A vida é um sopro e impressões sobre Niemeyer e Gaudí

Nunca escondi que a arquitetura do Niemeyer não era das que me emocionava. Isso não tem a ver com negar a qualidade dela: não chego a deixar de entender a genialidade que tem. Tem a ver com um sentimento de um grau considerável de falta de afinidade: muitas vezes não sinto bem-estar nem perto nem dentro de algo que ele desenhou. Sensação de que se trata de uma arquitetura-escultura, menos do que de uma arquitetura humana. Nem costuma bater com meu gosto estético: não chega a me provocar muita sensação de beleza. Tinha grande expectativa e fiz um esforço considerável para conseguir ver pessoalmente a igreja de São Francisco de Assis da Pampulha e, tirando o painel do Portinari, foi meio frustrante. Museu de Arte Contemporânea de Niterói: admiração predominantemente racional. “Que coisa essa forma, não?” Menos emoção estética, contudo. Arquitetura conceitualmente admirável, pouco acolhedora e nem tão habitável. Sensação parecida na catedral de Brasília. Interessantíssimo que pareça mãos unidas em oração. Linda de ver de longe. Linda de ver com iluminação noturna. De dia e lá dentro, só os anjos encantavam. Legal a iluminação natural. Mas excessiva e pouco confortável, numa cidade tão quente. Para o meu gosto, talvez. Falta de capacidade para apreciar? Arquitetura só para ver à distância. De repente era isso mesmo que ele pretendia fazer. Do Memorial da América Latina, em São Paulo, francamente não gostei. Sentindo um tremendo calor no imenso pátio de concreto, pensei: deserto feio e inóspito. Contraditoriamente, abre muito espaço para reunião de seres humanos, mas dificilmente tornaria essa reunião agradável. Talvez seja a abundância de concreto combinada com essa estranha ausência do verde o que nunca me convence. Concreto me parece que só se redime com muito verde, entre árvores altas, com paisagismo especial, e quem sabe com água. Talvez meu espírito definitivamente não tenha mesmo afinidade com a arquitetura da modernidade. Falo a partir do que conheci, é claro, que se limita ao mencionado aqui.

O estranho é que um dos arquitetos que mais me emociona, que mais me faz sentir “adoro isso aqui”, seja o Antoni Gaudí, que formula princípios muito semelhantes aos do Niemeyer: que as formas da natureza deveriam inspirar as formas da arquitetura. Dos mesmos princípios, surgem construções que impactam de forma muito diferente a minha sensibilidade. Talvez porque o Gaudí pareça fazer uma integração intensa entre o antigo e o moderno. A fachada do nascimento na catedral da Sagrada Família me parece puro barroco. O parque Güell tem lugares de sombra agradável, pedra, muito colorido de painéis de azulejo picado. E tem a casa que chamo de “a casinha de guloseimas de João e Maria”. Sinto o Gaudí como alguém de uma imaginação mais fantástica. Como se Gaudí e Niemeyer se diferenciassem resumidamente em termos de imaginativo inconsciente vs. conceitual racional. A casa Batlló me transmite algo ao mesmo tempo alegre, fantasmagórico e absurdo. Também é cheia de curvas. Tem pequenas colunas que lembram ossos. Telhado que lembra escamas de peixes. Rostos estranhos de seres fantásticos, caveiras ou até extraterrestes se insinuam em vários lugares no que o Gaudí fez. Tudo parece vivo, como num tipo de arquitetura do animismo. Há escadas que formam caracóis e são como espirais vertiginosas de infinito. Quase não há espaço para o plano estéril, não lembro de concreto liso e chapado acontecendo sozinho, tudo é coberto por detalhes cuidadosos, curvas, arabescos, estátuas, preenchido com mosaicos coloridos, pedras, portões de ferro que são obras de arte, portas de madeira curvas e irregulares. Tudo parece moderno e ao mesmo tempo ancestral. Se estivesse na arquitetura, acho que Gaudí seria meu principal inspirador, esse cara que o Caetano parece ter sugerido ser “tímido-espalhafatoso” [1]. Gaudí barroco. E barroco da igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, as esculturas do Aleijadinho. Gaudí gótico. Gaudí art nouveau. Arquitetura colonial e artesanato colorido. Arquitetura árabe, que preza a sombra fresca, treliças nas janelas para atenuar a luminosidade e o calor deixando passar o ar, fontes, arquitetura árabe que coloca água e jardins por toda parte e faz paredes com detalhes de cores, relevos e versos, como na Alhambra de Granada, que de fora e de longe nem é tão atraente (castelão meio duro e pesado), mas dentro é uma delícia de estar. E me intriga um pouco que, apesar do meu quase ateísmo racional, a arquitetura que me toca tenha tantas vezes sido desenhada por religiosos, como o Gaudí místico-cristão, que seja essa a minha afinidade estética maior, e não a arquitetura concebida por um ateu comunista, que tem portanto mais afinidade com meu sentimento de mundo. Talvez porque meu quase ateísmo racional seja plural-teísta-místico-animista cultural.

Sei, no entanto, que o que o Niemeyer fez também foi genial. Gosto do que seus espaços têm de amplos e altos, algumas vezes de como parecem querer ser invisíveis e vazados para não ofuscar uma paisagem maravilhosa ou o horizonte (Museu de Arte Contemporânea de Niterói). Também acho legal que as coisas tenham uma considerável quantidade de vidro, para que permanentemente se possa ver lá fora, desde que não prejudique uma dose de luminosidade e temperatura confortáveis, como achei que acontecia na catedral de Brasília. É como o espaço do sábio autenticamente modesto e amoroso: ama arquitetando o espaço de si para receber o outro e a diversa amplitude do mundo. Até intuo que se estudasse a obra do Niemeyer, se conseguisse entendê-la melhor, gostaria mais. E sou dessas pessoas que não vêem com desprezo o amor gerado pela compreensão racional, muito pelo contrário. O entendimento racional pode nos tornar visível o que antes era invisível, guiar a percepção embotada para coisas que antes não éramos capazes de ver. Enfim, o que eu simpatizava mesmo era com a pessoa do Niemeyer. Minha última visão dele foi pela internet, no ato da Cultura a favor da candidatura Dilma. Parecia fisicamente tão fragilizado e estava lá na primeira fila. Indizível gratidão. E gostava demais de ouvi-lo falar.

[1] “Sou tímido-espalhafatoso, torre traçada por Gaudí”, em Vaca Profana.

Vi o vídeo “A vida é um sopro” num tuíte do @ProtogenesQ

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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