De Natal e Ano Novo



paulo brabo christmas

Foto: Alice in Christmas Wonderland, de Paulo Brabo.
Clique aqui para ir à fonte da foto e aqui para ouvir a canção de mesmo título



CHRISTMAS AND NEW YEAR IN WONDERLAND
(ou interminável descrição exemplificadora dos fantásticos
hibridismos contemporâneos de seres sagrados e estares profanos)

canga que estampa fitinhas
do Senhor do Bonfim da Bahia
e veio do Mercado de Salvador
[abaixo do Pelourinho, descendo pelo elevador]
agora no canto direito de uma gaveta
foi o que saiu primeiro da sala
porque não estava no altar de Ano Novo
só era pano de fundo substitutivo de toalha de mesa
para o vinho frizzante, italiano como o molho bolonhesa
da macarronada [que no entanto tinha seis cravos-da-índia]
para petiscos que iam de paçoca e salgadinhos de milho a frutos secos
incluindo fatias de pão torrado ao forno com alho e azeite, claro
e evidentemente também não teriam faltado as velas

corações de malaquita, verdes
corações de cristal rosa
pedras de quartzo
menos transparentemente rosa
s
dois de cada de tudo isso
e uma só pirita-ouro-de-tolo
até que bastante dourada
agora em outra das gavetas [a de pijamas]
foram as coisas que de fato saíram primeiro
considerando o que estava no sofá
e compunha propriamente o desafiante altar

a flor de lótus de cristal
do templo budista chinês de Cotia
voltou a estar protegida por folha de isopor
na caixa quase cúbica azul marinho
em uma terceira gaveta ainda

de azuis em vários tons
[azuis esses todos celetiais separados com linhas de bronze
e um ou outro detalhe vermelho permeando]
o vaso chinês de cloisonné
foi para a caixa verde de estampa delicada
[porque é muito delicado quase tudo o que é chinês
exceto o tratamento dado a humanos,
especialmente se nasceram femininos]
antes envolto parte em papel de seda
parte em plástico de bolhas
enquanto se concluía arriscadamente
que não deve mesmo haver beleza de artifício humano
mais bonita que cloisonné chinês

cristal transparente quase esférico
em lapidação muito multifacetada
[mais que diamante]
descansa de novo sobre o rack
ao lado da televisão quebrada
há anos puramente decorativa
por pura preguiça de encontrar
quem leve embora
esse treco nunca consertado
e nunca mais desejado

frasco miniatura de perfume rosado
em que se lê em inglês “milagre”
cercado pelos dois lados
de outros frascos miniatura
em total seis
alguns comercialmente formados em formas
de lâmpadas mágicas de Jeannie e gênios
na caixa Paris Premiere Collection
 que estava também com a caixa Givenchy
esta porém esteticamente bem mais quadrada
com cinco outros frascos em miniatura
aquela agora sobre esta
já ao fundo no canto esquerdo da gaveta primeiramente mencionada
de bugigangas que são quase todas menos
mercadologicamente nobres que esses perfumes

porta-joias chinês
de seda em dois tons
de rosa diferente fora e dentro
dentro espelho retangular na tampa
por fora flores e aves paradisíacas
com delicadas
[como quase tudo o que é chinês]
longas caudas bordadas
em amarelo e verde pastel
guardando brincos
de vários materiais e estilos
que quase nenhum é joia
caoticamente amontoados juntos lá dentro
com um único anel
de formatura, herdado por via materna
este sim joia de ouro amarelo
detalhe de ouro branco
em torno de uma safira azul retangular
dois diamantes redondos ladeando horizontais
ouro branco também
na coruja e na ampulheta de cada lado vertical
joia-anel quase nunca usada
exceto caseiramente como agora
enquanto se escreve isto
só para redimir da desfeita de tanto descaso
com anel herdado de mãe
competentemente letrada e letradora
mas é assim: tem gente que gosta muito de brinco
e muito pouco de usar anel
menos ainda se é formal
como é anel de formatura

dois maços de fitinhas do Senhor do Bonfim
estas sim autenticamente fitinhas em si mesmas
[não estampadas em tecido de canga]
saem em seguida do altar forjado no sofá
da parte do braço esquerdo
antes compartilhado com sete patuás
e dois terços
um marrom de São Francisco da Pampulha
mistura de Francisco de Assis de quem quase todo mundo gosta
porque era humilde pobre louco que amava os animais
com Pampulha do Niemeyer, de quem muita gente gosta
inclusive porque era comunista, bem menos que São Francisco, claro
[nem Jesus foi mais comunista que seu imitador Francisco]
o outro terço que simula pérolas brancas
e é de Santa Teresinha, bento
na igreja católica da rua Maranhão
evidentemente uma igreja de Santa Teresa do Menino Jesus
para quem os fiéis levam rosas todo primeiro de outubro por que é seu dia
e por alguma hagiografia rosácea que eu nunca lembro

fitinhas aquelas que se misturaram agora
ao mesmo conjunto de quinquilharias nobres e menos nobres
juntas naquela gaveta com os perfumes
e porta-joias sem joias, mas chinês
os dois terços aqueles que agora se separaram
das fitinhas aquelas em dois maços
indo os terços para a gaveta de pijamas
mesmo lugar dos sete patuás aqueles
que são quatro deles mais bonitos e do Pelourinho
com detalhe de renda
Oxalá, branco e branco
Iemanjá, celeste e azul marinho
Oxóssi, verde e vermelho
Oxum, amarelo e amarelo um pouco mais claro
sem nomes escritos estes quatro patuás
que têm seu lugar profano no fundo falso
duma caixinha de papelão azul e rosa
de colar Morana dourado de três flores
presenteado por uma pessoa presenteira
e os três patuás sem renda
do Mercado de Salvador
Xangô, bordô com costura branca
Ogum, azul com costura vermelha
Oxumaré, amarelo bem palidecido de lima-da-pérsia
com costura verde escuro de limão
estes patuás sim com respectivos nomes alinhavados toscamente
nas mesmas cores secundárias das linhas das costuras
[mas todos os sete com os devidos búzios]
estes três últimos com seu lugar cotidiano
em outro lugar da mesma gaveta de pijamas
dentro dum saco de plástico meio grosso
que não se sabe se é azul ou cinza

lá também com os pijamas volta
devidamente recolhido sobre si mesmo
o leque Made in China
de madeirinhas bem finas
picotadas como rendas
[delicadamente como quase tudo o que é chinês]
em quatro diferentes geometrias de cima até o meio
que fechado cabe bem na caixinha de papelão bem alongada
verde e desmilinguida de andar no carro sem ar-condicionado
com desenhos pretos e ideogramas chineses na etiqueta amarela
[incompreensíveis como todo ideograma chinês
compreensível no entanto o inglês Made in China]
leque que veio da China indiretamente
pelo mesmo templo budista chinês Zulai de Cotia
de onde veio também a flor de lótus furta-cor de cristal

na sequência sai do altar
[excentrismo injurioso a cada religião aludida]
um centro de mesa branco de Santiago de Compostela
com renda galega tão delicada como quase tudo o que é chinês
que esteve antes estendido no assento
indo direto para a dita gaveta de bugigangas
e sai logo depois o xale chinês de Xangai
que cobria os dois almofadões do encosto
e é um longo retângulo de seda
tão fina que é só transparência, e bege
exceto nos bordados bem coloridos
[bem coloridos como quase tudo o que é chinês]
exatamente como devem ser as cores de dois pavões
cada um com sua cabeça, e são duas portanto
as cabeças simétricas que se encontram no centro
cada pavão também com sua cauda
e são portanto duas as caudas de pavão
que se desdobram nas direções opostas
dos extremos esquerdo e direito
alongando-se simétricas e abertas de perfil
tendo as duas cabeças de pavão perto delas flores cor-de-rosa
[em pontos um pouco avermelhadas]
e este xale chinês normalmente fica
na parte do armário que tem blusas de inverno de lã

e aí sai bem no final o saquinho de seda
salmão e vinho e dourado e indiano
que a amiga mais duradoura e estavelmente amiga
mística e outra presenteira
achou quando viajou para o Rio de Janeiro
só para abraçar uma Ama amorosamente abraçadora
e o saquinho indiano agora abraça vários brincos
tanto quanto o porta-joias de seda chinês sem joias

outros cinco ou seis
objetos pequenos simbólicos mais secundários
de origem assim mesmo bem variada
e naturezas também bem diversamente coloridas
saem por fim da confraternização internacional
que encenava o sagrado, num altar no sofá da sala
– distribuindo-se por assento, encosto e dois braços  –
piada de mau-gosto na passagem de ano
ou diversão estética para o inconsciente, não sei
indo ocupar cada símbolo seu lugar profano normalmente
nas mesmas várias gavetas já gastamente mencionadas

além do que é propriamente o sofá
agora ficou nele só o que sempre fica lá
a saber duas almofadas-sachê
em forma de coração vermelho e rosa
que também devem ter sido inspiradas na Jeannie
mas agora na cor das roupas dela
com perfume de hortelã uma e de alfazema a outra
presentes da mesma amiga que um dia foi abraçar a Ama
[e bem se vê que gosta de dar presentes de formato amoroso
pois foi também quem deu os corações verdes e rosas do início]
e, a saber também, um livro enorme
que tem principalmente imagens enormes
da deusa budista Tara tibetana em suas várias cores
e se intitula Deusas da Galeria Celestial

conclui-se com um pim bem agudo mas muito harmonioso
da bolinha de madeira em cabo de madeira
contra a barrinha oriental de metal bem prateado
que fica suspensa sobre um filão fino de madeira clara quase como marfim
presente místico da seguradora Porto Seguro
[provavelmente porque dizem que esse som chama ajuda de anjos]
e fica num saquinho que só poderia ser, como é
azul profundo como céus noturnos de Van Gogh
e terminou-se então o ritual de desmonte altariano

se Nossa Senhora Aparecida não foi mencionada
é porque não estava no altar de Ano Novo
a padroeira do Brasil
está permanentemente pendurada no pescoço
já que sendo simbolicamente mulher e negra
sendo joia como quase nunca são os brincos no porta-joias chinês
com ouro amarelo, ouro branco
manto de minúsculas safiras de azul profundo
mínimos diamantes na bainha do manto
tem artifício humano precioso como ser humano normalmente não recebe
nem sequer no quase sempre delicado colorido mundo das coisas chinesas
nem em quaisquer mundos de carne e osso
o que equivale a dizer que nem aqui nem na China
menos ainda quem nascer feminina
mas delicadeza colorida talvez salvasse o mundo

ainda estão na sala de estar
cada qual sobre uma das duas caixas de som
uma árvore de Natal pequena
verde com maçãzinhas vermelhas
e um Papai Noel de pilha que canta
Merry Christmas e outras ingresias
enquanto anda tropeçando em si até cair logo de cara no chão
 tendo na mão direita uma varinha de condão
de ponta de estrela dourada de cinco pontas
Papai Noel que eu não compraria
mas gostei de morrer de rir
porque foi também presente
de gente amorosa com mania de presente
que neste caso presenteia sempre
alguma coisa natalina todo o Natal
como em 2010 as luzinhas coloridas piscantes
para pendurar na sacada
que vão continuar lá luzindo nas noites
com o resto do que de natalino restou na sala
[tudo presente de gente delicada com gente]
até o dia de Reis
porque disse alguma tradição que assim sempre foi
e assim sempre será
Amém
Axé
שלום
नमस्ते
美味 和平
Saravá

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
Esse post foi publicado em Blasfêmias, Stardust. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s