A Umbanda no Triângulo da Fraternidade

De religião, quero continuar mantendo minha distância. Quanto à música e à mitologia, venho me encantando com a Umbanda e o Candomblé. Recentemente ganhei de presente uma seleção de músicas relacionadas a Orixás, Umbanda, Candomblé, cultura afro-brasileira. Nas primeiras faixas tinha umas quantas coisas cantadas pela Clara Nunes, uma ídola de infância. Resultado, passei tempos resgatando Clara Nunes da memória, procurando e encontrando mais canções que falam dos Orixás. Descobri umas cantoras que não conhecia, por andar há muitos anos bastante fora de órbita quanto ao que se vem fazendo em música: Rita Ribeiro, Mariene de Castro, Margareth Menezes. O primeiro acesso de 2013 a este blog foi ao post para Iemanjá. Tudo isso acabou dando vontade de dedicar a Orixás, Umbanda e Candomblé as postagens de janeiro de 2013, ou pelo menos boa parte delas. Inclusive, 20 de janeiro é o dia do meu orixá de cabeça, Oxóssi, e aí o mês todo vira um mês de homenagem, ideia legal.
Para começar, vou colocar umas coisas que vi no canal do Triângulo da Fraternidade no YouTube. Eles estão no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Vi os vídeos que fizeram sobre Iansã, Oxóssi e Oxum e gostei muito. Eles conquistaram ainda mais a minha simpatia com o texto que usaram para se apresentar no canal. Reproduzo esse texto logo depois dos vídeos. Os dois vídeos deste post contam um pouco da história do Triângulo da Fraternidade, explicam o motivo da criação de um grupo de estudos e falam um pouco da Umbanda. Acabei me inscrevendo no canal e ainda pretendo ver mais vídeos deles.
Cheguei até a pensar em visitá-los. Mas aí, conforme fui vendo outros vídeos e compondo uma visão mais de conjunto do tipo de discurso que assumem, confesso que meu entusiasmo arrefeceu um pouco, porque a parte que para mim é mais desinteressante do sincretismo da Umbanda é justo o componente cristão ao estilo do espiritismo kardecista, que pareceu ter mais força do que eu gostaria nas falas desse grupo. Talvez seja pura implicância, suprema ignorância, enfim. Mas o fato é que discurso sobre Jesus que vi em alguns vídeos desse grupo de Porto Alegre teve como efeito, para mim, descolorir a veia africana e indígena, tingindo demais as coisas da branquidão do branco europeu, fazendo prevalecer a voz do colonizador, desfigurando a subversão da opressão simbólica operada por africanos e índios, pela via do sincretismo com o catolicismo. É como se, para mim, não fizesse sentido ser Jesus quem tem o quadro pendurado no centro da parede, com Oxalá quase como seu efeito colateral, é como se Oxalá devesse ser a figura destacada no par Oxalá-Jesus, o mais exaltado, por ter sido um Orixá disfarçado de Jesus em grande medida porque os detentores de poder cristãos não permitiam que Oxalá fosse Oxalá. É como se o sermão de igreja sobre Jesus – em lugar dos tambores, cantos, danças, roupas, rituais… em louvor a divindades e entidades africanas ou indígenas – derrubasse o que o edifício tem de mais característico, apagasse suas principais raízes, sua história. Como se a ordem dos fatores aí alterasse dramaticamente o produto do sincretismo. Se você acabou de ouvir um canto maravilhoso a Oxalá como este, quase morre de dor. Meio decepcionante, para quem se aproxima das religiões da perspectiva mais cultural, com overdose de recitações cristãs dos Evagelhos (como ponto postulado de todas as geometrias); para quem se aproxima mais interessado na diversidade das manifestações culturais. Se é para ser tão cristão assim, o catolicismo ainda me comove mais. Antes de chegar nesses vídeos do Triângulo da Fraternidade, eu tinha visto um vídeo de apresentação de um terreiro de Candomblé, que é dirigido por uma mulher negra. A casa, a organização dos espaços na casa, as roupas, tudo me parecia culturalmente mais autêntico e interessante, como manifestação cultural afro-brasileira. (Vou colocar em outro post.) Outro incômodo foi que o espaço físico, nos vídeos que vi, tem um quezinho dos templos evangélicos. E templos evangélicos me lembram franquia de multinacional norte-americana. Sabe McDonald’s espiritual? Acabei vendo outro vídeo de um centro de Umbanda no Rio de janeiro, mencionado positivamente pelo pessoal do Triângulo da Fraternidade, que decorativamente me deu até mais essa sensação de semelhança com templo evangélico, e isso bateu como um certo desencanto com relação à Umbanda. Sei lá, parecia mais alguma nova modalidade das pipocantes novas igrejas cristãs do que com a minha expectativa sobre terreiros. Por fim, me chamou a atenção que os líderes que fui vendo eram quase exclusivamente homens. Será que a Umbanda, em comparação com o Candomblé, vai se configurando numa reinstalação do patriarcalismo cristão europeu e norte-americano? Será que, com o tempo, as origens africanas e indígenas vão sumir num discurso em que dominam hierarquicamente Jesus e os Evangelhos? Ou perder a graça com a adoção de um palavreado cientificista no tom dos misticismos contemporâneos de auto-ajuda (estes também com cara de franquia multinacional norte-americana), que gostam de se apresentar como ciência? Tomara que não, que seja só uma primeira impressão boba, apressada, equivocada. No fim das contas, a UM BANDA não significa mesmo a junção de todas as bandas? E isso não quer dizer que essa banda mais esbranquiçada do kardecismo cristão deva ter também uns lugares em que predomina? Desde que não ofusque as outras bandas em todos os outros lugares, é coerente, talvez. Que cada um dose os ingredientes pelo seu paladar, na receita mais geleia-geral do planeta. É bem isso, no fim das contas, o que o texto do Triângulo da Fraternidade parece estar dizendo, né? Nóis é nóis, mas tem outras Umbandas por aí afora. E eu aqui querendo impor meu interesse particular a eles? Coisa injusta. Pior: contradição minha, talvez, que me entusiasmei com a Umbanda em boa medida pela abrangência e liberdade do sincretismo, embora certamente simpatizando mais com os componentes africanos e indígenas. Seja como for, os vídeos do Triângulo da Fraternidade estão me informando bastante, e recomendo para quem, como eu, seja um desinformado curioseando. Sinto simpatia pelo pessoal que fala nos vídeos (aquela sensação de “gente boa”), acho ótimo que usem o YouTube para divulgação, que se proponham a aprofundar os estudos sobre a Umbanda, adorei suas manifestações de preocupação ética, fundada na compaixão, no respeito à natureza, na gratuidade e nos trabalhos para o bem da coletividade. Saravá, povo da Choupana do Caboclo Pery. Meus agradecimentos.

A Umbanda é uma religião absolutamente aberta que tem inúmeras diferenças de interpretação, que variam de região para região, de terreiro para terreiro, de sacerdote para sacerdote.

A Umbanda não teve, não tem e nunca terá uma codificação ou um codificador. A Umbanda não tem uma bíblia, um livro sagrado, um poder central ou um “Papa” do saber. A Umbanda não tem uma instituição que prevaleça sobre as demais e que estabeleça normas ou formas de culto que engessem a liberdade ritual de cada terreiro e sacerdote. A unanimidade na Umbanda é “não ter unanimidades.”

Especificamente a Umbanda que praticamos em nossa Choupana não é melhor do que qualquer outra prática umbandista dos milhares de terreiros deste Brasil.

Os nossos meios de divulgação – blog, lista de mensagens e canal de vídeos -, democratizando o acesso às nossas palestras, que ocorrem antes das giras, ao estudo sistematizado e as demais preleções ao qual emitimos opiniões e conceitos, baseiam-se em pontos de vistas particularizados em nossas raízes, história e práticas rituais e não objetivam impor doutrinas, verdades, dogmas ou tabus. Temos por motivação atender às inúmeras solicitações que tivemos para que disponibilizássemos estes conteúdos de forma acessível e democrática a todos que são simpáticos aos nossos trabalhos mediúnicos e rito-litúrgicos. Nossa intenção não é e nunca será estabelecer fundamentos que engessem quem quer que seja tolhendo a sagrada liberdade propiciada pela nossa religião.

Cada centro, cada terreiro, tem sua própria raiz, origem e fundamentação e em todos eles a essência do Sagrado vibra igualmente ligando-os com o Divino em conformidade ao modo de entendimento de cada agrupamento de consciências.

Possivelmente, como a maioria dos seus adeptos, entendemos a Umbanda, enquanto religião estruturada, do ponto de vista de vivências rituais individualizadas, pois acreditamos ser impossível a um ser humano vivencia-lá e percebê-la em sua totalidade e plenitude de interpolações teológicas a ponto de emitir opiniões com sentenças pétreas ou códigos definitivos. A Umbanda, pelo fato dos milhares de terreiros existentes que a compõem, serem independentes entre si, se comportando como unidades religiosas autônomas e livres, não é doutrinariamente padronizada na Terra e cremos que nunca o será por vontade do Pai.

Procuramos somente atender os anseios da comunidade que simpatiza conosco, assim como acontece de uma ou outra maneira com todos os demais terreiros, seus dirigentes e agrupamentos de médiuns.

Não damos cursos pagos, não formamos sacerdotes e os nossos eventos de estudo não emitem quaisquer certificados ou imputa fundamentos à Umbanda.

Respeitamos incondicionalmente a mediunidade e as diferenças de interpretações do Sagrado emitidas por todas as lideranças umbandistas da atualidade.

Preconizamos uma Umbanda com o Cristo-Jesus, ética, que preserva a natureza, incentiva a vida, respeita as diferenças, não objetiva quaisquer ganhos pessoais ou de instituições e fomenta o respeito, a concórdia, o amor e a fraternidade em favor da coletividade.

Choupana do Caboclo Pery
Grupo Umbandista Triângulo da Fraternidade
Fundado em 1992

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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Uma resposta para A Umbanda no Triângulo da Fraternidade

  1. Maria NIlza disse:

    Como eu gostaria de conhecer a Choupana do Caboclo Pery
    (Grupo Umbandista Triângulo da Fraternidade). Depois que eu li os livros escritos por Norberto Peixoto e assistidos por Ramatis (se assim posso dizer), fiquei fascinada. Quando eu for a Porto Alegre, visitarei o centro, se Deus quiser.

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