não acontece, e não começamos a ter novas sátiras, com base em valores e assuntos mais atuais, tanto quanto novos jogos de linguagem e de cenas carnavalescas criativos e divertidos (estes últimos, sejamos justos, várias dessas marchinhas antigas têm sim). De olho nelas. O principal aspecto em que discordo do Maykon: não vejo problema puramente em que algo não mude. Afinal, cultivar uma memória parece ser uma parte essencial da “cultura”. Alguém lamenta que se continue lendo Machado de Assis ou ouvindo Cartola, porque “os tempos são outros”? Ou se trata de voltar a cair na armadilha de olhares diferentes para o que é “cultura séria” e o que é “cultura de segunda categoria”? E se o tradicionalismo está na moda, como ele meio que lamenta, está também muito na moda hoje em dia que tudo precise ter ares de novidade. Na minha modesta opinião, essa outra moda, a da inovação compulsiva, também tem seu lado acrítico e tremendamente aborrecido. Uma cultura saudável talvez seja uma delicada alquimia entre tradição e renovação.
Ô abre alas – Chiquinha Gonzaga Turma do funil – Miúcha, Chico e Tom
Sassaricando – Virgínia Lane Cidade Maravilhosa
Pierrô apaixonado – Joel & Gaúcho Máscara negra – Dalva de Oliveira
Bandeira branca – Dalva de Oliveira Taí – Carmen Miranda
Chiquita Bacana- Emilinha Borba Mamãe eu quero – Carmen Miranda
A jardineira – Orlando Silva Tomara que chova – Emilinha Borba
Cabeleira do Zezé – Jorge Goulart O teu cabelo não nega – Castro Barbosa
Cachaça – Carmen Costa e Colé Daqui não saio – Vocalistas Tropicais
Pirata da perna de pau – Nuno Roland Touradas em Madrid – Trio Iakitan
Pó-de-mico – Emilinha Borba Marcha do remador – Emilinha Borba
Mal-me-quer – Orlando Silva Quem sabe, sabe – Joel de Almeida
Vai com jeito – Emilinha Borba Aurora – Joel e Gaúcho
Maria Escandalosa – Dalva de Oliveira Saca-rolha – Zé da Silva
Me dá um dinheiro aí – Moacir Franco Linda morena – Lamartine Babo e Mario Reis
As pastorinhas – Sílvio Caldas Linda lourinha – Braguinha
Índio quer apito – Walter Levita Allah-lá-o – Carlos Galhardo
Pegando fogo – Bando da Lua Nós, os carecas – Anjos do Inferno
Transplante corinthiano Coração de jacaré
Marcha do Cordão do Bola Preta – Carmen Costa Aqui Gerarda – Adoniran Barbosa
1959 – Pot-Pourri de Carnaval Pout-Pourri Marchinhas de Carnaval – Seu Jorge
POBRE ZEZÉ
Maykon Sousa
No blog Amenidades Crônicas, via Maria Frô
Em primeiro lugar, preciso dizer que adoro Carnaval. Desde garoto. Sempre me encantaram os sambas, os blocos na rua, a pouca roupa e os quatro dias sem aula, a recolher confetes e serpentinas pelo chão nos bailes matinê.
Mas, não há como fugir, devo confessar que odeio as marchinhas de Carnaval.
Houve um tempo em que eu vibrava, gritando a plenos pulmões “Bicha, bicha”, quando alguém contava a história da cabeleira do Zezé, e fazia coro pedindo sinceridade à Aurora, aquela ingrata.
Mas, de uns tempos pra cá, elas têm me irritado profundamente. São como aquele senhor que repete uma história pela milésima vez, dando sempre a mesma entonação.
É sempre o Zezé, que não sabem se é ou não é, é a menina perdida no deserto do Saara, é a morena que passou perto de mim e que me deixou assim…
Memória afetiva é algo terrível mesmo. Faz com que achemos que uma coisa boa há 40, 50 anos, ainda continue no contexto.
A sequência Me dá um Dinheiro Aí / Mamãe eu Quero / Alalaô /, está para o Carnaval, como Bate o Sino / Noite Feliz / Então, é natal / está para o mês de dezembro.
As machinhas são a Simone do Carnaval!
A culpa, aliás, pode estar aí: no tradicionalismo.
Está na moda ser tradicional. Não há nada mais original do que tentar – ainda que na marra – manter as coisas como sempre foram.
Mesmo o que era ruim, damos um jeito. Pintamos com cores melancólicas que disfarçam qualquer imperfeição e vendemos a história um pouquinho alterada. “Ouvir marchinhas é relembrar a beleza e a inocência dos antigos carnavais”, dizem muitos.
Porque não se renovam, apenas envelhecem, as coisas podem ser chamadas de belas e inocentes? Como um senhor que aprontou todas na juventude e, hoje, se esconde por trás de belos e irretocáveis cabelos brancos.
Pense comigo: em que década, um homem de cabelo comprido era considerado homossexual? 1920, 1930? De lá pra cá, tanta coisa aconteceu: a moda do cabelo curto, do comprido, os carecas passaram a ser charmosos, vieram os Black Powers e houve uma corrida desenfreada pela máquina zero.
Neste início de século, há quem use presilhas, tranças e chuquinhas, e nem por isso leve fama semelhante.
Que inveja teria o tal Zezé…
E o que dizer da preconceituosa “O Teu Cabelo não Nega”?
“Mas, como a cor não pega mulata, mulata eu quero o teu amor”.
Cor não pega, amigão? Por um acaso é doença? Parou no tempo!
São por essas e outras que eu broxo quando começam as sequências de marchinhas. Aproveito para ir ao banheiro, comer alguma coisa e esperar até voltarem a tocar o samba – esse, sim, sempre se renovando, mantendo-se atual, goste você ou não.
Enquanto isso, espero a turma encontrar o saca-rolha, salvar a menina perdida no deserto e terminar o julgamento do Zezé.
Pobre Zezé…

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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2 respostas para E o Rio inventou a marchinha…

  1. Maykon disse:

    Olá, Ani,
    fico feliz que tenha lido o texto e concordado com alguns pontos.
    A ideia é essa mesmo: refletir sobre a dificuldade que temos de nos renovar. Não quero demonizar as marchinhas. Nada disso. Só acho que elas revelam uma característica nossa (do ser humano, não só do brasileiro) de se apegar demais às tradições, mesmo as que não acrescentam muita coisa.
    Quanto ao Machado e ao Cartola, acredito que sejam casos à parte. Não há, na literatura do primeiro e na música do segundo, elementos que os aprisionem à determinada época. Seus temas são absurdamente atuais, tratados de forma atual e sob uma estética que sempre esteve à frente de seu tempo, características raras em qualquer campo e totalmente inexistentes nas marchinhas. Não é à toa que os contos do Machado servem, até hoje, para argumentos de filmes e as canções de Cartola são regravadas a torto e a direito.
    Não acho que temos que ter novidade sempre, mas é interessante que a gente faça uma leitura constante do nosso tempo. Por isso, concordo plenamente com você quando diz que ‘uma cultura saudável talvez seja uma delicada alquimia entre tradição e renovação’.
    A propósito, gostei bastante do seu post. Conheci algumas marchinhas que nunca tinha escutado. Na maioria dos lugares, fora do Rio de Janeiro, são tocadas sempre as mesmas, o que torna a coisa ainda pior nesse tal Carnaval tradicional.
    Abraço!
    Maykon

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