Metáfora do amor – Antonio Ozaí

Blog do Ozaí, 13/10/2012

Pink_Roses_ wall paper

…algo em si mais importante e sagrado do que o objeto que o inspira… porque faz aflorar o que há de mais nobre e mais belo no ser humano, eleva o que há de mais comum e insignificante e o craveja de brilhantes…
~Rosa Luxemburgo~

No jardim da casa onde moro há roseiras! As rosas são de uma beleza extasiante, especialmente as vermelhas. Rosas vermelhas me fazem lembrar de Rosa Luxemburgo, a vermelha. Li suas cartas e descobri uma personalidade sensível, amante da natureza e atenta aos detalhes mais singelos da vida. [1]

Nestes dias, acompanhei o desabrochar das rosas, o crescimento, o desbotamento e o desaparecimento. Murchas, são levadas pelo vento a chuva. Finda assim o espetáculo da natureza. No entanto, outros brotos nascerão, outra vez as rosas desabrocharão e se mostrarão em sua singela beleza. Ainda que cortem a roseira, desde que não a arranquem da terra que a nutre, a rosa nascerá novamente.

Fiquei a admirar a vida sintetizada no brotar e mirrar das rosas e um pensamento se apoderou de mim: Assim também é o amor! Como a roseira, ele precisa de cuidados! Sem a seiva que o alimenta e o revigora, perece. Como a roseira, o amor tem espinhos que ferem e faz sangrar. Os espinhos são inerentes à natureza da roseira, apesar da beleza das rosas. Se o amor é belo como elas, há também espinhos que causam ferimentos e dores dilacerantes. Pois o sofrer e a capacidade de causar sofrimento faz parte do amar.

Não obstante, amar é uma experiência indescritível. O amor é “algo em si mais importante e sagrado do que o objeto que o inspira. E isso porque ele permite ver o mundo como um cintilante conto de fadas, porque faz aflorar o que há de mais nobre e mais belo no ser humano, porque eleva o que há de mais comum e insignificante e o craveja de brilhantes e porque possibilita viver em embriaguez e êxtase”, escreveu Rosa Luxemburgo. [2] Como a roseira, se cuidarmos para que não faltem os ingredientes necessários à sua existência e não nos esquecermos de tomar os devidos cuidados para não nos ferirmos com os espinhos, o amor subsiste e resiste às intempéries da vida.

rosa ozai 02

Como a roseira, geramos diversas experiências de amar, amores que jamais esquecemos.

Como as rosas que desabrocham para perecer e renascer, assim é o amor. Ao seu desabrochar segue-se o tempo da paixão extasiante; como as rosas, pode murchar e se extinguir aos poucos até que restem apenas as lembranças e o sentimento armazenados na alma. A rosa, ainda que não a vejamos, está presente na própria existência da roseira. À semelhança da rosa que ainda não brotou, o amor parece inerte e morto. Olhamos a roseira e não vemos a rosa, mas ela existe em potência no vir-a-ser. E quando ela desabrocha em toda a sua beleza exuberante, é como se estivesse ali o tempo todo. Metaforicamente, mesmo quando o amor parece extinto, ele subsiste no ser vivo que, como a roseira, cultiva-o em si, nos sentimentos, na memória e razão.

Se cultivarmos a roseira com carinho, ela continuará a gerar rosas que embelezam e alegram o nosso viver. O ser humano precisa ser tratado com o mesmo carinho, o amor precisa ser cultivado. Então, mesmo quando pareça inexistente, desabrochará novamente. Pois, ainda que adquira outras formas, que se manifeste em outras condições e tome outras direções, o amor resiste ao tempo e permanece no ser que ama. As rosas nascem, perecem e são substituídas por outras produzidas pela mesma roseira. A roseira não tem memória nem sentimentos, ela apenas reproduz o ciclo da vida. Se ela pudesse lembrar e sentir, as rosas que no passado desabrocharam e se extinguiram estariam presentes nela. Como a roseira, geramos diversas experiências de amar, amores que jamais esquecemos.

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…ainda que adquira outras formas, que se manifeste em outras condições e tome outras direções, o amor resiste ao tempo e permanece no ser que ama.

Há uma maneira de impedir que a rosa desabroche: arrancar a roseira do solo que a nutre. Quanto ao amor, ele só se extingue definitivamente quando o corpo que ama, inerte e sem vida, é lançado ao solo ou transformado em cinzas. Ainda assim, o amor sobrevive nas lembranças do ser amado. É da natureza da roseira gerar rosas; amar é intrínseco ao humano!

A rosa é a metáfora do amor!


[1] Sugiro a leitura de “As cartas de Rosa Luxemburgo”, publicado em 11.08.2012.

[2] Carta a Sofhie Liebknecht, [Breslau] 24 de novembro de 1917. In: Rosa Luxemburgo – Cartas – Vol. III. Organização de Isabel Loureiro. São Paulo: Editora da UNESP, 2011, p. 321.

Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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