Pai e mãe e ouro de mina



É d’Oxum – Gal Costa

Ladies first? Nada disso. “Seu Orixá é Oxóssi”, disse o caboclo Arranca-Toco. Até então, na minha cabeça, “caboclo” era mestiço de índio e branco. Mas aí encontrei que a palavra caboclo, que vem do tupi kareuóka e significa “da cor de cobre”, pode ser também o “nome genérico dos espíritos de ancestrais indígenas brasileiros, nas religiões ou seitas afro-brasileiras” (explica o Aulete). E o Arranca-Toco era caboclo porque a Umbanda veio também de índio e não só de negro. Deu uma certa surpresa, porque minha expectativa era ouvir um preto-velho. Mas era uma grande bobagem. Além do mais, o que era visível para mim era só o “cavalo”, que estava mais para branco mesmo, e era de Minas Gerais. Esclarecimentos: são os médiuns da Umbanda que se referem a si mesmos como “cavalos”. Eles se simbolizam como cavalos dos espíritos. Não tem neste post ânimo de ofender ninguém, que fique claro. Muito pelo contrário: trata-se de tentar transmitir porque me pareceu que a Umbanda, a partir do pouco que descobri dela um dia, é um dos nossos tesouros. Se entram umas risadas aqui e ali, é porque também reverencio os Hotxuás, sacerdotes do riso da tribo Krahô: brincadeira e risada é coisa sagrada.

Conforme fui lendo um pouco aqui e ali, com a assistematicidade de sempre, acabei suspeitando que a Umbanda deve ter mais caboclo que qualquer outra coisa. Até porque foi iniciada por um deles. Achei (tudo com o Google, nenhuma intenção de precisão aqui: texto impressionista) que a Umbanda foi fundada em 15 de novembro de 1908, em Niterói (!), pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Mas tinha viajado com bagagem paraibana de Catimbó. E entraram também, na sua Aruanda ou seu Juremá, o catolicismo e o espiritismo do branco. Diz que, junto com os Orixás, a Umbanda tem anjo, tem santo, e tem um único Deus supremo. Sei lá, não parece coisa feita para cristão de criação entender bem. (O lance deve pedir outro tipo de aproximação.) Na Umbanda daquela entidade que me falava, tem entidade preto-velho, índio, boiadeiro, criança… tudo com as devidas flexões de gênero. O Arranca-Toco é um caboclo de Xangô, o Xangô da pedra do corisco, do trovão, do fogo de vulcão, da pedreira, da Justiça. A Umbanda também tem caboclo e cabocla de Ogum, de Iansã, de Iemanjá, de Oxum, de deus e o mundo. Caboclo e cabocla de nunca acabar. Fora as combinações de preto-velho ou preta-velha e outras falanges também sob reinado de diferentes Orixás. Uma combinatória potencialmente infinita. É tanto espírito, mas tanto espírito, e todo mundo tão variado, que a festa deve ficar bem animada quando eles todos se encontram. Se todo mundo entrar para brigar pela mesma causa, então, ninguém segura esse exército. As metas dessa multidão são tão nobres quanto as de qualquer monoteísmo, defende um dos sites que consultei. Só que, como os espíritas kardecistas olhavam torto para espírito de índio e negro, essas falanges se restringiram inicialmente aos espíritas da Macumba, aqueles que topam tudo, galinha preta na encruzilhada para matar o vizinho e tal. O tal site me diz que os espíritos da Umbanda não fariam maldade, nem topariam intervir em livre-arbítrio de namorada, nada dessas coisas. Isso faria supor que, para fazer malefícios, a Macumba trabalha com entes espirituais que não discernem bem entre o que é certo ou errado, às vezes mesmo por sua inocência de criança, como uma vez me disseram que podiam ser os Exus. Encontro em outro site que o Candomblé seria entre as três – Macumba, Umbanda e Candomblé – a religião mais próxima dos cultos que vieram da África, que não tinham médiuns recebendo espíritos, como na Umbanda (o que deve significar que os médiuns, no Candomblé, se restringem a incorporar os próprios Orixás?). As consultas sobre o Orixá de cada pessoa se fariam no Candomblé com comunicação por meio de búzios, parece, mas ainda não entendi muito bem a relação que o Candomblé tem com mediunidade, espíritos e Orixás. Nunca cheguei a ir num terreiro de Candomblé para curiosear in loco. Vi, por fim, alguém dizendo na web que a Macumba seria um “desvio” da Umbanda, e que a Macumba não deveria ser considerada propriamente uma religião. Duvido que quem é da Macumba opine o mesmo, enfim. E não sei nada sobre o que é Quimbanda. Tenho a impressão de que se aproxima do que chamam de Macumba, se é que não é o mesmo. Volto a me envergonhar com o pouco que sei deste meu país. Sem mais fôlego para procurar informação também sobre Candomblé, Macumba e Quimbanda hoje, concluo principalmente que importa esclarecer isto: tem adeptos da Umbanda que afirmam que ela não admite sacrifício de animais, nem “trabalho” para causar dano ou interferir na vontade de outras pessoas, que livre-arbítrio está entre uma das coisas que se prezam por lá. E, voltando ao pai, meu Orixá é Oxóssi, segundo o caboclo Arranca-Toco.


Oxóssi – Aline Calixto

Mulher com Orixá masculino tem junto uma Iabá, ou Orixá feminina. (Pelo que lembro do que o caboclo justificou para me dar de brinde também uma mãe.) “Pra quem é de Oxóssi, a Iabá pode ser Oxum ou Iansã”. Perguntando umas coisas, concluiu que era Oxum. Acho que foi porque choro fácil. Alegria, tristeza, raiva, cansaço ou beleza dão nos mesmos olhos cheios de lágrimas. Nem sempre é controlável, o que às vezes resulta em vexame público. Aguaceira de dar gosto. “Chora fácil?” Pronto, encheram os olhos de lágrimas. Nem precisava ter respondido. Oxum já tinha posto a cara na janela como quem diz: “chamou?” Por sorte, o riso sai igualmente fácil. E, claro, chorar de rir, no meu caso, é quase sempre literal. Além disso, acho que também foi porque Oxum prefere diplomacia e procura evitar briga. Bem-vinda, mãe Oxum da cachoeira. O dia dela está logo aí: é 8 de dezembro. Só por essa razão de data o primeiro vídeo foi dela. Não é por ser lady não. Aliás, dizem que ela é vaidosa, mas também tem quem diga que é boa guerreira. Ora iê iê ô!


Oração a Oxum – Zeca Baleiro

O dia de Oxóssi é 20 de janeiro. Dezembro e janeiro são meus meses preferidos, junto com fevereiro, que é mês de Iemanjá: os meses do maior calor tropical e da chuva torrencial nesta capital. Foi assim que ganhei um pai e uma mãe da África. O pai meio feminino: é a mata, a floresta. A mãe meio masculina: é riacho doce. Mas pode ser também feminina: queda d’água. Ou qualquer água, eu acho, porque lá no Rio, quando chove em Copacabana durante a passagem de ano, o povo acha que o ano vai ser de Oxum. Enfim, não deve ser tão simples porque a chuva tem muitos responsáveis por ela, como corresponde: Ewá, Nanã, Oxumaré. Fora que, quando é tempestade com ventania e raios, tem participação especial de Iansã e Xangô. Além disso, li numa determinada página de Umbanda que se autodenomina “genuína Umbanda“, que todas as Iabás estão juntas dentro da linha de Iemanjá, e parece que quase todas têm alguma relação com a água, daí talvez uma certa complexidade sobre quem é que tem a ver com quê tipo de água.

Oxóssi é lunar, verde e azul. Assim como eu, gosta muito de camarão e de amendoim. Sendo meu pai, deve mesmo morrer por uma boa paçoca. Outros dizem que sua comida é o milho. Outros, a mandioca. Invariavelmente, coisas que eu adoro. Ele é caçador, e tem um nível figurado para isso, no qual a sua “caça” é o conhecimento. O conhecimento puro, científico e filosófico, porque transformar conhecimento em técnica parece que é tarefa de seu irmão gêmeo: Ogum. Esses dois irmãos, ao contrário de Caim e Abel, são grandes amigos. Tem quem diga que, juntos, foram os Orixás civilizadores da humanidade. E Oxóssi tem também sua dimensão muito prática: lhe cabe a tarefa de buscar o alimento diário da tribo. Como usa arco e flecha, faço dele a imagem de um Orixá especialmente fundido com o índio. De fato, encontrei o comentário de que já houve quem entendesse que todos os caboclos, sendo espíritos de índios, estariam sob a vibração de Oxóssi. Mesmo o Arranca-Toco, que é caboclo de Xangô, então, teria lá sua parte com Oxóssi. Em outro lugar, que não consigo mais achar agora, se dizia que era um tipo de líder principal dos caboclos. Sua convivência com Oxum não é muito harmônica, parece, porque ele é despojado, e ela é mais dada a luxo. Ela é solar, daí o amarelo, dourado e branco. Mas dizem que as cores de Oxum podem incluir o azul celeste e o rosa. Porque tem muitos desdobramentos de Oxum: Oxum disso, Oxum daquilo, Oxum tal e Oxum qual. Tipo aquele super-herói dos Impossíveis que eu mais gostava, o Multihomem (colega do Homem-Mola e do Homem-Fluído): “Você acertou todos, menos o verdadeiro.” (Nada melhor para confundir o inimigo.) Sei lá, encontro para tudo versões variadas, e vamos aqui tentando uma colcha de retalhos. É essa mesmo a intenção, porque a Umbanda vai me parecendo essencialmente uma entusiasmante colcha de retalhos. “Por não ser uma religião codificada, a Umbanda apresenta variação de ritos, símbolos e oferendas”, explica a Wikipedia. Para complicar, acho no Candomblé os mesmos Orixás, com ainda outras variações de cores, comidas… Enfim, quanto às cores, me basta com verde, azul, amarelo e branco: pai e mãe pintam a minha bandeira. Eles subvertem muito do que era pouco saudável engolir daquele catolicismo de criação. Desancam boa parte do que têm de insossos os estereótipos do masculino e do feminino, fundindo e combinando. Da união de Oxum e Oxóssi nasceu um Orixá meio andrógino, Logunedé, que rege as artes. Embora Logunedé seja descrito como andrógino, parece que ele tem mais a ver com os adolescentes, e que, entre os Orixás, aquele que cria lugar para os gays é Oxumaré, do arco-íris, cujos “filhos” são especialmente belos, ou seja, também Orixá associado à beleza. Logunedé e Oxumaré são dois dos Orixás que ora são homem ora são mulher. Ainda fico pensando se Logunedé é variação de Oxumaré, mas checar isso fica para depois. A Umbanda, como se sabe, operou um sincretismo também com os santos católicos. Por isso permite preservar coisas como a Nossa Senhora Aparecida, a mulher negra que tanto tempo levei pendurada e dourada, resquício de religião no pescoço. Por estranha coincidência, no sincretismo com o catolicismo, Nossa Senhora Aparecida pode ser Oxum. Pode ser também Iemanjá. E Oxóssi, no Candomblé de Salvador, pode ser São Jorge, que é outro santo preferidíssimo, por essa coisa meio fantástica de lutar com dragões. Salve, Jorge! No Rio de Janeiro e Centro-Sul do Brasil, Oxóssi pode ser São Sebastião, que não sei bem quem é. Tudo pode ser? (PS: Durante mais de ano ficou aqui no post que, no Rio, Oxóssi era São Bartolomeu. Não sei se vi isso em algum site, se foi ato falho: agora só encontro que, no sincretismo, São Bartolomeu é Oxumaré, não Oxóssi. Corrigido, por fim.)

Duvido que algum dia eu frequente a Umbanda, ou qualquer outra religião. Muitas das histórias que as religiões contam me parecem estar entre as melhores façanhas da vocação imaginativa e simbólica dos seres humanos, mas acreditar nesses contos são outros quinhentos. E o caboclo sacou bem o motivo que me levava ali: curiosidade herdada do pai Oxóssi. Ele também sabia que quem é de Oxóssi não é lá muito gregário: Oxóssi não é de tribo; seu barato é mais se embrenhar sozinho no mato. Vai à aldeia para levar sustento e volta logo prô seu retiro, onde encontra seu alimento e o alimento que está disposto a compartilhar. Ele tem pontaria certeira, precisa só de uma flecha para acertar. “Orixá das matas e florestas, é tão bom protetor dos animais quanto bom caçador, e só caça o suficiente para garantir a subsistência de sua tribo, comunidade, povo.” Quando eu crescer, quero ser como esse meu pai Oxóssi. Um pouco de conversa com o “cavalo” antes da sessão – profissão e um par de coisas mais – e o danado do caboclo tinha captado direitinho quem mandava nas bandas do meu coração. Okê arô!


Oxóssi é rei – Rosana Pinheiro

A minha linha é do povo do oriente, disse depois da sessão o médium. Essa linha tem sete falanges sob chefia de São João Batista, é regida por Oxalá e Xangô, e amalgama coisas como cartomancia, numerologia, astrologia, ciências… Salve o Povo do Oriente! Para a linha do oriente, o cavalo do caboclo Arranca-Toco me aconselhou a acender vela lilás. E já tenho aí quase todas as cores. Em mais ou menos uma hora, montou-se um quebra-cabeça completo com meus cacos sincréticos. Apaixonante mesmo. E a “defumação” final com charuto tinha contemplado algo da minha expectativa inicial de falar com preto-velho/preta-velha. Os presentes que a Umbanda tinha me dado eram mais bonitos do que eu teria sido capaz de imaginar em alguma carta a Papai Noel. Obrigada, Umbanda. Saravá.

Acho que tenho uma enorme parte da alma negra, como provavelmente todo mundo no Brasil. Sinto assim porque desde a infância esta alma vibra em uníssono quando alguém toca a corda da negritude. Me acontecia com as roupas, danças e cantos da Clara Nunes, sem ter nem muita idade para entender.


Tributo aos Orixás – Clara Nunes

A África e os índios brasileiros coloriram a cultura, deram ouro real (não ouro de tolo) à música e à culinária, dança mais solta, múltiplas variações de belezas a este povo. As mãos que, nesta terra, foram as que mais puseram a mesa e fizeram a limpeza, a gente devia reconhecer como mãos da nobreza. Mama África e pai Tupã, eu sei, ajudaram a me devolver corpo, sentidos e natureza. Ali, com a intermediação do caboclo, estavam me adotando um pai afro-índio e uma mãe africana, sem me pedir para abrir mão de nada, nem mesmo do budismo ou do hinduísmo: a Umbanda, dizem, além de tudo que é índio da América e branco, abraça também hindu, chinês, japonês, árabe… Eles têm seu lugar lá na linha do oriente. São saudados  com “Kaô”, e chamados também de “povo da cura”. A Umbanda parece ser meio assim: “surgiu mais um povo? Peraí que a gente abre espaço”. Na tal linha do oriente tem bloco de asteca, bloco de egípcio da época dos faraós, toda uma pirotecnia de anacronismos num baile de Carnaval. Nem o risonho e tolerante Cervantes conseguiu lugar para tanto personagem diferente na mesma história. Umbanda que reúne tudo num mosaico surreal e barroco. Umbanda festeira de carnaval. Umbanda que conta suas histórias em canto e batuque bem ritmado. UmBandaUm, bandas mis. Representação perfeita da utopia de Gil: Brasil e América Latina mestiços universais. Uma vez realizada, essa feliz utopia contagiaria o mundo com sua fórmula áurea de convivência e solidariedade. Pedra filosofal latino-americana. Gilberto Gil, profeta-trovador do Brasil UmBandaUm. Meu eterno Ministro da Cultura. A Umbanda tem até mesmo um pouco de cara de São Paulo: catando daqui e de lá, “é como o mundo todo”. Com a grande diferença de que todo mundo parece igualmente bem recebido no reino de Aruanda-Juremá, a cidade-floresta arquitetada no encontro de caboclo e Orixá. Tudo isso, a gente devia cultivar e festejar.


BANDA UM – Gilberto Gil

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Sobre Ani

Outros que contem passo por passo | Eu morro ontem | Nasço amanhã | Ando onde há espaço: | – Meu tempo é quando. ~Vinicius de Moraes~
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