Sísifo, ou o desafio de remodelar trabalho e vida


Domenico de Masi, sociólogo e escritor italiano,
autor de O ócio criativo,
no Roda Viva, 21 de janeiro de 2013.
Via tuíte de Antonio Ozaí


O pior inimigo do capitalismo é o capitalismo, porque o capitalismo está traindo a si próprio.

O capitalismo parte de alguns pressupostos. Não estou falando do capitalismo de Adam Smith, nem de Max Weber. Estou falando do capitalismo real: aquele que foi praticado principalmente nos Estados Unidos, e que depois serviu de modelo para todo o resto do mundo. Esse capitalismo teve algumas premissas não demonstradas, axiomas.

A primeira premissa é que o crescimento pode ser eterno, pode ser infinito. O capitalimo nunca levou em conta as matérias-primas… porque quando precisava de matéria-prima, as roubava dos países pobres. Roubou do Brasil durante muitos séculos. Portanto o capitalismo habituou-se a considerar infinitas as matérias-primas, ininito o oxigênio, infinita a água… Tudo infinito. Primeiro axioma.

Segundo axioma é que a eficiência é infintia. Podemos aumentar nossa eficiência ao infinito, sem nos preocuparmos com o stress, se nos preocuparmos com a dificuldade de metabolizar tudo isso.

E o terceiro axioma é que tudo isso funciona se há uma forte concorrência. Uma concorrência levada ao extremo. Uma empresa fica feliz quando consegue fechar uma concorrente, se consegue levar à miséria todos os concorrentes.

E outro axioma posterior do capitalismo, ainda, é que os seres humanos podem consumir indefinidamente. A publicidade induz a necessidades sempre maiores. Os bancos financiam para atender a essas necessidades. Os produtos das nossas fábricas são cada vez mais frágeis. Assim temos que tocá-los continuamente. Neste momento está sendo vendido o iPhone 5. Há milhares de pessoas que têm o iPhone 4. E se sentem pobres, ultrapassadas, porque queriam comprar o iPhone5. Não se sabe qual é a diferença. A publicidade diz que ele é alguns milímetros maior. Mas todos querem o iPhone5, porque existe o mecanismo da publicidade que cria esses desejos. Os bancos nos financiam e depois acabam falindo, criando grandes desastres como o que os bancos americanos criaram, que se alastrou praticamente por todo o Ocidente.

Um outro problema importante do capitalismo é a distribuição da riqueza. O capitalismo não é mais capaz de redistribuir a riqueza. Na Itália há dez pessoas, exatamente dez pessoas físicas, que têm uma riqueza equivalente à de três milhões de italianos.

Quando a Olivetti era dirigida por Adriano Olivetti, Adriano Olivetti criou a regra de que a remuneração do Presidente – isto é, do próprio Adriano -, poderia ser no máximo cinco vezes superior à de um operário. Quando ele faleceu, Valletta, da Fiat, elevou esse limite a vinte vezes. Valletta ganhava como vinte operários. Neste momento, Marchionne ganha tanto quanto 1.070 operários. Neste momento, Berlusconi, na Mediaset, ganha tanto quanto 12.000 operários. Essa é a morte do capitalismo. Porque evidentemente Berlusconi, ganhando tanto quanto 12.000 operários, não pode usar 12.000 paletós, 12.000 calças, 12.000 sapatos… E todo o consumo se reduz.

O grande inimigo do capitalismo é o capitalismo doente que neste momento está dominando.

Nós não temos hoje um problema de “retocar levemente” o nosso modelo de vida. Nós temos um problema novo, inédito, extraordinário, de criar um modelo amplamente novo. Esse é o novo grande desafio da humanidade. Os modelos existente estão todos em crise.”
(dos 20 aos 25 minutos)

“Talvez o Brasil possa candidatar-se como elaborador de um novo modelo.”
(aos 27 minutos)

“Acredito que precisamos criar um programa de vida totalmente novo,
baseado na maior dignidade humana, na menor distância entre ricos e pobres,
na difusão da cultura permitida pelas novas tecnologias.”
(aos 36 minutos)

“Vivemos num mundo maravilhoso. Os inimigos da beleza somos nós.”
(aos 38min30seg)

“O Brasil é o país que, mais que qualquer outro, deve mobilizar os próprios intelectuais para criar um novo modelo que sirva para tornar toda a humanidade mais feliz.
O Brasil tem as condições para fazê-lo.”
(adaptado, aos 39 minutos, e é o que diz há tempos nosso profeta Gilberto Gil)

“A cultura grega e a cultura renascentista colocavam no mais alto nível da ação humana a política. Porque a política é a arte de projetar o futuro, de projetar um mundo diferente para as próximas gerações, a arte da estratégia que se reflete nos anos por vir (…)
Aconteceu que a economia engoliu a política e a finança engoliu a economia (…)
Temos também que reformar o método pelo qual a humanidade projeta seu futuro.
A arte do planejamento é fundamental e requer criatividade.”

(aos 48 minutos)

“Um fato: este não é o melhor dos mundos possíveis,
mas certamente é o melhor mundos que já existiu até hoje (…)
Nós não devemos nos contentar com isso, evidentemente, mas avançar.
Temos sempre que ser revolucionários com relação ao presente
para obter um futuro melhor. Eu procuro sempre estudar a História.
Quem diz que hoje temos um mundo terrível, não estudou o mundo anterior (…)
O criativo nunca é um pessimista…
sem ser, no entanto, um otimista simplista, ingênuo, sem consistência.
Ser historiador é entender o que de bom foi conquistado. Para defendê-lo.”

(Aos 55min50seg. Era mais ou menos esse, Galeano, o meu aturdimento…)

“A agressividade hoje é mais dos ricos contra os pobres e mais dos idosos contra os jovens. Há uma agressividade difusa, há um novo sentido da luta de classes. Não são mais os pobres que lutam contra os ricos, mas os ricos que continuamente lutam contra os pobres, por meio das finanças, das demissões, por meio da redução do trabalho a trabalhinhos insignificantes. Você estuda para se formar e depois trabalhar num call center, onde passa toda a vida sem criatividade nenhuma. Antes, um operário analfabeto passava a vida toda numa linha de montagem. Hoje coloca-se na linha de montagem dos call centers pessoas que estudaram, e têm um motivo a mais para se sentirem infelizes, porque são conscientes.

Existe uma descrição belíssima do mito de Sísifo. Sísifo era um intelectual da Antiguidade grega que queria usurpar os segredos dos deuses. E, sendo ele um intelectual, é punido com uma pena material, contam o mito grego e Dante. Qual é essa condenação? A de levar – ele que era um intelectual -, levar uma rocha pesadíssima até o topo de uma montanha. E quando chegava ao topo da montanha, a pedra caía, e ele tinha que descer e voltar a levá-la para cima. E, segundo Dante e o mito grego clássico, Sísifo sofre quando está subindo a montanha. Mas na metade do século XX, Camus faz uma interpretação completamente original do mito de Sísifo. Ele se pergunta: Sísifo sofria mais na ida ou na volta? Sofria mais quando tinha que levar a rocha ao topo e, sendo um intelectual, concentrava toda a sua força, energia, inteligência para fazer esse esforço, ou sofria mais na volta, quando a rocha tinha rolado para baixo e ele votava, sem esforço físico e e tendo toda lucidez para refletir sobre o fato de estar condenado por toda a eternidade a um trabalho inútil e sem esperança? Pois bem: a única coisa negativa de hoje em relação ao século XIX é que nós, sendo mais cultos, tendo mais meios de comunicação e de informação, temos maior capacidade de refletir sobre os problemas da humanidade, sobre a infelicidade humana. Aqueles que são capazes de refletir sobre isso são mais numerosos e mais cultos. Nós não somos mais o Sísifo que leva a rocha até o topo da montanha; nós somos o Sísifo que desce a montanha sabendo estar condenado a um trabalho inútil e sem esperança. Para vencer tudo isso, Sísifo precisa tornar o seu trabalho, não mais inútil, mas útil; não mais desesperançoso, mas vital e feliz. Portanto temos que recomeçar remodelando o trabalho e remodelando a vida. Sem fazer distinção entre essas duas coisas, sem saber quando estamos trabalhando, quando estamos estudando ou quando estamos nos divertindo. Em todos os momentos da nossa vida, mesmo quando estamos dormindo, em nossos sonhos, estar contribuindo para o progresso humano (…), pensar em como resolver o problema humano para tornar os seres humanos mais felizes.”
(à 1horae21minutos)


Anúncios

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Debates e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s